(Série #2.1) Rectify – 1ª Temporada (2013) – Crítica

Abigail Spencer and Aden Young in Rectify (2013)

nota: B+

CRÍTICA:   PÚBLICO:
  • Criação: Ray McKinnon
  • Direção: Keith Gordon, Billy Gierhart, Nicole Kassell, Jim McKay, Romeo Tirone e Ray McKinnon (cada um dirigiu um episódio)
  • Roteiro: Ray McKinnon (4 eps.), Evan Dunsky (1 ep.), Graham Gordy (2 eps.) e Michael D. Fuller (2 eps.)
  • Produção: Don Kurt
  • Elenco: Aden Young, Abigail Spencer, J. Smith-Cameron, Adelaide Clemens, Clayne Crawford, Luke Kirby, Bruce McKinnon, Jake Austin Walker, Michael O’Neill, J.D. Evermore, Johnny Ray Gill etc.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 6 episódios de 46min (276min ou 4h36min)
  • Classificação: TV-14

Episódios:

S01E01 – Aways There (P: )

★Top2

S01E02 – Sexual Peeling (P: )

★ Pior

S01E03 – Modern Times (P: )

S01E04 – Plato’s Cave (P: Pior)

S01E05 – Drip, Drip (P: ★Top2)

S01E06 – Jacob’s Ladder (P: ★Melhor)

★Melhor

(Crítica sem spoilers, por ser a primeira temporada)

Após ser condenado pelo estupro e assassinato de uma garota e passar 19 anos no corredor da morte, Daniel Holden (Young) é solto por causa de uma nova análise de DNA. Durante o tempo que passou encarcerado, tinha pouco contato humano (e o que tinha era normalmente hostil), vivia numa cela minúscula e praticamente sem comunicação com o mundo exterior. Então, após passar quase duas décadas de sua vida nessa situação, ele é solto. Lá fora, o mundo mudou e sua família também, todos agora o conhecem e o julgam culpado ou inocente, ele passa a ter diversos traumas, dificuldades de interação e ainda arrisca sofrer uma nova sentença. Enfim, ele foi retirado da sociedade e, de repente, jogado de volta nela.

Um dos temas mais recorrentes da primeira temporada de “Rectify” (2013-2016) é o da desconexão, e, ainda mais, da dificuldade de religação, de Daniel com essa nova realidade e com esse mundo, abandonado há tanto tempo. Quando foi preso, ele era um jovem nos anos 1990, agora, ele é um adulto nos anos 2010; esse choque de realidades (praticamente uma viagem no tempo) é bem explorado na série, mostrando Daniel como alguém perdido, distanciado de todos, com dificuldade de mostrar ou reagir a afeto e a outras emoções, um morto-vivo.

Durante sua ausência, seu pai veio a falecer. Sua mãe (Smith-Cameron) acabou casando novamente e, com esse casamento, ganhou dois enteados: Ted Jr. (Crawford) e Jared (Walker). Pelo que a temporada mostra, nenhum desses familiares batalhou muito para provar sua inocência, deixando isso, em grande parte, a cargo de sua irmã, Amantha (Spencer), e de seu advogado, Jon Stern (Kirby). Amantha é uma das únicas pessoas que conseguem se relacionar mais proximamente com Daniel após a sua soltura. O resto da família, em sua maioria, apesar de ficar feliz em vê-lo livre novamente, sempre age com um certo constrangimento, que demonstra uma distância entre eles. A única exceção à alegria, dentro do núcleo familiar, é Ted Jr. que fica, de início, indiferente e com certas ressalvas.

Já ressalvas são o mínimo que outras pessoas têm quanto à soltura de Holden. Em especial, Roland Foulkes (O’Neill), um senador, e Carl Daggett (Evermore), um xerife local, estão convencidos de que ele é culpado e se comprometem a achar maneiras de, finalmente, condená-lo à cadeira elétrica. O principal argumento usado por eles é que Daniel, de fato, fez uma confissão — segundo os parentes, forçada — , que foi o que resultou na primeira condenação.

