WolfWalkers (2020) – Crítica

Wolfwalkers (2020)

nota: A+

CRÍTICA: ★★★★ PÚBLICO: ★★★
  • Direção: Tomm Moore e Ross Stewart
  • Roteiro: Will Collins (história de Tomm Moore, Ross Stewart e Jericca Cleland)
  • Produção: Tomm Moore, Stéphan Roelants, Nora Twomey e Paul Young
  • Elenco (voz): Honor Kneafsey, Eva Whittaker, Sean Bean, Simon McBurney, Maria Doyle Kennedy, etc.
  • Gênero: Animação, Aventura, Fantasia
  • Duração: 103 min (1h43min)
  • Classificação: 10 (BRA), PG (IFCO), PG (BBFC), Tous publics (FRA)

Espetacular

“Suas personagens são seriamente cativantes, sua história é incrível e sua animação fantástica”

WolfWalkers” (dir. Tom Moore e Ross Stewart, 2020) conta a história de Robyn Goodfellowe (Kneafsey), uma jovem inglesa que se muda com seu pai, Bill Goodfellowe (Bean) para uma cidade murada chamada Killkenny, na Irlanda. Na época em que o filme se passa, em meados do século XV, a Irlanda fazia parte da Comunidade da Inglaterra, governada pelo Lorde Protetor Oliver Cromwell (McBurney), de cuja guarda o pai de Robyn faz parte.

A menina, porém, não se adapta muito bem a esse novo lugar. Enquanto no seu antigo lar ela tinha espaço e liberdade para se aventurar pelos campos e brincar com seu falcão de estimação, Merlyn, agora ela se vê confinada aos muros da cidade e, mais ainda, aos limites da pequena casa onde agora vive. Por causa disso, ela, sempre que pode, insiste em sair com o pai para fora dos muros da cidade, onde ele vai para colocar armadilhas contra lobos no bosque próximo ao vilarejo. No entanto, Bill nunca permite que a filha o acompanhe nessas suas incursões pela mata. Isso porque os lobos completamente aterrorizam os cidadãos de Killkenny, que os querem o mais longe possível de suas casas e plantações — e isso inclui o Lorde Protetor, que possui um palácio no centro da cidade e quer que os lobos sejam exterminados.

Um dia, porém, Robyn consegue escapar da cidade e ir até os limites do bosque, onde ela encontra um alcateia de lobos. Ela tenta se defender, mas acaba ferindo Merlyn, que é levado para dentro da floresta por uma estranha menina ruiva, que parece andar junto com os lobos. Robyn decide seguí-la e descobre que ela é uma WolfWalker, uma criatura que é humana enquanto acordada e loba durante o sono, e que possui habilidades de cura, que ela usa para curar o pássaro.

A partir de então, Robyn e a menina, chamada Mebh (Whittaker), se tornam as mais improváveis amigas. Isso, porém, deixa a inglesa em uma situação complicada, já que, além de nem dever estar indo ao bosque, ela agora tem uma perspectiva completamente nova quanto aos lobos que lá vivem, que ainda são muito temidos e odiados pelos citadinos, pelo seu pai e, mais importante, pelo Lorde Protetor, que deseja vê-los exterminados — algo que a garota não pode deixar que aconteça, nem com os lobos e nem com sua mais nova amiga.

A primeira vista, vários aspectos dessa história podem até parecer não muito originais e até meio cliché: uma menina que tem dificuldade de se encaixar decide proteger a natureza dos adultos malvados que querem destruí-la. Essa premissa facilmente poderia se tornar algo bastante previsível e tosco. Porém, o grande diferencial desse filme é exatamente que ele consegue subverter isso, apresentando o seus temas e personagens de maneira tão diferente e bem realizada, que o longa se mostra como algo muito maior do que sua premissa.

Penso que o fator de maior peso, que faz essa história dar realmente certo, são as personagens. Tanto Robyn quanto Mebh, além de serem personagens extremamente cativantes, têm desenvolvimentos muito bem realizados, de maneira que o espectador não só quer vê-las ter sucesso, mas também consegue entender todas as suas motivações, suas nuances, suas hesitações, suas escolhas. O filme faz um trabalho tão bom em nos fazer conhecer e entender estas personagens que, mais próximo do final, quando ambas são obrigadas a fazer escolhas difíceis, as suas decisões são completamente compreensíveis.

Mesmo no início do filme, quando Robyn tenta repetidas vezes sair escondida da cidade, desobedecendo seu pai. Em algum outro filme, isso talvez pudesse ser visto como uma teimosia repetitiva e chata da garota; nesse, é algo completamente compatível com o espírito aventureiro da personagem e algo na qual a audiência que ver ela ter sucesso. Se as personagens não fossem tão cativantes e bem construídas, isso não seria possível.

