
nota: B+
CRÍTICA: ★★★★ PÚBLICO: ★★★★
- Criação: Ray McKinnon
- Direção: Keith Gordon, Billy Gierhart, Nicole Kassell, Jim McKay, Romeo Tirone e Ray McKinnon (cada um dirigiu um episódio)
- Roteiro: Ray McKinnon (4 eps.), Evan Dunsky (1 ep.), Graham Gordy (2 eps.) e Michael D. Fuller (2 eps.)
- Produção: Don Kurt
- Elenco: Aden Young, Abigail Spencer, J. Smith-Cameron, Adelaide Clemens, Clayne Crawford, Luke Kirby, Bruce McKinnon, Jake Austin Walker, Michael O’Neill, J.D. Evermore, Johnny Ray Gill etc.
- Gênero: Drama
- Duração: 6 episódios de 46min (276min ou 4h36min)
- Classificação: TV-14
Episódios:
| S01E01 – Aways There (P: ★★★★) |
★★★★ ★Top2 |
| S01E02 – Sexual Peeling (P: ★★★★) |
★★★★ Pior |
| S01E03 – Modern Times (P: ★★★★) |
★★★★ |
| S01E04 – Plato’s Cave (P: ★★★★ Pior) |
★★★★ |
| S01E05 – Drip, Drip (P: ★★★★ ★Top2) |
★★★★ |
| S01E06 – Jacob’s Ladder (P: ★★★★ ★Melhor) |
★★★★ ★Melhor |
(Crítica sem spoilers, por ser a primeira temporada)
Após ser condenado pelo estupro e assassinato de uma garota e passar 19 anos no corredor da morte, Daniel Holden (Young) é solto por causa de uma nova análise de DNA. Durante o tempo que passou encarcerado, tinha pouco contato humano (e o que tinha era normalmente hostil), vivia numa cela minúscula e praticamente sem comunicação com o mundo exterior. Então, após passar quase duas décadas de sua vida nessa situação, ele é solto. Lá fora, o mundo mudou e sua família também, todos agora o conhecem e o julgam culpado ou inocente, ele passa a ter diversos traumas, dificuldades de interação e ainda arrisca sofrer uma nova sentença. Enfim, ele foi retirado da sociedade e, de repente, jogado de volta nela.
Um dos temas mais recorrentes da primeira temporada de “Rectify” (2013-2016) é o da desconexão, e, ainda mais, da dificuldade de religação, de Daniel com essa nova realidade e com esse mundo, abandonado há tanto tempo. Quando foi preso, ele era um jovem nos anos 1990, agora, ele é um adulto nos anos 2010; esse choque de realidades (praticamente uma viagem no tempo) é bem explorado na série, mostrando Daniel como alguém perdido, distanciado de todos, com dificuldade de mostrar ou reagir a afeto e a outras emoções, um morto-vivo.
Durante sua ausência, seu pai veio a falecer. Sua mãe (Smith-Cameron) acabou casando novamente e, com esse casamento, ganhou dois enteados: Ted Jr. (Crawford) e Jared (Walker). Pelo que a temporada mostra, nenhum desses familiares batalhou muito para provar sua inocência, deixando isso, em grande parte, a cargo de sua irmã, Amantha (Spencer), e de seu advogado, Jon Stern (Kirby). Amantha é uma das únicas pessoas que conseguem se relacionar mais proximamente com Daniel após a sua soltura. O resto da família, em sua maioria, apesar de ficar feliz em vê-lo livre novamente, sempre age com um certo constrangimento, que demonstra uma distância entre eles. A única exceção à alegria, dentro do núcleo familiar, é Ted Jr. que fica, de início, indiferente e com certas ressalvas.
Já ressalvas são o mínimo que outras pessoas têm quanto à soltura de Holden. Em especial, Roland Foulkes (O’Neill), um senador, e Carl Daggett (Evermore), um xerife local, estão convencidos de que ele é culpado e se comprometem a achar maneiras de, finalmente, condená-lo à cadeira elétrica. O principal argumento usado por eles é que Daniel, de fato, fez uma confissão — segundo os parentes, forçada — , que foi o que resultou na primeira condenação.