O primeiro episódio, mesmo que com alguns problemas, consegue se consolidar como um dos melhores da temporada. O que se destaca nele é, principalmente, a maneira como ele introduz a premissa básica da história, as suas personagens e as relações e conflitos entre os diferentes grupos de personagens (e faz isso logo nos primeiros minutos). O capítulo falha, porém, em apresentar certas informações de maneira natural. Em uma cena, por exemplo, o senador e o xerife, depois da soltura, discutem o caso da condenação, trazendo vários fatos a mesa por meio de diálogos expositivos escritos de maneira nada natural, especialmente se comparados aos diálogos do resto da première e da temporada como um todo.

Mas o que realmente move a história para frente são aquelas relações, introduzidas neste episódio, entre os grupos de personagens e entre eles e Daniel: enquanto a irmã e o advogado lutam para manter o irmão e cliente livre, os seus acusadores tentam incriminá-lo; Amantha não mantém as melhores relações com o resto da família pela falta de envolvimento deles com o caso; Ted Jr. quer evitar se envolver com o meio-irmão recém liberto; e por aí vai. E no meio desses conflitos e relações, está Daniel, nada acostumado com o mundo fora das grades.

Quanto ao protagonista, aliás, algo que adiciona à, já complexa, personagem de Holden é a excelente atuação de Aden Young. Além dele se destacar entre o ótimo elenco, ele também ajuda a consolidar uma outra camada à sua personagem que torna a história inteira mil vezes mais interessante e complexa: a ambiguidade.

Acontece que, mesmo que a série foque, principalmente, nessa personagem e em algumas que o consideram inocente (como sua irmã), nunca nos é mostrado, explicitamente, se Daniel é culpado ou não. Com a audiência deixada às cegas desse jeito, se cria um espaço para ambiguidade em praticamente toda cena, e tanto os roteiristas quanto Young se aproveitam incrivelmente disso. O tempo que ele passou acorrentado na “caverna de Platão” (como a própria série compara o tempo dele preso), também é usado para, além de desenvolver o protagonista, trabalhar esta constante dúvida: ele matou ou não?

Assim sendo, várias das atitudes, falas e comportamentos estranhos que Daniel Holden tem durante o decorrer dos episódios, além poderem normalmente ser justificados por sua falta de costume no mundo fora de sua cela, também podem ser motivados por algum tipo de loucura ou psicopatia, talvez anterior a sua prisão. Com essa mentalidade, o espectador acaba criando também alguma empatia com aqueles que o acusam ou se sentem, como seu meio-irmão, intimidados por ele. Daniel não reage ou mostra muitas emoções, vive falando e fazendo coisas estranhas e foi condenado por estupro e assassinato; essa perspectiva faz com que aqueles que, em outras circunstâncias, seriam considerados “vilões”, se tornem muito mais humanos e realistas.

Ao mesmo tempo, Daniel também é desenvolvido de modo bastante humano, especialmente na maneira como se contrasta, por meio de ocasionais flashbacks, o tempo dele dentro e fora do cárcere. Nessas memórias, é revelado que Daniel fez um amigo no corredor da morte, Kerwin Whitman (Gill), o preso da cela ao lado. Sem revelar muito, os dois mantém essa amizade apenas conversando pelos buracos de ventilação da cela, criando alguns dos momentos de maior simpatia da audiência com a personagem principal. Além disso, é claro, ele passou 19 anos naquele local e pode ter sido incriminado injustamente. Essa possibilidade, aliada aos momentos de simpatia e a uma determinada interpretação de suas atitudes, também torna justificável a crença em sua inocência.

De qualquer forma, a performance de Young, o roteiro e a direção conseguem passar essas duas conflitantes e concomitantes narrativas de maneira brilhante.

