“Horizonte Sombrio” (1920), uma obra-prima discreta

Reprodução: IMDb

nota: A+

CRÍTICA: ★★★★ PÚBLICO: ★★★½
  • Título original: Way down east
  • Direção: D.W. Griffith
  • Roteiro: Jos. R. Grismer, Anthony Paul Kelly, Wm. A. Brady e D.W. Griffith, baseados na peça de Lottie Blair Parker
  • Produção: D.W. Griffith
  • Elenco: Lillian Gish, Richard Barthelmess, Mrs. David Landau, Lowell Sherman, Burr McIntosh, etc.
  • Gênero: Drama, romance
  • Duração: 145 min (2h25)

Obra-Prima

“É uma obra que mostra do que este diretor era capaz, já naquela época, mas desta vez sem nenhum blackface

De todos os filmes de D.W. Griffith, “Horizonte sombrio” (1920) não é um dos que geralmente chamam muita atenção. Entre a grandiosidade de épicos históricos como “Intolerância” (1916) e “Órfãs da Tempestade” (1921), e entre as polêmicas de filmes como “O Nascimento de uma Nação” (1915) e “Lírio Partido” (1919), esta adaptação de uma peça melodramática do século XIX acaba parecendo um pouco pequena, até simplória, em comparação. Além disso, algumas das… excentricidades do cinema de Griffith — que partem da sua “cruzada moral” no cinema, que já citei aqui em outros textos — parecem ausentes neste filme, ou pelo menos aparecem de forma bastante reduzida, o que também contrasta com o resto de sua filmografia. E, pelo menos para mim, isso coloca o longa como um dos melhores da carreira do diretor, exatamente por ser uma espécie de ‘obra-prima discreta‘.

Isso porque o filme nos permite testemunhar as muitas qualidades que Griffith tinha como um cineasta, sem que isso seja atrapalhado pelas ideias estranhas que este diretor insistia em apresentar nos seus filmes — fosse na forma do seu racismo explícito, fosse na forma de preocupações muito específicas do seu tempo. Assim, o filme se torna muito mais palatável para uma audiência atual, ao mesmo tempo que deixa claro os avanços e qualidades que Griffith trouxe para o cinema do início do século XX. Por isso, penso que o filme tem sucesso em ser, na medida do possível, atemporal, sem por isso deixar de estar inserido em seu próprio contexto histórico. É uma obra que mostra do que este diretor era capaz, já naquela época, mas desta vez sem nenhum blackface.

O filme conta a história de Anna Moore (Gish), uma garota pobre e ingênua, que um dia sai da casa de sua mãe, no interior dos Estados Unidos, para tentar conseguir dinheiro na cidade grande. Uma vez lá, ela é rejeitada pelas suas primas ricas, mas acaba recebendo a ajuda de duas outras pessoas, com intenções muito diferentes. A primeira é uma de suas tias, que, durante uma festa, consegue arranjar um vestido novo para a menina — mais para incomodar as outras parentas, do que por simpatia pela jovem. Durante essa festa, Anna também conhece Lennox Sanderson (Sherman), um homem que se interessa por ela, e parece também querer ajudá-la. Mas isso não poderia estar mais longe da verdade: tendo a conhecido e ganhado sua simpatia, Lennox convence Anna a se casar com ele, numa cerimônia secreta e ilegítima, antes de engravidá-la, revelar que foi tudo uma farsa, e abandoná-la à própria sorte.

Se isso não bastasse, a história se torna ainda mais trágica depois que o bebê nasce. Agora vivendo em um pensionato, Anna tem que cuidar da criança, que está muito doente, sem ter nenhum emprego, nem tempo para arrumar algo para se sustentar. Além disso, a dona do pensionato descobre que ela teve um filho sem ser casada, e fica decidida a expulsá-la de lá. Numa das cenas mais trágicas do longa, a criança acaba morrendo (e ainda estramos no primeiro terço de filme), e Anna é expulsa da hospedagem. Sem ter mais para onde ir, ela vagueia sem rumo até chegar à fazenda de Squire Bartlett (B. McIntosh), onde ela consegue um emprego. Lá, o filho de Barlett, chamado David (Barthelmess), se encanta por ela. Ela, porém, com medo de que ele descubra sobre o seu passado, rejeita o seu amor.

Tudo fica ainda mais complexo quando Lennox aparece novamente na vida de Anna. Mas, dessa vez, acidentalmente. Acontece que ele é amigo de longa data da família Bartlett, e está tentando cortejar Kate (M. Hay), a sobrinha de Squire. Ao ver aquela que foi a sua última vítima, e ex-falsa-esposa, na casa de sua próxima presa, Lennox tenta fazê-la ir embora, mas ela se recusa, prometendo não contar nada sobre o passado dos dois.

Uma das grandes qualidades do filme é, mais uma vez, a excelente atuação de Lilian Gish. Ela consegue passar a emotividade necessária para essa personagem, durante as várias tragédias que ela testemunha, e encarna toda a vulnerabilidade dessa garota, frente à uma sociedade intransigente e conservadora. A cena em que ela batiza a sua criança, já morta, pois o pobre não pôde nem passar pelo sacramento, por não possuir um pai, é uma das cenas mais tristes e perturbadoras que já vi em um filme mudo. E a emoção que as expressões de Gish conseguem passar nesse momento é algo absolutamente devastador. Além disso, neste filme ela consegue ficar ainda mais em evidência, e tem mais espaço para brilhar, do que em “Lírio Partido” ou “O Nascimento de uma Nação”, em que, a despeito da qualidade de suas atuações, teve que dividir o holofote com outros atores — incluindo algumas representações altamente questionáveis.

O filme também se destaca pela sua montagem, e como ele mostra, novamente, a habilidade de Griffith, e de seus montadores James e Rose Smith, em criar sequências incríveis de ação, numa época em que essas cenas eram ainda bastante incomuns. Além do mais, o filme também conta com stunts impressionantes para a época, sem usar dublê algum. Sem dar muitos spoilers, o clímax do filme se dá numa cena tensa envolvendo calotas de gelo, que descem na correnteza de um rio, que termina numa cachoeira. Essa cena desenvolve a ação paralela de várias personagens, uma das várias inovações que Griffith introduziu em “Nascimento de uma Nação”, mas dessa vez usa dessa novidade, além de uma edição dinâmica e de uma coreografia surpreendente, para dar conclusão à história de uma moça que sofreu com várias intolerâncias, em vez de, por exemplo, usá-la para exaltar a perseguição exercida por um grupo de ódio.

E isso é importante, de novo, porque penso que um dos maiores méritos desse filme, para além das suas qualidades próprias, é o fato de que ele compartilha muitas das mesmas qualidades com os outros filmes desse diretor, mas sem a maior parte das suas excentricidades, o que torna “Horizonte Sombrio” uma obra muito mais aprazível, para uma audiência atual, que a maior parte da sua filmografia. Esses dois exemplos que citei são apenas dois aspectos dos mais perceptivos, que esta obra compartilha com aquelas outras, e que justamente mostram esse ponto: D.W. Griffith era um diretor de mão cheia, e Lilian Gish uma baita atriz, ambos com muito para oferecer para a arte cinematográfica. Mas hoje em dia isso acaba ofuscado pela dificuldade que, com razão, se tem de se separar essas qualidades das suas obras, quase sempre repletas de percepções tão estranhas a nossa atual visão de mundo.

Acho, portanto, incrível como este filme consegue, além de perpassar tudo isso, não tendo quase nenhum dos preconceitos e noções estranhas de Griffith, também ser, por si só, um excelente filme, que conta uma história trágica e emocionante, com uma atuação memorável de Gish, e com uma montagem e cenas de ação impressionantes para a sua época. Enfim, um grande filme, independente do seu contexto — mas ainda melhor, dado o contexto.


Como o filme está em domínio público, é possível vê-lo gratuitamente on-line.


Este texto faz parte de uma série que tenta cobrir todos os filmes indicados no livro “1001 filmes para ver antes de morrer. Para mais textos dessa série, clique aqui.

Dossiê Kiyoshi Kurosawa

Reprodução: IMDb

A Cura (1997)

Avaliação: 4.5 de 5.

“‘Cure’ é excepcional. São poucos filmes que captaram tanto meu interesse e minha curiosidade, e de maneira tão cativante, desde o primeiro minuto. Toda a atmosfera, a mixagem de som, a fotografia, e principalmente o roteiro espetacular, realizado por uma direção invejável, tornam este filme uma experiência absolutamente imperdível. Um terror psicológico por excelência, nada na sua narrativa ou no seu terror é muito explícito. Mesmo a maior parte das mortes são sugeridas. Kyoshi Kurosawa tanto mexe com o nosso psicológico, com perguntas difíceis e perturbadoras, quanto deixa muitas lacunas abertas, para que nós as preenchamos com nossas próprias mentes, o que muitas vezes é mais assustador do que qualquer coisa que ele poderia nos mostrar em tela.

O terror está na nossa mente. E este filme a hipnotiza”.


Kairo (2001)

Avaliação: 3.5 de 5.

“No ano de 2006, o filme ‘Pulse’ foi lançado nos Estados Unidos. Dirigido por Jim Sonzero e roteirizado por Wes Craven e Ray Wright, Pulse é um remake do longa-metragem japonês ‘Kairo’, dirigido por Kiyoshi Kurosawa seis anos antes, no ano 2000. Mesmo que os filmes tenham histórias e temas similares, relacionados principalmente com tecnologia e fantasmas, as execuções são bastante diferentes entre si, o que abre espaço para várias análises possíveis”.


