Novo blockbuster da Marvel dominou as salas de cinema no fim de semana, deixando filmes nacionais perto do mínimo obrigatório por cota de ocupação.
reportagem por Rafael Schmeiske

Curitiba – Já virou rotina as megaproduções da Disney e outras mega-produtoras tomarem completamente o espaço nas sessões dos cinemas em todo o mundo, e com o novo lançamento da Marvel Doutor Estranho no Multiverso da Loucura não foi diferente. É natural que os filmes que arrecadem mais sejam prioridade para os cinemas, já que logicamente eles farão mais dinheiro assim, mas como ficam os filmes nacionais no meio desse jogo de interesses?
COTAS NACIONAIS
Desde 2001, por meio da MP Nº 2.228-1, a lei garante uma cota mínima de exibição de produções nacionais nas salas de cinema no Brasil. No entanto, a “Cota de Tela” depende de decretos anuais do Presidente da República para definir o número de dias para o cumprimento da cota, a diversidade de títulos que devem ser exibidos e o limite de ocupação máxima de salas de um mesmo complexo pela mesma obra, o que dificulta a logística para o estabelecimento e fiscalização de tais normas.
No ano passado, a comissão de cultura da câmara aprovou um projeto de lei que torna permanente a obrigatoriedade de exibição comercial de filmes brasileiros em salas de cinema. A nova regra estabelece número de filmes e tempo em cartaz de acordo com o tamanho da exibidora. Por exemplo: um cinema que tem apenas uma sala teria que exibir pelo menos 3 títulos diferentes durante 28 dias. Já um complexo com 20 salas teria que exibir o equivalente a 800 dias com no mínimo 24 títulos diferentes. O texto aprovado é um substitutivo da deputada Áurea Carolina (PSOL-MG) que engloba 3 projetos de lei sobre o mesmo tema.
Com a cota, as exibidoras brasileiras são obrigadas a exibir filmes nacionais por um número mínimo de dias. O descumprimento implica multa de 5% da receita bruta média diária do cinema, multiplicada pelos dias em que as cotas não forem respeitadas.
No entanto, a discrepância entre os títulos nacionais e internacionais não se manifesta apenas no tempo de exibição. A taxa de ocupação das salas de cinema mostra que a maioria das sessões são ocupadas por filmes de Hollywood, e em certos casos, por um único filme.
DOUTOR ESTRANHO E MEDIDA PROVISÓRIA
De acordo com o banco de dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine) existem 80 salas de cinema em funcionamento em Curitiba. Neste domingo (08/05) elas contaram com 307 sessões, entre filmes de comédia, infantis, dramas e aventuras. Apesar dessa variedade, o destaque ficou com a superprodução da Marvel: Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, que ocupou mais da metade de todas as salas desde sua estreia no dia 4 de maio. No domingo, foram 192 sessões com o filme, cerca de 63% das exibições do dia, enquanto quatro filmes nacionais disputavam entre si com 27 apresentações disponíveis.
Essa distribuição é lógica, se pensarmos apenas de uma forma empreendedora, como fazem muitas vezes os donos ou gerentes de grandes cinemas: para lucrar ao máximo, eu devo colocar em cartaz o filme que venderá mais ingressos. Os números de bilheteria reiteram essa constatação, em seu final de semana de estreia Doutor Estranho lucrou mais de US$ 450 milhões (mais de R$ 2 bilhões) e já se aproxima das maiores 250 bilheterias da história do cinema; enquanto os dois filmes nacionais mais aclamados do momento, Detetives do Prédio Azul 3 e Medida Provisória arrecadaram 3,4 milhões e 2,2 milhões de reais, respectivamente. O segundo, inclusive, passou por uma campanha que buscava valorizar a si mesmo e o cinema nacional durante sua divulgação.
O thriller dirigido por Lázaro Ramos entrou em cartaz no último dia 14 de abril. O filme conta com elenco estrelado liderado por Taís Araújo, Seu Jorge e Alfred Enoch – conhecido pelo papel do bruxo Dino Thomas na franquia Harry Potter. A produção também teve a participação de Adriana Esteves, Emicida, Renata Sorrah, Mariana Xavier, entre outros nomes.
