
Foto: Alile Dara Onawale, divulgação
nota: A-
CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★★
- Direção: Walter Salles
- Roteiro: Murilo Hauser e Heitor Lorega (baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva)
- Produção: Maria Carlota Bruno, Martine de Clermont-Tonnerre e Rodrigo Teixeira
- Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Valentina Herszage, Maria Manoella, Barbara Luz, Gabriela Carneiro da Cunha, Luiza Kosovski, Marjorie Estiano, Guilherme Silveira, Antonio Saboia, Cora Mora, Olivia Torres, etc.
- Gênero: Drama, história, biografia
- Duração: 136 min (2h16)
- Classificação: 14 (BRA)
Muito bom
“é um filme que consegue recriar toda uma época, remontando o retrato de um Brasil contraditório e brutal, mas que foi real e que permanece registrado na memória de alguns e nas chagas não cicatrizadas deste país”
É triste que o Brasil não tenha cicatrizado das suas chagas, mesmo depois de quase 40 anos desde o fim da ditadura. E é também triste que depois de todos esses anos, algumas pessoas já tenham se esquecido do foi aquele período — se é que um dia já souberam. Isso a ponto de se mostrarem dispostas a defender aquele regime sanguinário, odioso e nojento. A ponto também de quererem boicotar um filme pelo simples fato dele retratar aquele momento histórico, em todas as suas cores. E a ponto de representarem, pela própria atitude negacionista e imatura, a importância que um filme como esse tem para o país. Pois essa história específica pode ser a de uma única mulher, e de sua família, mas ela representa a voz de centenas de famílias desfeitas, e de várias “Eunices”, vários “Rubens”: presos, torturados, mortos pelos militares. É um filme para não esquecermos. Nunca.
Uma das cenas de “Ainda estou aqui” (dir. Walter Salles, 2024) que é muito simbólica nesse sentido é justamente a cena final do longa. Ela mostra Eunice Paiva, já idosa e em uma cadeira de rodas — e interpretada pela grande Fernanda Montenegro. Cercada de filhos, netos e bisnetos, Eunice assiste a televisão, que mostra uma reportagem sobre a ditadura militar. A matéria mostra alguns dos mortos e desaparecidos durante o regime e, entre os nomes, está o de seu marido, o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva (Mello). Uma narração na TV ressalta que o seu corpo, como o de muitos outros desaparecidos durante aquele período, nunca foi encontrado. Para mim, isso mostra um dos capítulos mais dolorosos da ditadura que nunca foi completamente fechado. Uma chaga que continua aberta até hoje. Num país sem memória que nem chegou a enterrar os seus mortos.
E o que torna essa cena ainda mais impactante é como esse final contrasta com o início do filme, e com a nossa introdução à pessoa de Eunice, interpretada por Fernanda Torres na maior parte do longa. A cena inicial a mostra nadando no mar, entrecortada por tomadas de um helicóptero militar que passa por cima da praia. A princípio, essa escolha pode não chamar muita atenção, até que a reportagem final nos lembra de como os carrascos da ditadura se livravam dos corpos de muitos presos políticos: os jogando no mar de helicóptero. Essa cena serve, portanto, como uma espécie de prenúncio daquilo que está por vir, e como um símbolo da barbaridade da ditadura — que transformava um lugar de diversão em família em uma grande vala comum para os inimigos do regime.
E essa é apenas uma das cenas que prenunciam a intromissão dos militares na vida da família Paiva. Durante a parte inicial do filme, acompanhamos a vida dessa família, e vamos conhecendo e nos apegando a cada uma dessas personagens. Conseguimos, no primeiro quarto de filme, conhecer as pequenas diversões e tranquilidades da vida que essa família levava, indo à praia, jogando bola na rua, ouvindo música na vitrola, fazendo festas, adotando um cachorrinho. Mas, de vez em quando, o filme faz questão de nos lembrar do regime ditatorial que ainda reinava lá fora. Seja com reportagens sobre a resistência na televisão, seja com os carros do exército passando pela rua, seja com uma parada mais violenta em uma blitz, somos sempre lembrados de que a ditadura está sempre presente, sempre a espreita.
Esse ponto é um dos grandes acertos do filme. A construção das personagens, além de toda a ambientação, ajudam muito a nos inserir nesse cenário, e faz com que essa história realmente funcione. A partir do momento que conhecemos essa família, suas dinâmicas, cada um de seus membros, passamos a nos identificar com eles, a sorrir e a sofrer com eles. Uma das personagens que mostra isso muito bem é o próprio Rubens Paiva, encarnado de forma tão calorosa e identificável por Selton Mello. Mesmo que ele tenha uma presença relativamente breve no filme, a sua personagem é apresentada e desenvolvida tão bem logo nessa primeira parte que, quando agentes a paisana entram na sua casa e o levam embora para “prestar depoimento”, ficamos preocupados e sentimos a sua falta junto com o resto da família, e também ficamos nos perguntando se ele um dia voltará — mesmo que, no fundo, já saibamos a resposta.