Crimes obscuros (2006)

Avaliação: 4 de 5.

“Assim, ‘Crimes obscuros’ é mais um acerto na impecável filmografia desse diretor. Explorando temas e situações não muito diferentes de seus outros filmes, o longa ainda assim consegue trazer um roteiro original e bem escrito, e que ao mesmo tempo traz consigo todas as qualidades e acertos dos outros trabalhos de Kurosawa. Isso inclui uma fotografia e direção excelentes, uma atmosfera medonha, e uma preocupação com a construção da trama, dos mistérios e das personagens, que é, no fundo, o que torna esse e os outros filmes do diretor tão bons e efetivos quanto ao seu terror. Simplesmente, aterrorizante e excepcional”.


Sonata de Tóquio (2008)

Avaliação: 4 de 5.

“De novo, é difícil escrever sobre esse filme sem entrar muito em detalhes, ou sem ser um pouco superficial. Por respeito àqueles que ainda não assistiram ao longa, decidi pela segunda opção. Basta dizer, então, que ‘Sonata de Tóquio’ funciona de maneira extraordinária. Com direção e fotografia invejáveis, o filme consegue construir cenas belíssimas e inesquecíveis, mas que não seriam nada sem a humanidade que o roteiro dá às suas personagens. O coração do filme está em como elas evoluem durante a trama, e como as diferentes adversidades conseguem unir essa família, dos jeitos mais inesperados. Essa obra, recheada de sutilezas e de críticas sociais, com certeza tem seu espaço entre meus filmes favoritos de Kiyoshi Kurosawa, e consegue mostrar bem as suas imensas qualidades como diretor e roteirista. Imperdível”.


Creepy (2016)

Avaliação: 3.5 de 5.

“Misterioso e aterrorizante, ‘Creepy’ é um ótimo filme. E mais um na excelente filmografia de Kiyoshi Kurosawa. Assim como no texto sobre ‘Sonata de Tóquio’, preferi pecar pela falta, para não dar spoilers e estragar a experiência de quem quiser assistir ao filme. Basta dizer que este longa conta com uma excelente fotografia e uma direção experiente, que, juntos transformam essa história em algo realmente assustador, com personagens interessantes e bem construídos, e um roteiro inteligente, que leva a sua audiência a sério. E mesmo que o filme tenha sim certos tropeços no seu último ato, ele consegue se manter bastante consistente e equilibrado, sempre tendo em conta o que o público sabe, e o que é deixado como mistério.

Só não assista com os seus vizinhos”.


A Mulher de um espião (2020)

Avaliação: 4 de 5.

“Mas, fora a estética mais ‘televisiva’, que mais distrai do que é realmente um problema, e alguns tropeços no desenvolvimento da protagonista, este é sim um bom filme, que mostra mais uma excelente direção de Kurosawa, que aqui foge um pouco das temáticas mais comuns em seus filmes de terror. A personagem principal, que é o centro de toda a narrativa, acaba sendo o centro também de muitas das qualidades e dos problemas dessa história. Ao mesmo tempo que sua personagem é muito interessante naquilo em que ela evolui gradualmente, ela também tem certas viradas bruscas que, mesmo não atrapalhando propriamente a história, ainda assim criam um estranhamento. De qualquer forma, o filme ainda consegue nos investir na sua narrativa, e nos conduzir a um final inesperado, tudo isso com uma fotografia e uma direção excelentes”.


Chime (2024)

Avaliação: 3.5 de 5.

“Enfim, é um filme muito bem dirigido, com temas queridos a esse diretor. O que mais eu poderia querer?”


O Fim da viagem, o começo de tudo (2019)

Avaliação: 3.5 de 5.

(Em breve)

Bobo e sem alma, “Um filme Minecraft” (2025) é desapontante

Reprodução: Rotten Tomatoes

nota: D

  • Título original: A Minecraft Movie
  • Direção: Jared Hess
  • Roteiro: Chris Bowman, Hubbel Palmer, Neil Widener, Gavin James e Chris Galletta (história por Allison Schroeder, Chris Bowman e Hubbel Palmer, baseado no video-game Minecraft)
  • Produção: Jon Berg, Cale Boyter, Vu Bui, Roy Lee, Jill Sobel Messick, Jason Momoa, Mary Parent e Torfi Frans Olafsson
  • Elenco: Jason Momoa, Jack Black, Sebastian Hansen, Emma Myers, Danielle Brooks, Jennifer Coolidge, Rachel House (voz), etc.
  • Gênero: Ação, aventura, comédia, família, fantasia
  • Duração: 101 min (1h41)
  • Classificação: PG (MPA); 11 (SWE); 10 (BRA)

Muito ruim

“um filme com um roteiro mal escrito, com algumas atuações muito ruins e um humor questionável. Sendo ou não fã do jogo, é decepcionante”

Pela transparência, começarei este texto com um aviso: eu amo Minecraft. Esse jogo fez parte da vida, marcou a minha adolescência, e é um jogo que já me proporcionou horas de diversão com meus amigos. Assim, esse também é um produto que significa muito para mim, pessoalmente — como, tenho certeza, também é o caso de muitas outras pessoas ao redor do mundo.

Como acredito que, idealmente, a crítica deva ser exercida julgando um filme pelo que ele é, e não pelo que o escritor acha que o filme deveria ser, tomei a decisão de dividir este texto em duas partes. Na primeira, tentarei, na medida do possível, avaliar o filme colocando de fora qualquer julgamento mais apaixonado, que poderia soar como meras reclamações de um fã. Ao final do texto, porém, tirarei essa máscara de “objetividade” (se é que a objetividade é possível em um texto de opinião), e adicionarei um comentário sobre o que achei como alguém que ama o material de fonte.

Deixando evidente essa estrutura, penso que estarei sendo mais honesto, tanto com os meus leitores, quanto comigo mesmo.

Reprodução: Rotten Tomatoes

A história de “Um Filme Minecraft” (dir. Jared Hess, 2025) começa com Steve (J. Black), que desde pequeno sonhava ser um minerador. Já adulto, quando finalmente consegue alcançar esse sonho, ele descobre um estranho cubo, que o leva para uma outra dimensão. Esse novo mundo, que ele chama de “overworld“, é um mundo de Minecraft. Durante o dia, os diferentes biomas são habitados por animais como ovelhas, galinhas e vacas, e durante a noite são assombrados por zumbis, esqueletos e outros monstros. Steve passa então a viver sozinho neste mundo, acompanhado apenas pelo seu lobo domesticado, Dennis.

Durante o seu tempo lá, ele consegue abrir um portal para ainda outra dimensão: o Nether. Esse mundo infernal é habitado por homens-porcos monstruosos chamados Piglins, que querem minerar ouro a todo custo. Quando Steve entra no Nether, ele acaba sendo capturado, mas não sem antes orientar Dennis para levar o cubo para o mundo dos humanos, onde ele ficaria protegido dos planos de Malgosha (R. House), a líder dos Piglins. Lá, esse cubo acaba sendo encontrado por Garrett, um gamer que havia sido popular nos anos 1980 (Momoa), que se junta com um garoto nerd chamado Henry (Hansen), a sua irmã Natalie (Myers) e uma guardiã das duas crianças, Dawn (Brooks), para entrar pelo portal e descobrir os mistérios e perigos do overworld.

Um dos aspectos mais incômodos e evidentes deste filme é que ele não parece conseguir, de maneira alguma, passar qualquer informação visualmente. Toda e qualquer informação que os roteiristas precisam que seja passada, seja para a audiência, seja para as personagens, é feita por diálogos expositivos. E isso torna a personagem de Steve uma ferramenta ambulante de explicações, que serve o único propósito de guiar as outras personagens, e os possíveis desinformados do público, sobre as mecânicas de Minecraft. Isso chega a um nível tão absurdo, que Steve não pode pegar um item, ou enfrentar algum inimigo, sem falar o nome do item ou do mob antes. E isso já seria ruim o suficiente, se o filme não deixasse também de explicar certas coisas importantes, como, por exemplo, o plano da vilã.

As atuações, em geral, não são de todo ruins, mesmo que tenham certas falhas. Em alguns momentos os atores dão umas tropeçadas nas falas, principalmente o jovem Sebastian Hansen, e nem sempre conseguem dizer com naturalidade alguns dos diálogos desse roteiro — o que me parece mais culpa dos roteiristas do que dos atores. Nesse sentido, destaco a performance de Jason Momoa, que consegue trabalhar até bem com o material que lhe é dado — incluindo o seu figurino ridículo. Mas nenhuma das atuações principais chegou a me incomodar tanto quanto Jack Black, que parece destoar completamente do resto do elenco, com o quão bizarra e descontrolada é a sua performance.

Ele só não é tão ruim quanto o elenco coadjuvante, que conta com Jennifer Coolidge, de longe a pior atuação do filme, em uma história secundária ridícula e sem graça.

Falando em graça, o humor do filme também tem seus altos e baixos. Cada uma das personagens têm alguma característica, ou peculiaridade, que é usada como fonte de quase todas as piadas do filme. Garrett, a personagem de Momoa, é alguém superconfiante em si mesmo, mas que é pobre e fracassado na vida. Então todos os momentos cômicos com ele sempre o envolvem sendo confiante demais, ou ele querendo ganhar dinheiro. O problema disso é que são sempre as mesmas piadas. De novo, e de novo, e de novo. E isso com cada uma das personagens. Bem, não com todas, apenas com aquelas que tem o privilégio de ter alguma personalidade, o que não acontece com as duas personagens femininas principais — de Emma Myers e Danielle Brooks.

