O Fim da viagem, o começo de tudo

Reprodução: MUBI

nota: B

CRÍTICA: ★★★★ PÚBLICO: ★★★
  • Título original: 旅のおわり世界のはじまり (Tabi no owari sekai no hajimari)
  • Direção: Kiyoshi Kurosawa
  • Roteiro: Kiyoshi Kurosawa
  • Produção: Jason Gray, Eiko Mizuno Gray, Toshikazu Nishigaya
  • Elenco: Atsuko Maeda, Shōta Sometani, Tokio Emoto, Adiz Rajabov, Ryo Kase, etc.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 120 min (2h)
  • Classificação: 12 (BRA); G (JAP)

O.K.

“mesmo que realmente não seja para todo mundo, O Fim da viagem, o começo de tudo não só mantém esse nível de qualidade no seu aspecto técnico, como também tem as suas próprias particularidades”

Um dos aspectos que admiro no filme “Encontros e Desencontros” (2003), de Sofia Coppola, é como ele consegue evocar um sentimento específico de solidão e de alienação que às vezes sentimos em um lugar que nos é estranho, ou até desconfortável. Naquele filme, as personagens de Bill Murray e Scarlett Johansson ambos viajam para o Japão, um lugar que se torna, para cada um deles, esse lugar desconfortável, onde eles se sentem isolados e alienados do mundo a sua volta. E, naquele filme, isso é usado justamente como um contraste, justapondo como eles se sentem sozinhos, e como se sentem na companhia um do outro — e é justamente nesse contraste que a relação dos dois começa a florescer.

Esse mesmo sentimento é também evocado em “O Fim da viagem, o começo de tudo” (2019), de Kiyoshi Kurosawa, que parece brincar de inverter a premissa daquele filme. Não só porque a história é invertida, contando de um grupo de japoneses que viaja para um país que é ainda mais “alienígena” para eles (o Uzbequistão), mas também porque a sua protagonista, a jovem Yoko (Maeda), raramente acha qualquer tipo de reconforto nos seus companheiros de viagem. Assim, a sua solidão, esse sentimento específico que o longa consegue evocar, vira parte central da trama, e é às vezes levado a um nível realmente desconfortável — o que talvez só um diretor tão acostumado com terror poderia proporcionar.

O filme conta a história de um grupo de documentaristas japoneses que vão para o Uzbequistão gravar um especial de TV, em que Yoko será a apresentadora. Lá, eles são guiados por Temur (Rajabov), um guia uzbeque que os leva para diferentes pontos turísticos pelo país e também serve de tradutor. Porém Yoko, a única mulher do grupo, se sente especialmente deslocada naquele lugar, não só pela barreira linguística e as várias diferenças culturais, mas também por uma misoginia casual e generalizada, que ela tem que enfrentar em alguns momentos da viagem. E se isso não bastasse, ela sente falta do seu namorado, que ficou lá no Japão.

Como dá para perceber, essa não é uma história grandiosa, nem mesmo uma que tem qualquer acontecimento espetacular. E dentre os filmes desse diretor — sobre os quais tenho escrito nos últimos meses –, esse se destaca como um dos mais diferentes de sua carreira (pelo menos daquilo que já vi dela). É um filme sutil, que tem o seu foco mais na experiência e nos sentimentos de sua personagem central, do que em qualquer história maior que se desenrole ao seu redor. Novamente, um dos aspectos que mais me chamaram a atenção foi justamente como o filme consegue evocar um certo sentimento de solidão e desespero contido, que se dá por acompanharmos e nos identificarmos com essa personagem e com as dificuldades que ela passa durante a viagem.

Enquanto estão filmando, Yoko mantém um sorriso no rosto, que rapidamente desaparece toda vez que o diretor diz “corta”. O filme é mais sobre esses sentimentos contidos de insatisfação da personagem, e as máscaras que ela se obriga a colocar nessas situações, do que sobre a jornada em si. E é aí que está a maior força do longa.

