
reprodução: MUBI
Sinopse: Em um anúncio de jornal, Ruth Beckermann anuncia uma audição para um filme baseado no romance pornográfico Josefine Mutzenbacher or The Story of a Viennese Whore. Cem homens são confrontados com o texto em uma época em que o sexo está mais presente do que nunca.
“Chega a ser quase hipnotizante”
Como alguns dos entrevistados disseram, “eu acho que preciso de algum tempo para processar isso aqui…”.
“Mutzenbacher” (dir. Ruth Beckermann, 2022) é um filme complicado. Especialmente considerando o seu assunto, que o longa trata de uma maneira tão interessante, aliás, que chega a ser quase hipnotizante. No documentário, a diretora austríaca Ruth Beckermann realiza audições para um filme que, supostamente, seria baseado em um romance erótico chamado Josefine Mutzenbacker (ou A história de uma p*ta vienense). O livro, escrito no início do século XX, descreve diversas cenas de sexo, incluindo algumas envolvendo crianças e adolescentes, além de casos de incesto, est*pro e ass*dio.
Tudo isso já seria o suficiente para espantar e mesmo ofender algumas pessoas, o que é completamente compreensível (mais que isso, é o esperado). Porém, o que torna esse filme tão interessante é exatamente a reação dos atores sendo entrevistados. Desde nojo completo, passando por risadas envergonhadas, até uma simpatia (muito preocupante) com os acontecimentos do livro, o filme suscita todo um espectro de emoções dos seus entrevistados, além de levantar discussões bastante legítimas sobre sexualidade, sobre literatura, história, cultura, prazer, desejos e despertares sexuais, tudo trazido pela leitura de um estranho livro pornográfico.
Este filme poderia, tão facilmente, ter sido uma obra pretenciosa, e chocante por ser chocante. E, de novo, com certeza muitos ficarão ofendidos com o filme — ele certamente não é para todo mundo. Mas, pelo menos em minha visão, esse não é o objetivo. Para mim, esse documentário expõe uma colorida tapeçaria de muitos pontos de vista diferentes, e às vezes conflitantes, sobre tópicos nada fáceis de se discutir. Muitas dessas perspectivas podem parecer incoerentes e confusas? Claro, mas isso não deixa de fazer a audiência pensar e, principalmente, fazer perguntas.
Além disso, acho a escolha de apenas se entrevistar homens para o filme bastante interessante. E já que este filme foi dirigido por uma mulher, estou disposto a dizer que isso foi uma escolha consciente da produção. O filme provavelmente seria muito diferente, e teria suscitado discussões muito diferentes, se ele também incluísse entrevistados de outros gêneros, ou se tivesse apenas mulheres no elenco. Além do mais, algumas cenas e falas dos homens se tornam um pouco mais desconfortáveis quando se lembra que tem uma mulher atrás da câmera.
Tem muito para se analisar quanto ao sexismo e à sexualidade nesse documentário, e eu estou muito longe de ser a pessoa certa para fazer esse tipo de avaliação. Talvez um psicanalista, um antropólogo, ou até um jornalista mais especializado, seja melhor para esse tipo de coisa. Afinal, é um filme difícil de se discutir, mas essa dificuldade é precisamente a sua maior qualidade.