E isso sem comentar as outras escolhas bizarras e sem graça desse roteiro, como a história por trás da vilã Malgosha, ou quase todas as cenas que se passam no mundo dos humanos, ou de novo a história secundária com Jennifer Coolidge. É uma série de escolhas incompreensíveis e mal planejadas, que resultam em um filme com uma comédia boba e sem a menor graça.

Reprodução: IMDb

Normalmente, um texto meu terminaria por aqui, depois viria um último parágrafo para retomar meus pontos principais e fechar a crítica. Mas agora eu gostaria de escrever mais livremente sobre como este filme desperdiça todo o potencial que esse jogo tem, e acaba também desrespeitando os fãs de Minecraft no processo.

Durante a projeção, uma das coisas que me veio a mente é como esse filme comete, de novo, vários dos mesmos erros que filmes comerciais sobre jogos tem cometido por décadas. E um desses erros é a completa falta de entendimento, por parte da produção, sobre o material de base, e o que as pessoas realmente gostam naquele material. Minecraft é um jogo com infinitas possibilidades, e o filme gasta todo esse potencial com isso? É sério? É um filme tão comercial, tão feito por índices e tabelas, que se perde todo o semblante de criatividade, e o longa acaba parecendo extremamente artificial — inclusive visualmente. E o roteiro ainda tem a pachorra de enfiar uma mensagem sobre “a importância da criatividade” para as crianças. Uma lição que os roteiristas (e executivos) que fizeram o filme claramente não aprenderam.

E eu já vejo a defesa: “Ah, relaxa, é só um filme para criança!”. Como se ser um filme infantil fosse desculpa para falta de qualidade. Com tantos filmes que desafiam e confiam na inteligência das crianças, a simples ideia de um que se limita e larga de mão todo o potencial que tinha, só por causa do seu público majoritariamente infantil, chega a ser triste. E é um desrespeito não só com as crianças, mas também com todos os fãs desse jogo, que conta com diferentes gerações de pessoas se tornado fãs, ao longo de mais de 15 anos.

É um filme sem alma, sem entendimento do jogo, sem criatividade, e que, mesmo que tivesse alguma dessas coisas, ainda seria um filme com um roteiro mal escrito, com algumas atuações muito ruins e um humor questionável. Sendo ou não fã do jogo, é decepcionante.

“A Mulher de um espião” (2020) é um bom suspense histórico

Reprodução: MUBI

nota: B+

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★
  • Título original: スパイの妻 (Supai no tsuma)
  • Direção: Kiyoshi Kurosawa
  • Roteiro: Ryūsuke Hamaguchi, Kiyoshi Kurosawa e Tadashi Nohara
  • Produção: Hideyuki Okamoto e Teruhisa Yamamoto
  • Elenco: Yū Aoi, Issey Takahashi, Masahiro Higashide, Ryōta Bandō, Yuri Tsunematsu, Minosuke, Hyunri, Takashi Sasano, etc.
  • Gênero: Drama, história, guerra
  • Duração: 115 min (1h55)
  • Classificação: G (JAP); 14 (BRA)

Muito bom

“fora a estética mais ‘televisiva’, que mais distrai do que é realmente um problema, e alguns tropeços no desenvolvimento da protagonista, este é um bom filme, que mostra mais uma excelente direção de Kurosawa”

Em “A Mulher de um espião” (dir. Kiyoshi Kurosawa, 2020), acompanhamos a história de Satoko Fukuhara (Aoi), a mulher de um comerciante internacional chamado Yusaku (Takahashi), no Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa época, o governo autoritário do país, e os seus militares, temiam a ação de espiões, e de outras pessoas que pudessem vender segredos do Império para os seus inimigos de guerra. Assim, Yusaku vê alguns de seus fornecedores serem presos, acusados de traição ou espionagem, enquanto outros buscam exílio, temendo o que poderia lhes acontecer, caso suspeitas também caíssem sobre eles. Satoko, porém, nunca teve razão para suspeitar de seu marido — mesmo com suas parecerias comerciais, que envolviam supostos traidores da pátria.

Tudo isso muda, porém, quando o marido viaja até a Manchúria, uma região da China que havia sido invadida e ocupada pelo império japonês. Suspeitando inicialmente de alguma relação extraconjugal, Satoko descobre que Yusaku havia trazido consigo, de volta ao Japão, uma moça chamada Hiroko (Hyunri), que, alguns dias depois, havia aparecido morta. Além disso, o sobrinho do casal (Bandō), que viajou com o tio para a China, tinha pedido demissão de seu trabalho e se isolado em um quarto de hotel. Sem saber o que estaria acontecendo, Satoko vai falar com o sobrinho e acaba descobrindo algo muito mais perigoso que uma traição: seu marido realmente havia roubado documentos sigilosos, que registravam crimes de guerra do governo japonês, e planejava entregá-los aos Estados Unidos.

No início da história, Satoko parece uma esposa bem inocente, e ignorante dos negócios de seu marido. A partir do momento que ela começa a suspeitar de Yasaku, porém, ela passa a se mostrar como alguém mais e mais inteligente, investigando os segredos dele, e perdendo um pouco de sua ingenuidade ao longo da trama (mesmo que ela nunca desapareça por completo). E um dos aspectos mais interessantes do longa, para bem ou para mal, é justamente a sua protagonista. “Para bem ou para mal” porque se por um lado esse arco de amadurecimento da personagem é bem executado, e a torna alguém mais interessante com as suas contradições, por outro lado o filme não faz sempre um bom trabalho de deixar claras as motivações de Satoko — o que torna algumas dessas mudanças ao longo da história um pouco abruptas e injustificadas.

Por exemplo, a partir de certo momento do filme, ela passa a demonstrar uma certa devoção pelo marido, disposta até a fazer sacrifícios extremos — como arriscar ser presa ou entregar um amigo para ser torturado — apenas para ajudá-lo em seus objetivos. Assim, se o filme faz um bom trabalho em nos guiar pelo seu “arco de inocência”, não penso que o mesmo possa ser dito sobre a sua devoção, tão repentina. Pois, ao contrário daquela característica, que vai sendo desenvolvida aos poucos, a dedicação dela a Yasaku não é tão bem estabelecida anteriormente, e pode acabar parecendo, para a audiência, como algo abrupto demais.

Uma qualidade, que de novo e de novo aparece nos filmes deste diretor, é a fotografia. Desta vez operada por Tatsunosuke Sasaki, a fotografia de “A Mulher de um espião” novamente preza por planos longos em vários momentos, que de novo se aproveitam da habilidade de Kiyoshi Kurosawa, já demonstrada em seus outros trabalhos, de organizar os seus atores em cena. Dois momentos que me impressionaram nesse quesito são quando Satoko descobre sobre os documentos roubados, e confronta seu marido a respeito, e depois ao final do longa, numa cena dentro de um hospital. E a direção de fotografia impressiona ainda mais em contraste com o resto da estética e direção de arte do filme, que me pareceu ter uma aparência mais artificial.

Acontece que o filme foi lançado, originalmente, no canal de televisão japonês NHK, indo para os cinemas apenas depois que estreou no ocidente, no Festival de Veneza de 2020. Isso pode não parecer muito relevante, mas penso que isso provavelmente teve consequências na direção de arte e nos figurinos do longa, cuja produção me pareceu ter uma aparência clara de “feita para TV”, sendo mais simples e artificial. Não quero dizer com isso que a caracterização, seja dos cenários, seja dos figurinos, tenha ficado ruim, muito pelo contrário aliás: se fez o melhor com o que se tinha. Mas é algo perceptível e que pode distrair, especialmente com as expectativas estéticas diferentes que normalmente temos, entre produções televisivas e cinematográficas.

Mas, fora a estética mais “televisiva”, que mais distrai do que é realmente um problema, e alguns tropeços no desenvolvimento da protagonista, este é sim um bom filme, que mostra mais uma excelente direção de Kurosawa, que aqui foge um pouco das temáticas mais comuns em seus filmes de terror. A personagem principal, que é o centro de toda a narrativa, acaba sendo o centro também de muitas das qualidades e dos problemas dessa história. Ao mesmo tempo que sua personagem é muito interessante naquilo em que ela evolui gradualmente, ela também tem certas viradas bruscas que, mesmo não atrapalhando propriamente a história, ainda assim criam um estranhamento. De qualquer forma, o filme ainda consegue nos investir na sua narrativa, e nos conduzir a um final inesperado, tudo isso com uma fotografia e uma direção excelentes.

“Anora” (2024): uma história caótica, um filme equilibrado

Reprodução: Rotten Tomatoes

nota: A-

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★½
  • Direção: Sean Baker
  • Roteiro: Sean Baker
  • Produção: Sean Baker, Alex Coco e Samantha Quan
  • Elenco: Mikey Madison, Paul Weissman, Yura Borisov, Lindsey Normington, Emily Weider, Luna Sofia Miranda, Vincent Radwinsky, Brittney Rodriguez, Sophia Carnabuci, Mark Eydelshteyn, Anton Bitter, Ella Rubin, Ross Brodar, Zoë Vnak, Vlad Mamai, Maria Tichinskaya, Ivy Wolk, Karren Karagulian, Vache Tovmasyan, etc.
  • Gênero: Comédia, drama, romance
  • Duração: 139 min (2h19)
  • Classificação: 16 (BRA); R (MPA)

🏆 Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Indicado a 6 Óscares e 7 BAFTAs, incluindo melhor filme em ambas as premiações.