Outro fator que ajuda nesse sentido é a fotografia. Comandada por Akiko Ashizawa, com quem o diretor já havia trabalhado em “Crimes obscuros” (2006), “Sonata de Tóquio” (2008) e “Creepy” (2016), a maneira como os planos são filmados ajuda ainda mais a enfatizar essa sensação de alienação e ansiedade de estar em um lugar desconhecido. Em planos com várias pessoas, Yoko sempre aparece destacada, apartada dos outros ao seu redor, indo na direção contrária deles, e, algumas das vezes, sendo a única mulher (na cena em que entra no ônibus, por exemplo). E isso é enfatizado nas cenas em que ela decide passear sozinha pela cidade; como na cena em que ela entra no teatro, ou na que ela se separa de seu grupo no mercado. Não diria que é uma fotografia tão memorável quando a de outros filmes de Kurosawa, mas ela certamente consegue combinar muito bem com os sentimentos que o filme busca evocar.

Porém, mesmo com essas qualidades, posso ver muitas pessoas assistindo a esse filme e ficando… insatisfeitas. Isso porque, novamente, nada no filme é realmente espetacular, e o final não é exceção. Sem entrar em spoilers, é compreensível que alguns pensem que o filme “não vai a lugar algum”, pois ele termina com apenas alguns desenvolvimentos muito sutis das suas personagens, com pouco ou nenhum acontecimento que seja muito surpreendente. Isso não foi tanto um problema para mim, pois entendo que essa era a proposta do filme desde o início, mas para pessoas que estão buscando algo mais parecido, por exemplo, com outros os outros filmes desse diretor, certamente não encontrarão isso aqui — pelo menos não em termos de história.

Com isso em consideração, chega a ser fascinante o quanto Kiyoshi Kurosawa consegue ter sucesso em gêneros e histórias tão diferentes quanto “Crimes obscuros”, “Sonata de Tóquio” e “O Fim da viagem, o começo de tudo”. Todos compartilham algumas das mesmas qualidades em termos de roteiro, fotografia e direção, mesmo o primeiro sendo um filme de terror, o segundo um drama familiar, e este daqui uma espécie de drama pessoal e subjetivo. E mesmo que realmente não seja para todo mundo, “O Fim da viagem, o começo de tudo” não só mantém esse nível de qualidade no seu aspecto técnico, como também tem as suas próprias particularidades, sendo uma história sutil, em escala pequena, mas com bons personagens e cheia de complexidade emocional.

“Mutzenbacher” (2022) é um filme difícil, mas essa é sua maior qualidade – MUBI days

reprodução: MUBI

Sinopse: Em um anúncio de jornal, Ruth Beckermann anuncia uma audição para um filme baseado no romance pornográfico Josefine Mutzenbacher or The Story of a Viennese Whore. Cem homens são confrontados com o texto em uma época em que o sexo está mais presente do que nunca.

“Chega a ser quase hipnotizante”

Avaliação: 3.5 de 5.

Como alguns dos entrevistados disseram, “eu acho que preciso de algum tempo para processar isso aqui…”.

“Mutzenbacher” (dir. Ruth Beckermann, 2022) é um filme complicado. Especialmente considerando o seu assunto, que o longa trata de uma maneira tão interessante, aliás, que chega a ser quase hipnotizante. No documentário, a diretora austríaca Ruth Beckermann realiza audições para um filme que, supostamente, seria baseado em um romance erótico chamado Josefine Mutzenbacker (ou A história de uma p*ta vienense). O livro, escrito no início do século XX, descreve diversas cenas de sexo, incluindo algumas envolvendo crianças e adolescentes, além de casos de incesto, est*pro e ass*dio.

Tudo isso já seria o suficiente para espantar e mesmo ofender algumas pessoas, o que é completamente compreensível (mais que isso, é o esperado). Porém, o que torna esse filme tão interessante é exatamente a reação dos atores sendo entrevistados. Desde nojo completo, passando por risadas envergonhadas, até uma simpatia (muito preocupante) com os acontecimentos do livro, o filme suscita todo um espectro de emoções dos seus entrevistados, além de levantar discussões bastante legítimas sobre sexualidade, sobre literatura, história, cultura, prazer, desejos e despertares sexuais, tudo trazido pela leitura de um estranho livro pornográfico.