A partir desse ponto na história, Eunice se torna ainda mais uma âncora dentro dessa estrutura familiar, tanto para aqueles cinco filhos, quanto para a audiência. É pelos olhos dela que vemos essa história e os desafios enfrentados por aquela família. E é nela também que a família depende para seu sustento, sua proteção e a sua informação. Essa é a história de uma mãe que se vê tendo que cuidar sozinha daquela situação, nem sempre sabendo o que fazer e nem o que dizer aos seus filhos, tendo ainda que lidar com um estado policial que roubou o seu marido. E, para piorar as coisas, ela acaba também sendo levada, e presa por 12 dias em um quartel, junto com sua filha mais velha, de apenas 15 anos. E felizmente toda a responsabilidade de encarnar essa personagem caiu no colo de Fernanda Torres, que entrega uma performance excepcional, que mescla toda a força e vulnerabilidade que esse papel exige. Se a apresentação e construção dessa família e dessas personagens ajudam e muito a nos envolvermos na história, as atuações, de todo o elenco, trazem uma humanidade a mais para essas pessoas, e fazem com que elas se tornem ainda mais realistas e credíveis. E, nesse sentido, Fernanda Torres se destaca individualmente, mas também dentro de um elenco já muito forte, funcionando como a peça central do roteiro, sob a qual todas as outras dependem.
Além disso, devo comentar sobre a excelente ambientação de “Ainda estou aqui”. Todos os cenários, os figurinos, as maquiagens, o desenho de produção, as músicas e até a fotografia, tudo é feito e pensado para invocar o Rio de Janeiro dos anos 1970. E penso que isso é importante, para além de mero preciosismo, porque o filme faz um excelente trabalho não só em trazer a audiência para dentro daquela família, compreendendo e se envolvendo com aquelas personagens, mas também nos coloca dentro daquele momento histórico, inclusive visualmente. Para bem e para mal, somos colocados em todo aquele contexto, em que uma família de classe média podia até ter certo conforto material, com a televisão, música e carros dos anos 70, mas que ainda estava, o tempo inteiro, sujeita a um estado de exceção brutal, sem nem oportunidade de defesa. E, voltando ao mundo de hoje, um filme que mostra essa contradição dos “anos de chumbo” no Brasil é importante, principalmente num momento em que não faltam pessoas para falar que “naquela época que era bom”.
O único problema que tenho com este filme está relacionado com o seu ritmo, e como este é afetado por dois epílogos: um primeiro passado nos anos 1990, quando Eunice finalmente consegue uma certidão de óbito para seu marido, e o segundo, já citado, que se passa nos anos 2010 e mostra Eunice já mais velha. Para mim, mesmo que esses dois momentos sirvam certas funções na narrativa, fechando certos arcos na história, e tenham aspectos interessantes (como o simbolismo com o início do filme que mencionei), acabam sendo curtos demais e parecem um pouco deslocados do resto do filme. Dessa forma, mesmo que eles sejam, individualmente, bons momentos, eles parecem interromper todo o ritmo que o longa estava construído até então e, pelo menos para mim, não se encaixaram muito bem.
Ainda assim, “Ainda Estou Aqui” é um excelente filme. Como é bom ver uma obra brasileira tão bem produzida, dirigida, atuada. É um filme que consegue nos conectar com a sua história e personagens de tal forma que realmente passamos a nos preocupar com eles, com a sua segurança nesse cenário, e a sentir a sua falta se eles vão embora. Ao mesmo tempo, é um filme que consegue recriar toda uma época, remontando o retrato de um Brasil contraditório e brutal, mas que foi real e que permanece registrado na memória de alguns, e nas chagas não cicatrizadas deste país. Assim, este também é um filme que serve como lembrança importante das barbáries cometidas pela ditadura no Brasil, e como elas não vitimavam apenas ‘vagabundos’, como alguns insistem de acreditar. E, para completar tudo isso, é um filme com atuações espetaculares, especialmente por Selton Mello e Fernanda Torres, que ajudam toda essa obra a funcionar, servindo de base para o roteiro e para todo o resto do elenco. Simplesmente, muito bom.
Ditadura nunca mais.