Muito bom

“mesmo com esse roteiro imprevisível e até um pouco caótico, o filme faz um excelente trabalho de orientar e guiar a sua audiência pela sua trama, algo que é ajudado por três fatores, principalmente: as atuações, a edição, e o nosso investimento na jornada da personagem principal. São três aspectos constantes em um filme com uma história bastante inconstante, mas que ainda assim consegue manter sua coesão, muito por causa desses fatores.”

Este é um daqueles filmes em que é difícil de explicar exatamente o porquê de eu gostar tanto dele. E penso que, pelo menos algumas vezes, esse sentimento — essa dificuldade de apontar o que me faz gostar de algum filme — me leva a perceber mais as qualidades que o longa tem na sua execução, na maneira mesmo como ele é feito, do que as qualidades da história propriamente dita. Isso não quer dizer que a história em si seja ruim, mas sim que a maneira como ela é contada, montada, dirigida, parece me chamar mais a atenção.

E penso ser esse o caso de “Anora” (dir. Sean Baker, 2024). Isso porque, pensando sobre o longa, percebi que se alguém, de antemão, me contasse a história deste filme, e me dissesse que, de alguma forma, o filme incorporava elementos de comédia, eu sinceramente não teria fé alguma de que isso poderia funcionar. Mas nas mãos de Sean Baker, diretor do maravilhoso “Projeto Flórida” (2017), fico feliz em dizer que o filme não apenas funciona, como ele consegue encontrar o (difícil) equilíbrio entre uma comédia caótica e divertida, e um drama instigante, com ótimos momentos emotivos e atuações fenomenais. Esta é, para mim, uma das experiências mais diferentes que um filme me proporcionou neste ano — mas uma que se deu mais pela sua execução, do que pelo projeto em si.

O longa conta a história de uma trabalhadora sexual chamada Anora (Madison) — ou “Ani”, como ela gosta de ser chamada — que, uma noite, tem como cliente um jovem russo chamado Ivan (Eydelshteyn), que vai ao clube onde ela trabalha. Ele acaba gostando dela, e a contrata para que venha até a sua casa. Numa escalada bem rápida da relação dos dois, ele pede exclusividade nos serviços dela por uma semana, e então, durante esse tempo, eles viajam para Las Vegas, e lá os dois decidem se casar. Acontece que Ivan é filho de um oligarca russo, que não fica nada feliz com a notícia do casamento, e decide anular o matrimônio na justiça. Para isso, ele manda alguns de seus capangas (Borisov e Tovmasyan), e um padre aliado à família (Karagulian), irem até a casa de Ivan para abordá-lo e informá-lo da decisão de seu pai.

Depois de uma briga, porém, o jovem russo consegue escapar, deixando Ani sozinha com os funcionários do oligarca. O resto do filme então acompanha esse grupo improvável — Anora, os guarda-costas armênios Igor e Garrick, e o padre Toros –, enquanto eles tentam encontrar Ivan pela cidade, antes que a família dele chegue da Rússia. Mas, enquanto os capangas e o padre querem encontrá-lo para conseguirem anular o casamento, Anora apenas quer vê-lo de novo, e tentar convencê-lo a não se separar dela por causa das objeções da família.

A minha sensação, após o fim da projeção, foi de ter participado de uma jornada muito louca com aquelas personagens. E o resultado disso é uma mistura de emoções difícil de descrever, mas que foi muito, muito satisfatória. E acho que isso se dá porque, mesmo com esse roteiro imprevisível e até um pouco caótico, o filme faz um excelente trabalho de orientar e guiar a sua audiência pela sua trama, algo que é ajudado por três fatores, principalmente: as atuações, a edição, e o nosso investimento na jornada da personagem principal. São três aspectos constantes em um filme com uma história bastante inconstante, mas que ainda assim consegue manter sua coesão, muito por causa desses fatores.

Quanto às atuações, devo destacar, em especial, a performance de Mikey Madison como Anora, que, com bastante habilidade, consegue variar entre momentos cômicos e dramáticos, sem exagerar demais para um lado ou para o outro. Outra atuação de destaque é a de Yura Borisov, como Igor, um dos guarda costas. Cito ele aqui por causa também da dificuldade que esse papel traz. Sem revelar muito, esta é uma personagem que, ao mesmo tempo que parece querer sempre se mostrar como alguém frio e inflexível, também se mostra — às vezes na mesma cena — como alguém sensível e bem intencionado. E o fato de que ele consegue, apesar dessa complexidade, equilibrar essas características de sua personagem, mostra tanto a qualidade da sua atuação, quanto o talento da direção de atores, da parte de Sean Baker.

Uma outra peça, aliás, do enigma que me faz gostar tanto desse filme, é a sua personagem principal. Ela, assim como Igor, também se mostra como uma personagem complexa e com múltiplas faces e expressões. Ela tem uma personalidade forte, mas que consegue se adaptar às diferentes situações pelas quais passa. Como a própria Madison já disse em entrevistas, Ani é de um jeito quando interage com seus clientes no clube, e de outro quando conversa com suas colegas no camarim, por exemplo. E isso, além de trazer ainda mais desafio para a atriz, também mostra como as personagens do filme conseguem ser dinâmicas e maleáveis — algo de que o roteiro se aproveita muito bem, fazendo um ótimo trabalho em nos identificar com Ani, e de nos mostrar os acontecimentos da história a partir da sua perspectiva.

Já no que diz respeito à montagem — também realizada por Baker –, ela ajuda a audiência a se orientar no decorrer do filme, e a acompanhar a trama, mesmo nos momentos mais caóticos. Isso fica bem claro durante o primeiro ato, que tem o trabalho de resumir algumas semanas de acontecimentos diversos em apenas uns 40 minutos. A montagem também é bastante dinâmica, sendo mais rápida ou mais lenta, dependendo do que é necessário para o momento. Ao contrário de “Emilia Pérez” (dir. Jacques Audiard, 2024), que, na tentativa de equilibrar diferentes gêneros, não conseguiu nem fazer um direito, “Anora” parece dedicar o seu filme todo, nas atuações, na direção, na montagem, e até na construção das personagens, a manter um equilíbrio, fazendo as mudanças necessárias quando uma cena pede tal mudança, justamente pelo filme ter uma certa maleabilidade para isso. E toda essa dinâmica que o filme parece ter, é, novamente, fruto de uma direção impecável.

Assim, um dos aspectos que me fizeram gostar tanto desse filme se resume nessa palavra: equilíbrio. É um filme que consegue, em vários aspectos, alcançar um “ponto certo”, um lugar ideal, entre os perigos da falta e do excesso. Novamente: pelo menos para mim, esta é uma daquelas obras difíceis de se descrever. E um dos motivos disso é que “Anora” é muito mais sobre a experiência, sobre embarcar nessa jornada com essas personagens. Mas o que melhora, e muito, essa jornada, são os aspectos que apontei: excelentes atuações, uma montagem dinâmica e bem conduzida, e uma protagonista complexa, mas maleável e bem escrita, tudo conduzido por mais uma excelente direção de Sean Baker. Talvez isso não seja o suficiente para descrever o quão divertido, instigante, ou mesmo hipnotizante este filme consegue ser, mas pelo menos passa uma ideia do quão boa é essa experiência.

“Emilia Pérez” (2024) é um musical capenga e desconexo

Reprodução: IMDb

nota: C-

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★½
  • Direção: Jacques Audiard
  • Roteiro: Jacques Audiard (baseado no libreto de Jacques Audiard e no livro “Écoute” de Boris Razon)
  • Produção: Jacques Audiard, Pascal Caucheteux, Valérie Schermann e Anthony Vaccarello
  • Elenco: Zoe Saldaña, Karla Sofía Gascón, Selena Gomez, Adriana Paz, Edgar Ramirez, Mark Ivanir, Eduardo Aladro, Emiliano Hasan, etc.
  • Gênero: Comédia, policial, drama, musical, suspense
  • Duração: 132min (2h12)
  • Classificação: 16 (BRA); TP (FRA); B-15 (MEX); 12 (BEL)

🏆 Indicado a 13 Óscares e 11 BAFTAs, incluindo melhor filme em ambas as premiações.

Muito Ruim

“Às vezes ‘Emilia Pérez quer ser um drama, às vezes quer ser um filme policial, às vezes um romance, às vezes uma comédia, às vezes juro que o filme quer imitar um estilo de novela mexicana, e às vezes, infelizmente, ele lembra que também quer ser um musical.”

Serei sincero aqui. Com todos os comentários odiosos, e a revolta geral que “Emilia Pérez” (dir. Jacques Audiard, 2024) parece ter gerado na internet com suas 13 indicações ao Oscar, juro que o filme atiçou ainda mais a minha curiosidade. Lançado no início do ano passado durante o Festival de Cannes, o filme levou prêmio do júri, e saiu do circuito de festivais com excelentes avaliações da crítica especializada. Essa revolta posterior contra o filme, então, me deixou curioso: estaria eu do lado da crítica, e eu acharia algo para amar nesse filme, apesar de todas as críticas que o público tem lançado contra ele? Ou estaria eu do lado de uma parte do público, e odiaria este filme com todas as minhas forças?

Bem, já adianto que, nesse caso, eu certamente pendo para a segunda opção — mesmo que de forma um pouco menos… virulenta.