Este filme poderia, tão facilmente, ter sido uma obra pretenciosa, e chocante por ser chocante. E, de novo, com certeza muitos ficarão ofendidos com o filme — ele certamente não é para todo mundo. Mas, pelo menos em minha visão, esse não é o objetivo. Para mim, esse documentário expõe uma colorida tapeçaria de muitos pontos de vista diferentes, e às vezes conflitantes, sobre tópicos nada fáceis de se discutir. Muitas dessas perspectivas podem parecer incoerentes e confusas? Claro, mas isso não deixa de fazer a audiência pensar e, principalmente, fazer perguntas.

Além disso, acho a escolha de apenas se entrevistar homens para o filme bastante interessante. E já que este filme foi dirigido por uma mulher, estou disposto a dizer que isso foi uma escolha consciente da produção. O filme provavelmente seria muito diferente, e teria suscitado discussões muito diferentes, se ele também incluísse entrevistados de outros gêneros, ou se tivesse apenas mulheres no elenco. Além do mais, algumas cenas e falas dos homens se tornam um pouco mais desconfortáveis quando se lembra que tem uma mulher atrás da câmera.

Tem muito para se analisar quanto ao sexismo e à sexualidade nesse documentário, e eu estou muito longe de ser a pessoa certa para fazer esse tipo de avaliação. Talvez um psicanalista, um antropólogo, ou até um jornalista mais especializado, seja melhor para esse tipo de coisa. Afinal, é um filme difícil de se discutir, mas essa dificuldade é precisamente a sua maior qualidade.

“Viajando” com Nils Frahm

Arte por @marcossketches

Nils Frahm não era um nome que me era conhecido, e sua música certamente estaria fora do meu radar, não fosse um acaso do destino — e a curadoria da MUBI — me introduzir à esse incrível artista por meio do filme-concerto Tripping with Nils Frahm” (dir. Benoit Toulemonde, 2020)

Frahm, músico e compositor alemão, tem o costume de misturar, em suas composições, música clássica e eletrônica, tocar vários tipos de teclado e piano e incorporar tudo isso num estilo próprio e impressionante. Em “Tripping”, Frahm se apresenta no Funkhaus Berlin, tocando um aparato que inclui, pelo menos, sete teclados e pianos diferentes, junto com alguns sintetizadores. O resultado são 100 minutos de música, habilidade e experimentação que realmente levam o espectador numa fascinante viagem.

Tripping With Nils Frahm (2020) | MUBI
MUBI / Leiter / Plan B Entertainment (divulgação)

O filme, produzido por Brad Pitt, inclui 8 músicas de Nils Frahm, tocadas ao vivo para uma audiência, sentada ao redor do palco.

Essa área central, onde ele se apresenta, é a única parte iluminada do salão, com a luz vindo de cima como que em um holofote, o que acaba por criar um contraste com o público, na escuridão ao redor; essa escolha de iluminação induz uma certa atmosfera no ambiente, que complementa tanto a fotografia quanto a música da apresentação. O filme também utiliza de planos com a câmera na mão, que colocam o espectador na “primeira fileira” do concerto, complementando ainda mais a experiência.

E o filme é uma experiência. Primeiramente porque os espectadores têm a oportunidade – se não o privilégio – de ouvir as músicas e de testemunhar o trabalho e o esforço de Nils Frahm tocando três, quatro instrumentos ao mesmo tempo; mas também por causa da maneira como a produção do filme é integrada com as músicas e com o espetáculo de modo a construir essa experiência, a tornando mais do que simplesmente uma apresentação filmada.

Tripping With Nils Frahm (2020) | MUBI
MUBI / Leiter / Plan B Entertainment (divulgação)

O crítico Noel Murray, do Los Angeles Times, descreveu que “assistir [Frahm] trabalhando […] é um pouco como assistir a um atleta no seu melhor momento” (tradução livre), e realmente é assim. Seja quando ele vai de um teclado a outro no meio de uma música sem que o som pare de tocar, seja quando ele mexe nos sintetizadores ou seja quando ele está apenas dedilhando magistralmente as teclas de um piano, ele, sozinho, consegue prender o interesse pelo simples esforço que é mostrado na tela. A habilidade dele em frente às teclas é tamanha que pode até fazer alguém esquecer que sim, ele está fazendo tudo isso ali, ao vivo (e o suor dele não me deixa mentir).