Não só as suas atitudes, mas as circunstâncias em que as personagens são postas ajudam e muito nas suas construções. E esses contextos certamente ajudam a desconstruir aquela premissa cliché que citei antes. Afinal, Robyn não é meramente uma “menina que não se encaixa”, ela é uma imigrante, uma estrangeira, no contexto de uma Irlanda que já não era tão amigável aos seus colonizadores. Ela não simplesmente quer “proteger a natureza”, ela, dividida, se vê tendo de se colocar entre os interesses de seu pai, a quem ela ama, e da sua nova amiga para tentar salvá-la. E não é um conflito ‘preto no branco’ de “adultos malvados” que querem destruir a natureza, mas de pessoas igualmente humanas, que não querem mais ser aterrorizados pelos lobos e querem proteger a si mesmos e suas famílias, assim como o pai de Robyn.

Mesmo o grande vilão, o Lorde Protetor, tenta sempre se justificar de suas ações com uma suposta ética cristã, falando sempre que eliminar os lobos é a “vontade do Senhor” (o que é bastante interessante, já que a palavra em inglês “Lord” pode ter um sentido deliberadamente ambíguo nesse contexto). Sua personagem lembra bastante a do Juiz Claude Frollo, de “O Corcunda de Notre Dame” (dir. Gary Trousdale e Kirk Wise, 1996), que também balanceia seus atos monstruosos com uma suposta moralidade religiosa.

O que esses contextos também mostram é como o filme consegue misturar elementos históricos e folclóricos irlandeses, algo que esta mesma produtora, a Cartoon Saloon, e o mesmo diretor, Tomm Moore, já tinham feito no encantador “A Canção do Oceano” (dir. Tomm Moore, 2014). A história envolve elementos específicos da cultura irlandesa, o que inclui tanto a maneira como eles misturam sua religiosidade com superstições populares e folclore, quanto a sua aversão aos seus colonizadores ingleses, por exemplo — além de outras coisas mais específicas que talvez passem desapercebidas, como o preconceito contra ruivos, que faz as crianças da cidade os associarem aos WolfWalkers.

Mas não só de personagem e contexto se faz uma animação, por mais complexos e bem construídos eles sejam. Falta falar da animação em si, pois ela é absolutamente extraordinária.

Em primeiro lugar, o filme faz algo que torna longas desse tipo ainda mais especiais: ele se beneficia do fato de ser uma animação. A verdade é que o gênero ‘animação’ tem certas especificidades e liberdades que outros gêneros simplesmente não possuem; entre os quais está a relativa falta de limitações que ela apresenta. Enquanto projetos live-action podem ter certos problemas para construir e tornar realísticos mundos e personagens da fantasia, a animação não passa por esses mesmos problemas — tanto que a fantasia está na animação desde seus primórdios. Portanto, quando um filme usa tais características gênero-específicas em seu benefício e em benefício da sua história, como faz “WolfWalkers”, ele se torna ainda mais único e especial.

Um exemplo de como a mídia animada é usada em favor da história é os traçados. O filme é desenhado de uma maneira relativamente rústica, com uma estética de expõe mais claramente os traçados de lápis que contornam os desenhos, mas ao mesmo tempo contrasta isso com os movimentos dos personagens, que são bastante fluidos e suaves. Quando, porém, acontece alguma cena mais tensa e emocionalmente forte, os animadores comunicam esses sentimentos das personagens também pelos traçados do desenho, que se tornam mais grossos, menos limpos, mais claramente “rabiscados”, e a animação dos personagens também se torna mais dura, menos fluida, as bordas da tela ficam mais grossas e “aprisionam” as personagens entre os limites da imagem. Estando tudo calmo ou tenso, a animação tenta refletir isso, e funciona maravilhosamente bem.

Se isso não bastasse, o design tanto das personagens quanto dos cenários também são muito bem feitos. Enquanto tudo na cidade, incluindo os cidadãos, é desenhado de maneira bastante geométrica, quadrada, com os prédios se tornando vários retângulos chapados à distância, a floresta é bastante circular, redonda, mais tridimensional, o que se reflete até no desenho de Mebh. Os efeitos que o filme possui também são muito bons, como a maneira que eles conseguiram capturar visualmente como seria a perspectiva do olfato e audição de um lobo.

Enfim, “WolfWalkers” é espetacular. Suas personagens são seriamente cativantes, sua história é incrível e sua animação fantástica. Além disso, o filme trata de diversos temas que podem o fazer funcionar como uma alegoria à imigração e à xenofobia, além, é claro, da questão ambiental que é inerente a sua história. A inclusão de elementos da cultura e história irlandesa só tornam a experiência mais culturalmente rica e interessante. Tudo, desde a dublagem até os mais simples detalhes da animação, mostram porque este é meu filme favorito de 2020. Maravilhoso.


🏆 “WolfWalkers” foi vencedor de 5 Annie Awards, incluindo melhor filme independente. Também foi indicado ao Oscar e ao BAFTA de melhor filme de animação.