O filme conta a história de uma traficante e chefe de cartel mexicana, vivida por Karla Sofia Gascón, que se descobre como transgênero, e decide fazer uma série de cirurgias de redesignação sexual. Porém, ela não quer que ninguém, nem a sua própria esposa, interpretada por Selena Gomez, descubra sobre isso. Então, em vez de entrar em contato com algum médico ou psicólogo (que inclusive teriam confidencialidade para discutir isso com ela), ela decide raptar e obrigar uma advogada criminal, vivida pela Zoe Saldaña, a fazer todo o trabalho burocrático para ela, viajando pelo mundo, e arranjando médicos que topem realizar as cirurgias que ela gostaria de fazer, sem nem mesmo conhecê-la de antemão. Depois que tudo é arranjado e ela consegue fazer a operação, ela forja a sua própria morte, e passa a ser conhecida pelo seu novo nome: Emilia Pérez.

Se parece que revelei muito sobre a história, é porque, apesar da maioria das sinopses do filme focarem na parte da transição de Emilia, essa é apenas a primeira parte do longa. A partir daí, o filme parece mudar completamente de direção e focar, durante uma boa parte da trama, na vida pessoa de Emilia Pérez após a cirurgia, principalmente em como ela decide montar e gerenciar uma ONG, com o objetivo de localizar os corpos de pessoas desaparecidas por causa dos cartéis mexicanos. A terceira parte, então, parece dar outra mudança brusca de direção, e passa a focar relação conflituosa entre Emilia e a sua ex-mulher, que agora tem um caso com um homem chamado Gustavo (Ramirez).

E é aí que está um dos meus maiores problemas com esse filme. As mudanças bruscas, que a história parece tomar, de um ato para o outro, e a inconstância que esses diferentes atos têm entre si (inclusive em qualidade), fazem parecer que esse filme é na verdade três ou quatro filmes diferentes, colados juntos de forma improvisada. A impressão que fica é que os roteiristas tinham várias ideias, com várias possibilidades de onde a história poderia ir, e, de alguma forma, juntaram justamente aquelas que não combinavam. E não ajuda que o longa parece querer transitar livremente por diferentes gêneros, sem preocupação de como isso afeta a narrativa. Às vezes “Emilia Pérez” quer ser um drama, às vezes quer ser um filme policial, às vezes um romance, às vezes uma comédia, às vezes juro que o filme quer imitar um estilo de novela mexicana, e às vezes, infelizmente, ele lembra que também quer ser um musical.

Quando se fala de musicais da Broadway, uma frase popular é que “quando palavras não são o suficiente, você canta, quando cantar já não basta, você canta e dança”. É claro, essa frase não é uma lei, e nem todos os musicais se aplicam nessa “regrinha”. Porém, uma verdade básica que essa frase encerra é que, em musicais, as canções têm de servir um propósito, e, via de regra, têm que expressar alguma emoção que as personagens estão sentindo naquele momento. Com isso dito, chegamos a outro problema deste filme: as músicas, em sua maioria, parecem não ter motivação, ou mesmo emoção alguma, para que comecem, e muito menos para que continuem. As canções parecem que simplesmente começam do nada. Duas personagens podem estar conversando, por exemplo, em uma consulta médica, e o filme vai de repente se lembrar que é um musical, e eles começam a cantar as suas falas. As personagens raramente parecem cantar porque a cena em si exige, mas sim porque elas têm um contrato assinado fora de cena que as exige.

Não digo que todas as músicas são assim, porque existe uma ou outra exceção. Gostei bastante, por exemplo, das duas músicas que foram indicadas à melhor canção original no Oscar (mas o fato de eu ter mais vontade de ouvir essas músicas sozinhas, do que assistir às cenas em que elas são cantadas, já é bastante revelador). Outra exceção é a música cantada por Emilia e seus dois filhos, que é uma das poucas que tem algum fundo emocional por trás. E isso é ajudado pela boa performance de Karla Sofia Gascón, que, apesar de toda a bagunça que esse filme se torna, é um dos poucos aspectos constantes do longa. É boa o suficiente para uma indicação ao Oscar? Diria que não, mas ela certamente se destaca o bastante no filme, mesmo que isso seja por causa da sua personagem ser a única a ter alguma profundidade, ou que seja apenas em comparação com o resto das atuações ao seu redor, que são bastante medianas.

Eu queria gostar de “Emilia Pérez”. Fui ao cinema com uma mente aberta, com boa vontade, tentando esquecer todo e qualquer clubismo e hate de rede social. Mas, no final das contas, este é um filme que parece inteiramente perdido dentro de si mesmo. Um filme que não sabe nem o que ele quer ser — o que acaba resultando nele sendo um filme que parece três, mas completamente desconexos. E, se isso não bastasse, o filme ainda insiste em ser um musical. Mas não um musical grandioso ou divertido, mas sim um musical capenga, desinteressante, com músicas sem nenhum propósito ou necessidade. Um musical por procuração. E isso sem citar todas as controvérsias, e muitas críticas válidas que já foram feitas, sobre a representação de mexicanos e transexuais no longa. Mesmo com uma atuação interessante, e algumas boas canções, nada conseguiu salvar essa bomba. Que decepção.

Simples e catártico, “A Verdadeira Dor” (2024) é uma viagem que reúne dor e riso

Reprodução: Rotten Tomatoes

nota: A-

CRÍTICA: ★★★ PÚBLICO: ★★★½
  • Título original: A Real Pain
  • Direção: Jesse Eisenberg
  • Roteiro: Jesse Eisenberg
  • Produção: Jesse Eisenberg, Ali Herting, Dave McCary, Ewa Puszczyńska, Jennifer Semler e Emma Stone
  • Elenco: Jesse Eisenberg, Kieran Culkin, Olha Bosova, Banner Eisenberg, Jakub Gasowski, Will Sharpe, Daniel Oreskes, Liza Sadovy, Kurt Egyiawan, Jennifer Grey, Ellora Torchia, etc.
  • Gênero: Drama, comédia
  • Duração: 90min (1h30)
  • Classificação: 16 (BRA); R (MPA); 13 (POL)

🏆 Indicado a dois Óscares, de melhor roteiro original e melhor ator coadjuvante, e a dois BAFTAs, nas mesmas categorias

Muito Bom

“No final das contas, este é um filme relativamente simples, mas sem chegar a ser simplista, sobre duas pessoas enfrentando a dor, a si mesmos, e um ao outro, mas encontrando os lugares comuns, e enfrentando uma jornada catártica juntos. É um filme que discute solidão, depressão, família, relacionamentos. E ainda assim sobra espaço para momentos divertidíssimos de descontração, de riso”

É sempre uma boa surpresa quando um filme consegue capturar as minhas emoções, e me fazer rir, me emocionar, me deixar desconfortável, e às vezes tudo isso ao mesmo tempo. Muitas vezes esse privilégio, de segurar meu coração de refém, está reservado às animações da Pixar, e a algumas outras produtoras. Assim, não esperava que “A Verdadeira dor” (2024), dirigido por Jesse Eisenberg, na sua segunda incursão na cadeira de diretor, iria fazer o mesmo comigo.

Este filme, que também foi escrito Einsenberg, conta a história de dois primos, David e Benji Kaplan. De família judia, eles decidem viajar juntos para a Polônia para fazer um tour pelos campos de concentração, conhecendo também outros lugares importantes para a história dos judeus poloneses, e com o objetivo final de visitar a antiga casa da avó deles, recém falecida, que havia emigrado de lá para os Estados Unidos.

Com essa pequena sinopse, porém, não consigo expressar tudo o que o filme tem a oferecer. Isso porque este filme é muito mais sobre as suas personagens, e a relação entre elas, do que sobre qualquer coisa que acontece com elas em tela. As duas personagens principais, vividas por Einsenberg e Kieran Culkin, são muito diferentes uma da outra. David é um publicitário bem sucedido, que vive em Nova York com sua esposa e filhos, e que é socialmente atrapalhado. Já Benji é alguém muito mais sociável, que interage e faz amizades facilmente, mas que é desempregado, e ainda vive na cidade de interior onde os dois cresceram. Ao mesmo tempo, são personagens que tiveram, durante a juventude, uma longa relação de convivência e de amizade, mas que têm, ambas, as suas próprias dores, conflitos e traumas, e cujas realidades acabam — de maneira inevitável — entrando em conflito.

E é exatamente a partir da amizade e dos conflitos dessas duas pessoas tão diferentes, mas ainda assim tão próximas, que a história é construída. Muitas das qualidades do filme vêm dessa relação, e como ela vai sendo mostrada para o público, pouco a pouco, durante a projeção. Assim, a viagem que os dois fazem acaba sendo quase uma desculpa para explorar as emoções e dores dessas personagens, por vezes de forma quase catártica — tanto para as personagens, quanto para o público, que facilmente pode reconhecer essas pessoas e esses sentimentos em suas próprias famílias, ou até dentro de si mesmos. O filme usa o cenário trágico da viagem — as ruínas do holocausto — como um veículo para trazer a tona as dores que aquelas pessoas sentem, os obrigando a encarar esses sentimentos de frente.

No final das contas, este é um filme relativamente simples, mas sem chegar a ser simplista, sobre duas pessoas enfrentando a dor, a si mesmos, e um ao outro, mas encontrando os lugares comuns, e enfrentando uma jornada catártica juntos. É um filme que discute solidão, depressão, família, relacionamentos. E ainda assim sobra espaço para momentos divertidíssimos de descontração, de riso. E isso se deve, primeiro, a um roteiro muito bem escrito, e muito bem balanceado quanto a seus momentos mais tristes e mais divertidos. E, em segundo lugar, a duas atuações memoráveis e muito, muito carismáticas. Quanto ao roteiro, devo também destacar a habilidade de Einsenberg em construir quase toda a narrativa do filme por diálogos, mas sem acabar sendo um texto verborrágico, desnecessariamente. De novo, é um filme simples, mas que é muito efetivo em toda a sua simplicidade.