Bem escrita e atuada, brilhantemente ambígua e constantemente boa, a primeira temporada de “Rectify” é um sucesso. Os problemas que tem (como a exposição do primeiro episódio) são bem pontuais e, por isso, não poderiam ser discutidos em um texto sem spoilers. No geral, é um drama bem trabalhado, com personagens e relações bem construídas e desenvolvidas, resultando em um punhado de momentos impactantes e recheados de dubiedade emocional que só beneficiam esse bom início de série.

(Série #1.1) Downton Abbey – 1ª Temporada (2010) – Crítica

nota: B+

CRÍTICA: ★½  PÚBLICO:
  • Título Original: Downton Abbey
  • Criação: Julian Fellowes
  • Direção: Brian Percival
  • Roteiro: Julian Fellowes (7 episódios), Shelagh Stephenson (1 episódio) e Tina Pepler (1 episódio).
  • Produção: Liz Trubridge, Nigel Marchant, Chris Croucher e Rupert Ryle-Hodges
  • Elenco: Hugh Bonneville, Laura Carmichael, Jim Carter, Brendan Coyle, Michelle Dockery, Joanne Froggatt, Robert James-Collier, Phyllis Logan, Elizabeth McGovern, Sophie McShera, Lesley Nicol, Dan Stevens, Maggie Smith, Jessica Brown Findlay, Siobhan Finneran, etc.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 2 episódios de 1h5min (65min) e 5 episódios de 47min. (365min ou 6h5min)
  • Classificação: 10 (BRA), PG (BBFC)

EPISÓDIOS

S01E01 (P:)

S01E02 (P:)

★ Pior

S01E03 (P:)

S01E04 (P:Pior)

S01E05 (P:)

S01E06 (P:★Top2)

★Top2

S01E07 (P:★Melhor)

★Melhor

(Crítica sem spoilers, por ser a primeira temporada)

Residentes em uma mansão cujo nome dá título a série, a família do Conde de Grantham (Bonneville) e seus empregados são o principal foco de Downton Abbey (2010-2015). A série retrata a vida desse coletivo de personagens, com seus respectivos conflitos, nesse cenário aristocrático do começo do século XX no Reino Unido.

Tendo em vista esta premissa, não é difícil perceber como o seriado é muito mais focado em personagens e nas suas interações do que, por exemplo, em uma história mais abrangente. O que não é o mesmo que dizer que não há uma história, mas sim que o foco está nas personagens e como elas reagem às diferentes tramas que vão sendo construídas. Nesse aspecto há muito a se elogiar. As personagens são, em grande parte, muito bem desenvolvidas e elaboradas, sempre despertando interesse no espectador, principalmente no que se refere às interações entre elas. Em um programa mais character-based como este, isso é essencial.

Algo que ajuda a dar ainda mais personalidade às personagens são as atuações. Contando com um elenco de atores excepcionais — como Hugh Boneville, Maggie Smith, Jim Carter e Michelle Dockery, entre outros — que apresentam ótimas performances, “Downton Abbey” se beneficia dessas interpretações para tornar cada um dos papéis mais reconhecíveis e únicos, numa pilha gigantesca de personagens que poderia, facilmente, se tornar confusa e difícil de se distinguir.

Um dos temas mais interessantes e recorrentes no decorrer dos episódios é o de conflito de gerações. Com a história se sucedendo durante o início do século XX, as personagens se vêm obrigadas a lidar tanto com novas tecnologias, como a eletricidade e o telefone, quanto com visões de mundo mais modernas — vindas, principalmente, das personagens mais novas. O confronto tradição contra modernidade vem a tona com bastante frequência, provocando impacto nas relações de uma família naturalmente conservadora. Desta forma, se aproveita mais uma maneira de expressar e desenvolver as personagens que, de diferentes modos, reagem e interagem nesse cenário conflituoso.

Outra consequência da ambientação histórica é o excelente design de produção (Donal Woods) e figurino (Susannah Buxton). Isso é uma característica bastante comum para produções de época em geral, porém, se tratando de uma produção televisiva, é bastante impressionante de qualquer forma. E mesmo que Downton que não seja um lugar real, para as tomadas externas, establishing shots e algumas tomadas internas foi utilizado uma casa senhorial de verdade, o Castelo de Highclere, na Inglaterra; demonstrando uma respeitável busca por realismo.