E é dessa habilidade que resulta aquilo que é a parte central do filme: as músicas. E não há nem razão para tentar esconder, elas são incríveis. Variando entre composições mais complexas e mais simples, mais rápidas e mais lentas, o músico alemão encanta a cada seguimento, de modo que os longos instrumentais de dez, quinze minutos nem parecem demorar tanto.

Uma das razões disso é que cada música, mesmo tendo, com o conjunto, certa uniformidade, se destaca por alguma experimentação diferente. Em algumas, o som de piano é acompanhado por uma batida eletrônica, em outra são adicionadas vozes de coral que dão uma grandiosidade ao som, já em outra ele pega duas baquetas para batucar nas cordas internas do piano; enfim, assistir ao concerto é não saber ao certo o que vai ser feito na próxima melodia.

Além disso, algo que tem um papel ainda mais importante é a forma como som e as imagens são integrados ao resto da produção, de modo a tanto incorporar certos mecanismos e linguagens do cinema, quanto para “capturar” a atenção do espectador. Um exemplo disso é a utilização das câmeras e da iluminação para, de vez em quando, imitarem o ritmo das composições.

Outro exemplo, e talvez o mais fascinante, é como o público ao redor do palco é mostrado no decorrer do tempo. No início, durante o primeiro terço de filme, ele raramente aparece, o que mais se vê são closes de Frahm tocando. A partir do segundo terço, porém, se vê mais e mais das pessoas em volta, e, com isso, mais e mais das reações delas às músicas, reações essas que também variam com o tempo. Enquanto no começo elas consistem nas pessoas permanecerem sentadas apreciando o som, no terço final, parte da plateia já se solta e se levanta para dançar.

Tripping with Nils Frahm (2020)
MUBI / Leiter / Plan B Entertainment (divulgação)

Mas o que é impressionante não é propriamente o comportamento dos ouvintes, mas que a maneira como ele é mostrado, em conjunto com os outros aspectos já mencionados da apresentação do concerto em tela, tem como resultado um ambiente  hipnotizante, que prende o interesse e a mente do espectador, o puxando pelo braço por essa experiência musical até o fim. As imagens da plateia apreciando cada vez mais a música se tornam contagiantes, convidativas, quase como um “efeito manada” (talvez não o suficiente para fazer qualquer um se levantar e dançar, mas o bastante para dar algumas mexidas de cabeça). 

E é nesse “transe” musical que “Tripping with Nils Frahm” leva o espectador numa viagem; uma viagem na qual a música já consegue nos levar muito bem sozinha, uma jornada de sentimentos, memórias, sentidos que são parte do que torna esse filme tão bom quanto é.

“Um Lugar ao sol” coloca a classe média no espelho, mas ela gosta do que vê | MUBI days #1

Reprodução, MUBI

Sinopse: Moradores de coberturas do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife abrem suas casas para revelar seus pensamentos sobre desigualdade social, política e o mundo que os cerca. Além de discutir assuntos mais íntimos como seus desejos, medos, inseguranças, preconceitos e histórias pessoais.

Opinião da MUBI: “Uma ousada análise da classe no Brasil que ouve os moradores de apartamentos de cobertura: a elite e os poucos privilegiados. Hipnótica e reveladora, esta vista de cima combina imagens surpreendentes com entrevistas perspicazes em um documentário verdadeiramente elucidante”.


“Este filme coloca a classe média ‘no espelho’. Porém, o que torna a análise deste filme tão interessante é que a imagem que nós vemos nesse espelho é, ou pelo menos parece ser, muito diferente daquela vista pelos próprios entrevistados refletidos na tela”

Avaliação: 3 de 5.

“As pessoas só fazem documentário de coisas negativas. Isso é um documentário de uma coisa positiva. Pô, as pessoas quando vão fazer documentário só querem falar sobre a miséria, matança do Carandiru, tudo isso. Muito legal, é uma coisa muito positiva [a iniciativa do diretor], você não acostumado a ver isso”.