Já quanto as performances, devo destacar o quanto Kieran Culkin brilha nesse papel. Ele consegue trazer as emoções necessárias para cada momento: sendo hilário em um minuto, e deprimente no seguinte, às vezes sendo o cara engraçado, e às vezes o inconveniente do grupo. Ele consegue entregar muito bem essas mudanças de humor, que, aliás, se encaixam perfeitamente na sua personagem e nos conflitos pelos quais ela passa. E Jesse Eisenberg parece formar o melhor complemento a isso, sendo alguém menos inconstante, mas que mesmo assim tem os seus momentos de catarse — a maioria provocados pelo seu primo. Os dois trabalham muito bem juntos, e são um dos motivos deste filme ser tão bom, e ter personagens tão bem humanizados. Se o roteiro nos ajuda a reconhecer as personagens em tela, as atuações aqui as tornam pessoas reais, que passamos a conhecer e a acompanhar no decorrer da história.

O final do longa talvez não agrade a todos, mas certamente me agradou, e muito. É um final simples, como todo o filme, sem muita cerimônia e até meio enigmático. Mas, sem revelar muito, ele acaba mostrando aquilo que escrevi: o filme é mais sobre as personagens do que sobre a jornada. Assim, as mudanças pelas quais essas pessoas passaram foram internas, não externas. Ao final da viagem, quase nada realmente muda em relação a realidade em que essas pessoas vivem. O que sobra no final são as memórias, as experiências. E, para mim, isso resume as qualidades de todo o filme. É uma jornada compartilhada por pessoas muito diferentes, e essa jornada, e a companhia um do outro, traz a tona emoções e mágoas que eles são obrigados a encarar. E, além disso, é um filme visualmente lindíssimo, com uma ótima fotografia, e com atuações muito boas e memoráveis, especialmente a inconstante e caótica performance de Kieran Culkin. Imperdível.

“Conclave” (2024): um drama político tentador

Reprodução: IMDb

nota: A-

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★½
  • Direção: Edward Berger
  • Roteiro: Peter Straughan (baseado no livro de Robert Harris)
  • Produção: Alice Dawson, Robert Harris, Juliette Howell, Michael A. Jackman, Tessa Ross,
  • Elenco: Ralph Fiennes, Jacek Koman, Lucian Msamati, Stanley Tucci, John Lithgow, Bruno Novelli, Thomas Loibl, Brían F. O’Byrne, Isabella Rossellini, Rony Kramer, Sergio Castellitto, Valerio Da Silva, Carlos Diehz, etc.
  • Gênero: Drama, mistério, suspense
  • Duração: 120 min (2h)
  • Classificação: 12 (BRA); 12A (BBFC); PG (MPA)

🏆 Indicado a 12 BAFTAs, incluindo melhor filme; pré-indicado ao Oscar de melhor trilha sonora original

Muito Bom

“o ponto alto do filme, para mim, é o seu roteiro. A trama consegue avançar, no decorrer da projeção, escalando cada vez mais as intrigas, e aumentando cada vez mais o suspense. O filme nos coloca sempre na situação de Lawrence, que tem de lidar com cada revelação, com cada suspeita, com cada voto a mais ou a menos em um certo candidato. E o que ajuda muito nessa trama é justamente o cenário que é construído, e como, às vezes, ele é quebrado”

Em certo momento de “Conclave” (dir. Edward Berger, 2024), o cardeal Bellini, interpretado por Stanley Tucci, conversa com o cardeal Lawrence, a personagem de Ralph Fiennes, e observa que, mesmo que muitos tentem negar isso, todos os cardeais daquele conclave papal querem — alguns secretamente, outros de forma aberta — ser eleitos como o novo Papa. Inclusive, ele diz, todos já devem ter fantasiado com isso desde que foram nomeados, e já devem até ter escolhido o novo nome que eles usariam, caso fossem eleitos. Além disso, em um momento anterior, o mesmo cardeal Bellini faz uma outra ressalva interessante: os candidatos mais perigosos, para ocupar a Sé, são justamente aqueles que mais querem ser eleitos.

Penso que esses dois momentos ajudam a ilustrar, mesmo que de forma redutiva, todo o conflito de interesses, de valores, e de poderes que esse filme traz como o centro da sua narrativa. Baseado no livro de Robert Harris, o longa acompanha Lawrence, o decano do colégio de cardeais, que fica responsável, depois do falecimento do Papa, por organizar o conclave que irá eleger uma nova pessoa para o cargo. Porém, esse colegiado está, como explicou Bellini, cheio de homens sedentos de poder, cada um com seus próprios interesses e ambições para o papado, e com seus próprios sensos morais (ou falta deles), que tentarão se eleger a qualquer custo. Assim, o filme se torna uma trama política, com direito a acordos, puxadas de tapete, e todo o toma-lá-da-cá de qualquer parlamento. E Lawrence se vê no meio desse conflito, tendo que fazer o papel de presidente, mediador, investigador, juiz e candidato, tudo ao mesmo tempo. E se isso não bastasse, ele também enfrenta dificuldades com a sua própria fé, enquanto é obrigado a continuar exercendo seu sacerdócio — mesmo com todas essas responsabilidades a mais.

Se tem algo que é constante nesse filme, aliás, é a noção de que a Igreja Católica é formada por pessoas. Falhas. Imperfeitas. Muitas com sede de poder, algo que não raras vezes se sobrepõe a qualquer moralidade que, idealmente, seria esperada dos seus membros. Quando, então, eles são colocados uns contra os outros, numa guerra em que haverá apenas um vencedor, todas essas falhas e imperfeições ficam a mostra.

Nesse sentido, o ponto alto do filme, para mim, é o seu roteiro. A trama consegue avançar, no decorrer da projeção, escalando cada vez mais as intrigas, e aumentando cada vez mais o suspense. O filme nos coloca sempre na situação de Lawrence, que tem de lidar com cada revelação, com cada suspeita, com cada voto a mais ou a menos em um certo candidato. E o que ajuda muito nessa trama é justamente o cenário que é construído, e como, às vezes, ele é quebrado. Acontece que, para votarem em quem será o novo Papa, os cardeais são isolados do mundo externo, sem acesso a notícias ou a qualquer informação que possa interferir na decisão do colegiado. Assim, muitas das decisões tomadas lá dentro acabam sendo fruto de boatos circulados entre os próprios cardeais. E o filme faz um ótimo trabalho em mostrar como um simples acontecimento, ou uma simples fofoca, dentro daquela “bolha”, consegue derrubar as chances de um candidato ser eleito. Além disso, o filme também mostra como algumas informações externas conseguem, ainda assim, entrar — seja pelo relato de algumas das freiras, seja pelo próprio Lawrence, que, por ser o decano, tem acesso a algumas informações privilegiadas –, complicando ainda mais a situação. Ou seja, nem esse isolamento é realmente perfeito.

O roteiro também brilha com os seus diálogos, e é notável como eles são bem utilizados para construir a história e as suas personagens, não sendo usados simplesmente como exposição. Todas as tramas políticas de cada candidato, todas as suas alianças e oposições, além das dúvidas e certezas da personagem de Lawrence, vão sendo construídas por meio dos diálogos. O decano age quase como um investigador dos seus adversários, e nós sempre sabemos tanto quanto ele sabe. Nós descobrimos detalhes quando ele descobre. Nós nos identificamos com as suas dúvidas, e, assim, com a sua personagem. Todos os pontos importantes da história são marcados ou por conversas em particular, ou por momentos de silêncio em conjunto, durante as várias votações. E esses momentos chave são ajudados ainda mais por grandes performances, especialmente de Ralph Fiennes, Stanley Tucci e Sergio Castellitto. Pois os diálogos, além de tudo, também ajudam estes atores a mostrarem todo o seu talento em cena.

Outro destaque entre as atuações é Isabella Rossellini, que interpreta a irmã Agnes, a superior das freiras que permanecem no Vaticano durante o conclave. Sem revelar muito, ela consegue impressionar bastante nas cenas em que aparece, mesmo tendo pouquíssimas falas — o que destaca ainda outra crítica clara do filme: a constante presença das mulheres entre os figurantes na Igreja, sempre se mantendo em silêncio e subalternas aos homens. Os poucos momentos em que Agnes fala são ainda mais impactantes por serem esparsos. E mesmo quando ela não fala, o silêncio dela e das irmãs diz muito.

Quanto ao aspecto técnico, a direção de fotografia também é impressionante. Passado, em sua maior parte, no interior dos prédios do Vaticano, o filme consegue capturar toda a grandiosidade daqueles prédios, dos seus vitrais, das pinturas de anjos nas paredes e no teto. E, ao mesmo tempo, consegue contrastar isso com os corredores no interior das igrejas, em que as personagens, nos momentos mais privados, conversam e planejam seus próximos movimentos. Esse contraste, entre o privado e o público dentro das catedrais de Roma, é também marcado pela iluminação. As cerimônias públicas, como as votações para escolher o papa, ou o sermão antes de começar os trabalhos, são feitas durante o dia, às vezes iluminadas com a luz natural vinda das janelas e vitrais. Já as conversas privadas, os planos e intrigas políticas, são feitas durante a noite, dentro dos quartos, nos corredores vazios, às vezes com apenas uma pequena fonte de luz presente. A partir disso, o próprio filme indica algumas interpretações interessantes, como quando a luz revela as artes no teto, com anjinhos olhando para baixo, na direção dos cardeais, e nesses momentos eles são obrigados a lembrar que “os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons” (Pv 15:13).