Antes da estreia, o diretor fez campanha para que o público expressasse o interesse pelo filme. Em sua rede social: “Hoje é o dia que os exibidores decidem em quais cinemas vai passar #MedidaProvisóriaOFilme. Marquem os cinemas e as cidades que vocês querem ver o filme, é muito importante que eles saibam que temos público para isso”.
A campanha funcionou e o sucesso inicial foi grande: em sua primeira semana, o filme esteve presente em 188 salas, levando mais de 100 mil espectadores aos cinemas. Nas duas semanas seguintes, o circuito do longa subiu para 330 e em seguida para 365 salas, chegando a marca de 340 mil espectadores.
Contudo, na última semana, o filme estava disponível em apenas 137 salas, uma queda de mais de 50%. Em Curitiba – em um dia – apenas 8 sessões exibiam Medida Provisória, enquanto Doutor Estranho 2 foi exibido em 192 salas, ou seja, 63% de taxa de ocupação dos cinemas para um único título.

NADA DE NOVO
Em 2019, a disputa por espaço nas salas de cinema foi ilustrada por outro blockbuster dos estúdios Marvel. Até o momento da estreia de Vingadores: Ultimato, a sequência De Pernas pro Ar 3, estrelada por Ingrid Guimarães, atraía cada vez mais público. O longa nacional já havia sido exibido para mais de 1 milhão de espectadores. Porém, a chegada de mais um lançamento da série de heróis da Marvel afetou drasticamente o desempenho de um dos maiores sucessos do cinema nacional recente. Repentinamente, centenas de salas pelo país que exibiam o filme brasileiro dirigido por Júlia Rezende deram espaço para sessões de Vingadores.
Na sua semana de estreia, De pernas pro ar 3 foi exibido em 1010 salas de cinema no país. Na segunda semana, o número ainda era relativamente alto, contando com exibição em 800 salas, vendendo 1.180.000 ingressos em 14 dias. Porém, na terceira semana, com o lançamento de ‘Vingadores: Ultimato’, a comédia nacional passou a ocupar 546 salas, contra 2702 salas dedicadas ao filme da Disney.
Houve relatos também de casos de sessões que foram substituídas já com ingressos vendidos. De acordo com a Mariza Leão, produtora do filme brasileiro, cerca de 770 sessões de De Pernas pro Ar 3 foram canceladas sem aviso nem ao público nem ao distribuidor. Vingadores: Ultimato chegou a ocupar 92% das salas de cinema do Brasil.
VALORIZAÇÃO DO CINEMA NACIONAL
Entretanto, essa questão de bilheteria x disponibilização de salas é uma via de mão dupla, os filmes que arrecadam mais são ofertados com mais frequência, mas muitas vezes eles fazem mais dinheiro justamente por terem mais espaço nas telas. Além do dinheiro perdido apenas ao filme hollywoodiano passar mais vezes que o nacional, ele recebe uma melhor divulgação e passa para o espectador a ideia de que ele é melhor, já que o cinema prefere colocá-lo na maioria de suas salas.
O processo de equilíbrio entre essa visão de mercado e uma visão cultural é tênue, mas é preciso um trabalho extenso, que coloque o cinema nacional em um mesmo patamar que dos blockbusters estrangeiros. Um exemplo de cinema que faz esse tipo de serviço em prol dos filmes brasileiros é o Cine Passeio em Curitiba, o único que não exibiu o filme do Doutor Estranho no último domingo, mas passou três filmes nacionais diferentes, nas sete sessões que ofereceram no dia. Não coincidentemente, o Cine Passeio funciona com verba da prefeitura e não depende do dinheiro da arrecadação para se manter, assim pode se dar ao luxo de não exibir as grandes produções.
Projetos como o do Cine Passeio são essenciais para que o cinema nacional conquiste seu espaço e apreço do público, no mesmo nível dos filmes da Disney e Marvel. Para debater essa valorização e a dominação de filmes americanos nos cinemas brasileiros, o podcast ‘Popcast’ recebeu o entusiasta de filmes Gabriel Tassi e discutiu soluções para o futuro do cinema nacional.