Outro exemplo de certa dedicação ao realismo é a inclusão de acontecimentos históricos na trama em alguns momentos da temporada. No primeiro episódio, por exemplo, o naufrágio do Titanic (1912) é o que dá início a história do episódio (e o que conduz a um dos principais enredos da temporada e da série como um todo).

No navio estavam dois possíveis herdeiros a uma fortuna e à propriedade de Downton: James Crawley e Patrick. Com seus dois herdeiros mais próximos agora mortos, Robert e Cora Crawley (McGovern), Conde e Condessa de Grantham, passam a se preocupar em achar alguém que conheçam, e saibam que possam confiar, para casar com sua filha mais velha, Lady Mary (Dockery), e no futuro herdar os seus bens. Enquanto isso, somos introduzidos ao resto das personagens, como as outras duas irmãs, Lady Edith (Carmichael) e Lady Sybil (Findlay), a avó Lady Violet (Smith), e aos empregados, Sr. Carson (Carter), Sra. Hughes (Logan), O’Brian (Finneran), Thomas (James-Collier), Anna (Frogatt), entre outras.

Uma personagem introduzida nessa premiere (não só para a audiência, também para grande parte dos personagens) é John Bates (Coyle). Contratado como valet, no início ele é menosprezado pelo resto dos criados por ser manco e usar uma bengala. Amigo pessoal do senhorio, Bates é uma das melhores personagens da série e com certeza uma das mais simpáticas e compreensíveis. Além disso, sua história é um pouco cercada de mistério, o que só o torna mais interessante.

Quanto aos diálogos, diria que o roteiro é muito bom, e as atuações e o foco em personagens só ajudam. Quanto, porém, a estrutura e história, existem certas estranhezas. Em alguns episódios acontecem reviravoltas repentinas na história sem aparente razão ou desenvolvimento, chegando às vezes a parecer mais soluções Deus Ex Machina do que propriamente acontecimentos justificáveis (mesmo que estes também existam dentro da temporada).

O que incomoda também é que, dentro de uma conjuntura que já julguei realista, existem certas situações um tanto cartunescas que acabam por retirar um pouco essa realidade, se contrastando do resto. Além das já citadas reviravoltas (que nem sempre são desse jeito), existem duas personagens que são claramente construídas como vilões. Eles até têm seus motivos e seus momentos de humanidade, mas em várias circunstâncias parecem um pouco maus demais sem um motivo compreensível.

Algo que pareceu um problema maior no começo da temporada, mas que do meio pro final deixou de ser algo expressivo é que, pelo menos no começo, as histórias dos empregados pareciam ser muito mais interessantes do que o que acontecia com os senhorios. Porém, a partir de um ponto, as histórias da família passaram a ser cada vez mais envolventes e aquelas incluindo os criados se tornaram ainda mais interligadas com as dos Crawleys, resultando em episódios melhores em sua integridade.

Hierarquias estão presentes em várias das relações da série: entre os patrões e trabalhadores, entre os próprios aristocratas, os empregados entre si, entre homens e mulheres, etc. O seriado (pelo menos nessa temporada) não faz algo que se poderia chamar de “crítica”, explicitamente pelo menos, a esses tipos de relação social. No entanto, alguns pequenos enredos e relações (que seriam mais explorados em temporadas posteriores) expõe algumas desigualdades, incluindo aquelas que se encaixam na já citada percepção de tradição x modernidade.

Contando com um grande elenco, bons diálogos, personagens memoráveis e uma produção impressionante, a primeira temporada de “Downton Abbey” é uma boa introdução à série. É mais consistente na qualidade de seus episódios do que nas reviravoltas da história, mas consegue prender o espectador e ser, em geral, uma temporada muito bem executada.