Essa frase é dita por um dos entrevistados do filme, morador de uma cobertura no Recife. Ela é boa para exemplificar a maneira como Um Lugar ao sol (dir. Gabriel Mascaro, 2009) coloca seus personagens em certa posição, e, a partir daí, os expõe ao longo do filme, de forma a passar para a audiência uma certa perspectiva. Explico.

O documentário é composto de uma série de entrevistas, com nove personagens, todos moradores de coberturas, alguns no Rio de Janeiro, outros em São Paulo e no Recife.

Entremeadas por imagens aéreas dessas cidades, e com pouquíssimas intervenções do diretor Gabriel Mascaro (Boi Neon, Divino Amor), o filme se deixa conduzir por essas entrevistas, nas quais os personagens falam de si mesmos, e da situação em que vivem, como moradores da cobertura. Desta maneira, todas as falas acabam revelando (ou pelo menos deixam implicado) não só coisas sobre os indivíduos que estão ali falando, mas também sobre as classes médias brasileiras, e sobre a maneira como elas veem o mundo e a sociedade em que vivem.

Para trazer a metáfora já usada por um intelectual público, este filme coloca a classe média “no espelho”. Porém, o que torna a análise deste filme tão interessante é que a imagem que nós vemos nesse espelho é, ou pelo menos parece ser, muito diferente daquela vista pelos próprios entrevistados refletidos na tela. E a frase com que comecei o texto exemplifica isso muito bem.

Sob certa perspectiva, os entrevistados se “queimam”, durante toda a projeção. Eles escancaram o seu elitismo, o seu preconceito de classe, seu racismo e, principalmente, sua alienação sobre as classes mais “baixas” em vários momentos. Em um deles, por exemplo, uma moça diz que uma das vantagens de morar na cobertura é ter privacidade quanto aos seus empregados — pois eles ficam na área de serviço, e ela não tem de ficar ouvindo nem a conversa deles, nem as “batidas de panela” que a irritam.

Em outra cena, uma outra mulher relata como é bonito ver, lá do alto de seu apartamento no Rio, o brilho das rajadas de tiros e rojões lançados do morro Dona Marta, que fica perto de seu condomínio.

Aliás, o tema da altitude dos prédios e a maneira com que os moradores de cobertura “veem as coisas do alto”, é bastante recorrente durante todo o filme. Não só é algo que é citado pelos entrevistados como um diferencial da vida que levam, mas também é um tema incorporado narrativamente no documentário. 

Se utilizando de uma metáfora, mesmo que meio óbvia, de que os moradores da cobertura estão “mais acima”, e que olham para os pobres mortais abaixo de si, o longa tenta ressaltar a alienação desse grupo privilegiado quanto ao resto das pessoas, não só pelas suas falas, mas também pela sua distância física, que eles têm delas e de seus problemas.

Imageticamente, essa metáfora ganha forma nas tomadas inseridas entre as entrevistas, que ou mostram as cidades vistas de cima, ou decidem focar em algo acontecendo nas ruas, como visto da perspectiva do alto de um prédio — como pessoas andando na calçada, ou alguém tomando sol no terraço de um prédio mais baixo.

Inclusive, uma das melhores cenas do documentário, tanto estética quanto simbolicamente, é uma do pôr do sol na praia, em que os prédios da orla fazem sombras na areia, com os banhistas se vendo obrigados a a ficar nas estreitas faixas de sol entre as sombras daqueles prédios colossais. Enquanto isso, os moradores da cobertura aproveitam a luz do sol nas suas piscinas privativas, em seus prédios com nomes franceses, com suas artes e relíquias africanas, aproveitando do bom e do melhor, longe dos seus empregados, que estão na longínqua área de serviço.

Um Lugar ao Sol é um documentário enxuto, mas bastante relevante e bem produzido. Graças a uma montagem excelente, o filme consegue manter seu foco, em seu tempo reduzido, e passar muito bem sua mensagem, mesmo que às vezes recorrendo a metáforas um pouco óbvias, mas não por isso menos ilustrativas e impactantes.