“Conclave” é um grande filme. E certamente um que tem mais para dizer do que posso expressar nesse pequenino texto sem spoilers. É um filme que questiona a moralidade dos membros do clero, as disputas de poder que envolvem o papado, as divergências internas da Igreja Católica, o papel das mulheres dentro da Igreja, as posições do clero sobre raça, gênero e sexualidade, o poder de acobertamento que a Igreja tem, e até a relação entre a fé e a dúvida. E o longa consegue fazer tudo isso com um roteiro impecável (haha), interpretado por atuações excelentes, com diálogos e personagens memoráveis. E, além disso tudo, ainda é um filme lindo de se ver e de ouvir, contando com uma ótima fotografia, e uma grande trilha sonora. É com certeza um dos filmes com mais “cara” de Oscar que vi nesta temporada, e não ficarei desapontado com as indicações que ele, certamente, receberá.

Um remake digno do original, “Nosferatu” (2024) é mórbido e aterrorizante

Reprodução: IMDb

nota: A-

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★½
  • Direção: Robert Eggers
  • Roteiro: Robert Eggers (baseado no filme “Nosferatu”, escrito por Henrik Galeen, e no livro “Drácula” de Bram Stoker)
  • Produção: Chris Columbus, Eleanor Columbus, Robert Eggers, John Graham e Jeff Robinov
  • Elenco: Lily-Rose Depp, Nicholas Hoult, Bill Skarsgård, Aaron Taylor-Johnson, Willem Dafoe, Emma Corrin, Ralph Ineson, Simon McBurney, etc.
  • Gênero: Terror, fantasia, mistério
  • Duração: 133 min (2h13)
  • Classificação: 16 (BRA); R (MPA)

Ótimo

“Com atuações incríveis, e uma atmosfera e ambientação excelentes, este filme consegue o feito raro de ser uma segunda ótima refilmagem de uma obra que já era, por si só, um grande filme. E, se isso não bastasse, com sua mudança de foco, e com a criação de um senso de urgência maior, ‘Nosferatu’ (2024) traz mudanças que realmente fazem a diferença, e destacam esta nova versão entre as demais”

Um clássico eterno do terror e do cinema mudo, “Nosferatu” (dir. F.W. Murnau, 1922) nasceu de uma tentativa de adaptar a história de “Drácula”, escrita por Bram Stoker, para o cinema. Sem conseguir os direitos para adaptar a obra, o filme foi feito mesmo assim, mas com algumas alterações, na tentativa de evitar um processo. Além de algumas mudanças na história em si, os nomes de todas as personagens foram mudados, incluindo o do vampiro titular, que mudou de “Drácula” para “Orlok”. Esta adaptação às avessas, porém, se tornou tão icônica e cultuada por sua própria conta que, em 1979, ganhou um remake pelo grande diretor alemão Werner Herzog, e agora em 2024, ganha mais uma refilmagem, nas mãos do talentosíssimo Robert Eggers.

“Nosferatu” (dir. Robert Eggers, 2024), assim como seu antecessor de 1922, acompanha um agente imobiliário chamado Thomas Hutter (Hoult), que é enviado para um castelo isolado na Boêmia, com o objetivo de vender um imóvel para o estranho Conde Orlok (Skarsgård). Antes de chegar ao castelo, porém, ele é avisado pelos locais sobre o perigo da sua jornada, e fica sabendo das superstições que existem sobre o conde. Ignorando os avisos, Thomas é levado ao castelo por uma carruagem sombria, que parece não estar sendo conduzida por ninguém. Ele então descobre, ao chegar ao seu destino, que os aldeões estavam certos, e que o Conde Orlok é na verdade um vampiro. Thomas tenta escapar, mas o conde o mantém preso em seu castelo durante dias, enquanto se alimenta do seu sangue.

Enquanto isso, de volta em sua casa, Ellen Hutter (Depp), esposa de Thomas, passa a ter uma série de transes e visões com o conde. Mesmo sendo ajudada por dois amigos do casal, Anna e Friedrich Harding (Corrin e Taylor-Johnson), e pelo médico responsável pelo manicômio da cidade, o Dr. Wilhelm Sievers (Ineson), ela continua tendo essas visões persistentes, que a avisam da chegada do Conde Orlok na cidade, trazendo consigo a morte, a peste, e toda a sua presença maligna. Além disso, Ellen tem um segredo: quando era mais jovem, ela já havia invocado o conde, e foi esse encontro que a levou a ter as suas premonições, que tinham pararam depois que ela conheceu Thomas. Agora que seu marido desapareceu, e as visões voltaram, Ellen se vê tendo de escolher entre salvar a vida do seu marido, e se entregar ao vampiro, que a quer como sua nova esposa.

Mesmo tendo muitas similaridades com a história original, penso que algumas das qualidades do filme podem ser melhor apreciadas quando comparamos, em certos aspectos, o primeiro longa com este novo remake. Diferente do original, por exemplo, esta nova versão traz muito mais foco em Ellen, seu passado e suas visões. Enquanto na primeira versão, ela aparecia apenas como a esposa do protagonista, e permanecia delirante ou doente durante quase todo o filme, neste remake é ela quem toma o papel de protagonista, sendo uma personagem muito mais ativa na história, ao redor da qual todos os conflitos do enredo acontecem. Ela é o motivo do conde ser evocado, ela é a motivação do vilão a realizar sua viagem, é ela quem motiva a investigação do doutor sobre a sua condição, e é ela quem conduz a história para o seu derradeiro fim. E toda essa responsabilidade cai no colo de Lily-Rose Depp, que entrega uma atuação excelente e memorável.

Destaco aqui uma cena em que ela finalmente conversa com Thomas, depois que ele escapa de seu cativeiro. Nesse momento, Ellen passa por várias mudanças de humor por causa dos seus transes, e Depp tem a oportunidade de mostrar toda a sua versatilidade como atriz, e todas as qualidades da sua performance — que consegue, ao mesmo tempo, ser sutil e intensa, mas sem nunca chegar a ser exagerada demais. É uma das cenas que mostra que ela consegue equilibrar muito bem as diferentes emoções e estados mentais de sua personagem, conseguindo trazer as emoções certas nos momentos certos. E essa não é a única atuação digna de menção aqui: Nicholas Hoult está incrível no longa, assim como Willem Dafoe, que interpreta o Dr. von Franz, a versão deste filme do professor Van Helsing. E Bill Skarsgård está irreconhecível como Conde Orlok, se diferenciando muito das versões anteriores da personagem, e a incorporando com uma presença e voz aterrorizantes. Se o Oscar não tivesse tanto preconceito com filmes de terror, eu teria mais esperança em uma indicação de Lily-Rose Depp, ou de qualquer outro deste excelente elenco.

Outra diferença sensível, entre essa versão e a original, é como este filme consegue criar um maior senso de urgência na narrativa. Em uma de suas visões, Ellen é visitada pelo vampiro, que lhe dá um ultimato: ela deverá escolher, em um prazo de três dias, se se junta a ele, ou se deixa o seu marido para morrer pelas mãos do Conde. A partir de então, as personagens têm esses três dias para achar algum jeito de matar o vampiro, que se apresentou durante todo o filme como uma presença maligna e imparável, uma sombra imortal que cobre a cidade de trevas. Esse aspecto, junto com toda a atmosfera que o longa consegue criar, ajuda a construir toda uma tensão e suspense que sinto não estarem tão presentes nas outras versões dessa história, com todas as imensas qualidades que ambas apresentam.

Toda a ambientação e a parte visual do filme, aliás, ajudam também a construir a sua atmosfera. Se passando numa cidade alemã do século XIX, o design de produção consegue recriar muito bem toda a arquitetura e interiores daquele lugar, que é ao mesmo tempo luxuoso — principalmente no interior da casa das personagens principais –, mas que está cercado sempre de sujeira e de doenças do lado de fora. E isso fica ainda mais evidente depois da chegada do vampiro, que, assim como na versão de 1979, fica associado à praga e aos ratos, que o seguem onde quer que ele vá — além de, neste filme, a personagem também ganhar algumas conotações sexuais. A fotografia preza por cores mais pálidas e escuras, em especial durante as cenas noturnas, quando o filme consegue criar um clima sombrio, e assim marcar o domínio que conde tem sobre aquela cidade. Essa escolha de cores também é refletida nos figurinos e na maquiagem, que igualmente preferem cores mais escuras e “sujas”. O filme também parece utilizar muita luz natural, se aproveitando de velas, lanternas e fogo para sua iluminação em muitas cenas — e se utilizando do escuro, e da falta de visão das personagens, para construir o medo, nelas e no público.

Este é mais um grande filme da carreira, já brilhante, de Robert Eggers. Com certeza é um filme de terror mais “convencional” do que “A Bruxa” (2015) ou “O Farol” (2019) — afinal, é uma adaptação de um filme de terror antigo, baseado numa história mais antiga ainda –, mas mesmo assim é uma obra que, sinto, vai agradar a todos que já gostam do trabalho deste diretor. Com atuações incríveis, e uma atmosfera e ambientação excelentes, este filme consegue o feito raro de ser uma segunda ótima refilmagem de uma obra que já era, por si só, um grande filme. E, se isso não bastasse, com sua mudança de foco, e com a criação de um senso de urgência maior, “Nosferatu” (2024) traz mudanças que realmente fazem a diferença, e destacam esta nova versão entre as demais. É uma combinação de fatores que fazem este filme ser tão bom quanto é. E, sejamos sinceros, com um elenco desse, e esse diretor, eu não poderia esperar nada menos excelente.