O primeiro episódio, mesmo que com alguns problemas, consegue se consolidar como um dos melhores da temporada. O que se destaca nele é, principalmente, a maneira como ele introduz a premissa básica da história, as suas personagens e as relações e conflitos entre os diferentes grupos de personagens (e faz isso logo nos primeiros minutos). O capítulo falha, porém, em apresentar certas informações de maneira natural. Em uma cena, por exemplo, o senador e o xerife, depois da soltura, discutem o caso da condenação, trazendo vários fatos a mesa por meio de diálogos expositivos escritos de maneira nada natural, especialmente se comparados aos diálogos do resto da première e da temporada como um todo.
Mas o que realmente move a história para frente são aquelas relações, introduzidas neste episódio, entre os grupos de personagens e entre eles e Daniel: enquanto a irmã e o advogado lutam para manter o irmão e cliente livre, os seus acusadores tentam incriminá-lo; Amantha não mantém as melhores relações com o resto da família pela falta de envolvimento deles com o caso; Ted Jr. quer evitar se envolver com o meio-irmão recém liberto; e por aí vai. E no meio desses conflitos e relações, está Daniel, nada acostumado com o mundo fora das grades.
Quanto ao protagonista, aliás, algo que adiciona à, já complexa, personagem de Holden é a excelente atuação de Aden Young. Além dele se destacar entre o ótimo elenco, ele também ajuda a consolidar uma outra camada à sua personagem que torna a história inteira mil vezes mais interessante e complexa: a ambiguidade.
Acontece que, mesmo que a série foque, principalmente, nessa personagem e em algumas que o consideram inocente (como sua irmã), nunca nos é mostrado, explicitamente, se Daniel é culpado ou não. Com a audiência deixada às cegas desse jeito, se cria um espaço para ambiguidade em praticamente toda cena, e tanto os roteiristas quanto Young se aproveitam incrivelmente disso. O tempo que ele passou acorrentado na “caverna de Platão” (como a própria série compara o tempo dele preso), também é usado para, além de desenvolver o protagonista, trabalhar esta constante dúvida: ele matou ou não?
Assim sendo, várias das atitudes, falas e comportamentos estranhos que Daniel Holden tem durante o decorrer dos episódios, além poderem normalmente ser justificados por sua falta de costume no mundo fora de sua cela, também podem ser motivados por algum tipo de loucura ou psicopatia, talvez anterior a sua prisão. Com essa mentalidade, o espectador acaba criando também alguma empatia com aqueles que o acusam ou se sentem, como seu meio-irmão, intimidados por ele. Daniel não reage ou mostra muitas emoções, vive falando e fazendo coisas estranhas e foi condenado por estupro e assassinato; essa perspectiva faz com que aqueles que, em outras circunstâncias, seriam considerados “vilões”, se tornem muito mais humanos e realistas.
Ao mesmo tempo, Daniel também é desenvolvido de modo bastante humano, especialmente na maneira como se contrasta, por meio de ocasionais flashbacks, o tempo dele dentro e fora do cárcere. Nessas memórias, é revelado que Daniel fez um amigo no corredor da morte, Kerwin Whitman (Gill), o preso da cela ao lado. Sem revelar muito, os dois mantém essa amizade apenas conversando pelos buracos de ventilação da cela, criando alguns dos momentos de maior simpatia da audiência com a personagem principal. Além disso, é claro, ele passou 19 anos naquele local e pode ter sido incriminado injustamente. Essa possibilidade, aliada aos momentos de simpatia e a uma determinada interpretação de suas atitudes, também torna justificável a crença em sua inocência.
De qualquer forma, a performance de Young, o roteiro e a direção conseguem passar essas duas conflitantes e concomitantes narrativas de maneira brilhante.
Bem escrita e atuada, brilhantemente ambígua e constantemente boa, a primeira temporada de “Rectify” é um sucesso. Os problemas que tem (como a exposição do primeiro episódio) são bem pontuais e, por isso, não poderiam ser discutidos em um texto sem spoilers. No geral, é um drama bem trabalhado, com personagens e relações bem construídas e desenvolvidas, resultando em um punhado de momentos impactantes e recheados de dubiedade emocional que só beneficiam esse bom início de série.