“Ainda estou aqui” (2024) é um retrato das chagas abertas do Brasil

Foto: Alile Dara Onawale, divulgação

nota: A-

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★
  • Direção: Walter Salles
  • Roteiro: Murilo Hauser e Heitor Lorega (baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva)
  • Produção: Maria Carlota Bruno, Martine de Clermont-Tonnerre e Rodrigo Teixeira
  • Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Valentina Herszage, Maria Manoella, Barbara Luz, Gabriela Carneiro da Cunha, Luiza Kosovski, Marjorie Estiano, Guilherme Silveira, Antonio Saboia, Cora Mora, Olivia Torres, etc.
  • Gênero: Drama, história, biografia
  • Duração: 136 min (2h16)
  • Classificação: 14 (BRA)

Muito bom

“é um filme que consegue recriar toda uma época, remontando o retrato de um Brasil contraditório e brutal, mas que foi real e que permanece registrado na memória de alguns e nas chagas não cicatrizadas deste país”

É triste que o Brasil não tenha cicatrizado das suas chagas, mesmo depois de quase 40 anos desde o fim da ditadura. E é também triste que depois de todos esses anos, algumas pessoas já tenham se esquecido do foi aquele período — se é que um dia já souberam. Isso a ponto de se mostrarem dispostas a defender aquele regime sanguinário, odioso e nojento. A ponto também de quererem boicotar um filme pelo simples fato dele retratar aquele momento histórico, em todas as suas cores. E a ponto de representarem, pela própria atitude negacionista e imatura, a importância que um filme como esse tem para o país. Pois essa história específica pode ser a de uma única mulher, e de sua família, mas ela representa a voz de centenas de famílias desfeitas, e de várias “Eunices”, vários “Rubens”: presos, torturados, mortos pelos militares. É um filme para não esquecermos. Nunca.

Uma das cenas de “Ainda estou aqui” (dir. Walter Salles, 2024) que é muito simbólica nesse sentido é justamente a cena final do longa. Ela mostra Eunice Paiva, já idosa e em uma cadeira de rodas — e interpretada pela grande Fernanda Montenegro. Cercada de filhos, netos e bisnetos, Eunice assiste a televisão, que mostra uma reportagem sobre a ditadura militar. A matéria mostra alguns dos mortos e desaparecidos durante o regime e, entre os nomes, está o de seu marido, o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva (Mello). Uma narração na TV ressalta que o seu corpo, como o de muitos outros desaparecidos durante aquele período, nunca foi encontrado. Para mim, isso mostra um dos capítulos mais dolorosos da ditadura que nunca foi completamente fechado. Uma chaga que continua aberta até hoje. Num país sem memória que nem chegou a enterrar os seus mortos.

E o que torna essa cena ainda mais impactante é como esse final contrasta com o início do filme, e com a nossa introdução à pessoa de Eunice, interpretada por Fernanda Torres na maior parte do longa. A cena inicial a mostra nadando no mar, entrecortada por tomadas de um helicóptero militar que passa por cima da praia. A princípio, essa escolha pode não chamar muita atenção, até que a reportagem final nos lembra de como os carrascos da ditadura se livravam dos corpos de muitos presos políticos: os jogando no mar de helicóptero. Essa cena serve, portanto, como uma espécie de prenúncio daquilo que está por vir, e como um símbolo da barbaridade da ditadura — que transformava um lugar de diversão em família em uma grande vala comum para os inimigos do regime.

E essa é apenas uma das cenas que prenunciam a intromissão dos militares na vida da família Paiva. Durante a parte inicial do filme, acompanhamos a vida dessa família, e vamos conhecendo e nos apegando a cada uma dessas personagens. Conseguimos, no primeiro quarto de filme, conhecer as pequenas diversões e tranquilidades da vida que essa família levava, indo à praia, jogando bola na rua, ouvindo música na vitrola, fazendo festas, adotando um cachorrinho. Mas, de vez em quando, o filme faz questão de nos lembrar do regime ditatorial que ainda reinava lá fora. Seja com reportagens sobre a resistência na televisão, seja com os carros do exército passando pela rua, seja com uma parada mais violenta em uma blitz, somos sempre lembrados de que a ditadura está sempre presente, sempre a espreita.

Esse ponto é um dos grandes acertos do filme. A construção das personagens, além de toda a ambientação, ajudam muito a nos inserir nesse cenário, e faz com que essa história realmente funcione. A partir do momento que conhecemos essa família, suas dinâmicas, cada um de seus membros, passamos a nos identificar com eles, a sorrir e a sofrer com eles. Uma das personagens que mostra isso muito bem é o próprio Rubens Paiva, encarnado de forma tão calorosa e identificável por Selton Mello. Mesmo que ele tenha uma presença relativamente breve no filme, a sua personagem é apresentada e desenvolvida tão bem logo nessa primeira parte que, quando agentes a paisana entram na sua casa e o levam embora para “prestar depoimento”, ficamos preocupados e sentimos a sua falta junto com o resto da família, e também ficamos nos perguntando se ele um dia voltará — mesmo que, no fundo, já saibamos a resposta.

A partir desse ponto na história, Eunice se torna ainda mais uma âncora dentro dessa estrutura familiar, tanto para aqueles cinco filhos, quanto para a audiência. É pelos olhos dela que vemos essa história e os desafios enfrentados por aquela família. E é nela também que a família depende para seu sustento, sua proteção e a sua informação. Essa é a história de uma mãe que se vê tendo que cuidar sozinha daquela situação, nem sempre sabendo o que fazer e nem o que dizer aos seus filhos, tendo ainda que lidar com um estado policial que roubou o seu marido. E, para piorar as coisas, ela acaba também sendo levada, e presa por 12 dias em um quartel, junto com sua filha mais velha, de apenas 15 anos. E felizmente toda a responsabilidade de encarnar essa personagem caiu no colo de Fernanda Torres, que entrega uma performance excepcional, que mescla toda a força e vulnerabilidade que esse papel exige. Se a apresentação e construção dessa família e dessas personagens ajudam e muito a nos envolvermos na história, as atuações, de todo o elenco, trazem uma humanidade a mais para essas pessoas, e fazem com que elas se tornem ainda mais realistas e credíveis. E, nesse sentido, Fernanda Torres se destaca individualmente, mas também dentro de um elenco já muito forte, funcionando como a peça central do roteiro, sob a qual todas as outras dependem.

Além disso, devo comentar sobre a excelente ambientação de “Ainda estou aqui”. Todos os cenários, os figurinos, as maquiagens, o desenho de produção, as músicas e até a fotografia, tudo é feito e pensado para invocar o Rio de Janeiro dos anos 1970. E penso que isso é importante, para além de mero preciosismo, porque o filme faz um excelente trabalho não só em trazer a audiência para dentro daquela família, compreendendo e se envolvendo com aquelas personagens, mas também nos coloca dentro daquele momento histórico, inclusive visualmente. Para bem e para mal, somos colocados em todo aquele contexto, em que uma família de classe média podia até ter certo conforto material, com a televisão, música e carros dos anos 70, mas que ainda estava, o tempo inteiro, sujeita a um estado de exceção brutal, sem nem oportunidade de defesa. E, voltando ao mundo de hoje, um filme que mostra essa contradição dos “anos de chumbo” no Brasil é importante, principalmente num momento em que não faltam pessoas para falar que “naquela época que era bom”.

O único problema que tenho com este filme está relacionado com o seu ritmo, e como este é afetado por dois epílogos: um primeiro passado nos anos 1990, quando Eunice finalmente consegue uma certidão de óbito para seu marido, e o segundo, já citado, que se passa nos anos 2010 e mostra Eunice já mais velha. Para mim, mesmo que esses dois momentos sirvam certas funções na narrativa, fechando certos arcos na história, e tenham aspectos interessantes (como o simbolismo com o início do filme que mencionei), acabam sendo curtos demais e parecem um pouco deslocados do resto do filme. Dessa forma, mesmo que eles sejam, individualmente, bons momentos, eles parecem interromper todo o ritmo que o longa estava construído até então e, pelo menos para mim, não se encaixaram muito bem.

Ainda assim, “Ainda Estou Aqui” é um excelente filme. Como é bom ver uma obra brasileira tão bem produzida, dirigida, atuada. É um filme que consegue nos conectar com a sua história e personagens de tal forma que realmente passamos a nos preocupar com eles, com a sua segurança nesse cenário, e a sentir a sua falta se eles vão embora. Ao mesmo tempo, é um filme que consegue recriar toda uma época, remontando o retrato de um Brasil contraditório e brutal, mas que foi real e que permanece registrado na memória de alguns, e nas chagas não cicatrizadas deste país. Assim, este também é um filme que serve como lembrança importante das barbáries cometidas pela ditadura no Brasil, e como elas não vitimavam apenas ‘vagabundos’, como alguns insistem de acreditar. E, para completar tudo isso, é um filme com atuações espetaculares, especialmente por Selton Mello e Fernanda Torres, que ajudam toda essa obra a funcionar, servindo de base para o roteiro e para todo o resto do elenco. Simplesmente, muito bom.

Ditadura nunca mais.