“Ainda estou aqui” (2024) é um retrato das chagas abertas do Brasil

Foto: Alile Dara Onawale, divulgação

nota: A-

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★
  • Direção: Walter Salles
  • Roteiro: Murilo Hauser e Heitor Lorega (baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva)
  • Produção: Maria Carlota Bruno, Martine de Clermont-Tonnerre e Rodrigo Teixeira
  • Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Valentina Herszage, Maria Manoella, Barbara Luz, Gabriela Carneiro da Cunha, Luiza Kosovski, Marjorie Estiano, Guilherme Silveira, Antonio Saboia, Cora Mora, Olivia Torres, etc.
  • Gênero: Drama, história, biografia
  • Duração: 136 min (2h16)
  • Classificação: 14 (BRA)

Muito bom

“é um filme que consegue recriar toda uma época, remontando o retrato de um Brasil contraditório e brutal, mas que foi real e que permanece registrado na memória de alguns e nas chagas não cicatrizadas deste país”

É triste que o Brasil não tenha cicatrizado das suas chagas, mesmo depois de quase 40 anos desde o fim da ditadura. E é também triste que depois de todos esses anos, algumas pessoas já tenham se esquecido do foi aquele período — se é que um dia já souberam. Isso a ponto de se mostrarem dispostas a defender aquele regime sanguinário, odioso e nojento. A ponto também de quererem boicotar um filme pelo simples fato dele retratar aquele momento histórico, em todas as suas cores. E a ponto de representarem, pela própria atitude negacionista e imatura, a importância que um filme como esse tem para o país. Pois essa história específica pode ser a de uma única mulher, e de sua família, mas ela representa a voz de centenas de famílias desfeitas, e de várias “Eunices”, vários “Rubens”: presos, torturados, mortos pelos militares. É um filme para não esquecermos. Nunca.

Uma das cenas de “Ainda estou aqui” (dir. Walter Salles, 2024) que é muito simbólica nesse sentido é justamente a cena final do longa. Ela mostra Eunice Paiva, já idosa e em uma cadeira de rodas — e interpretada pela grande Fernanda Montenegro. Cercada de filhos, netos e bisnetos, Eunice assiste a televisão, que mostra uma reportagem sobre a ditadura militar. A matéria mostra alguns dos mortos e desaparecidos durante o regime e, entre os nomes, está o de seu marido, o engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva (Mello). Uma narração na TV ressalta que o seu corpo, como o de muitos outros desaparecidos durante aquele período, nunca foi encontrado. Para mim, isso mostra um dos capítulos mais dolorosos da ditadura que nunca foi completamente fechado. Uma chaga que continua aberta até hoje. Num país sem memória que nem chegou a enterrar os seus mortos.

E o que torna essa cena ainda mais impactante é como esse final contrasta com o início do filme, e com a nossa introdução à pessoa de Eunice, interpretada por Fernanda Torres na maior parte do longa. A cena inicial a mostra nadando no mar, entrecortada por tomadas de um helicóptero militar que passa por cima da praia. A princípio, essa escolha pode não chamar muita atenção, até que a reportagem final nos lembra de como os carrascos da ditadura se livravam dos corpos de muitos presos políticos: os jogando no mar de helicóptero. Essa cena serve, portanto, como uma espécie de prenúncio daquilo que está por vir, e como um símbolo da barbaridade da ditadura — que transformava um lugar de diversão em família em uma grande vala comum para os inimigos do regime.

E essa é apenas uma das cenas que prenunciam a intromissão dos militares na vida da família Paiva. Durante a parte inicial do filme, acompanhamos a vida dessa família, e vamos conhecendo e nos apegando a cada uma dessas personagens. Conseguimos, no primeiro quarto de filme, conhecer as pequenas diversões e tranquilidades da vida que essa família levava, indo à praia, jogando bola na rua, ouvindo música na vitrola, fazendo festas, adotando um cachorrinho. Mas, de vez em quando, o filme faz questão de nos lembrar do regime ditatorial que ainda reinava lá fora. Seja com reportagens sobre a resistência na televisão, seja com os carros do exército passando pela rua, seja com uma parada mais violenta em uma blitz, somos sempre lembrados de que a ditadura está sempre presente, sempre a espreita.

Esse ponto é um dos grandes acertos do filme. A construção das personagens, além de toda a ambientação, ajudam muito a nos inserir nesse cenário, e faz com que essa história realmente funcione. A partir do momento que conhecemos essa família, suas dinâmicas, cada um de seus membros, passamos a nos identificar com eles, a sorrir e a sofrer com eles. Uma das personagens que mostra isso muito bem é o próprio Rubens Paiva, encarnado de forma tão calorosa e identificável por Selton Mello. Mesmo que ele tenha uma presença relativamente breve no filme, a sua personagem é apresentada e desenvolvida tão bem logo nessa primeira parte que, quando agentes a paisana entram na sua casa e o levam embora para “prestar depoimento”, ficamos preocupados e sentimos a sua falta junto com o resto da família, e também ficamos nos perguntando se ele um dia voltará — mesmo que, no fundo, já saibamos a resposta.

A partir desse ponto na história, Eunice se torna ainda mais uma âncora dentro dessa estrutura familiar, tanto para aqueles cinco filhos, quanto para a audiência. É pelos olhos dela que vemos essa história e os desafios enfrentados por aquela família. E é nela também que a família depende para seu sustento, sua proteção e a sua informação. Essa é a história de uma mãe que se vê tendo que cuidar sozinha daquela situação, nem sempre sabendo o que fazer e nem o que dizer aos seus filhos, tendo ainda que lidar com um estado policial que roubou o seu marido. E, para piorar as coisas, ela acaba também sendo levada, e presa por 12 dias em um quartel, junto com sua filha mais velha, de apenas 15 anos. E felizmente toda a responsabilidade de encarnar essa personagem caiu no colo de Fernanda Torres, que entrega uma performance excepcional, que mescla toda a força e vulnerabilidade que esse papel exige. Se a apresentação e construção dessa família e dessas personagens ajudam e muito a nos envolvermos na história, as atuações, de todo o elenco, trazem uma humanidade a mais para essas pessoas, e fazem com que elas se tornem ainda mais realistas e credíveis. E, nesse sentido, Fernanda Torres se destaca individualmente, mas também dentro de um elenco já muito forte, funcionando como a peça central do roteiro, sob a qual todas as outras dependem.

Além disso, devo comentar sobre a excelente ambientação de “Ainda estou aqui”. Todos os cenários, os figurinos, as maquiagens, o desenho de produção, as músicas e até a fotografia, tudo é feito e pensado para invocar o Rio de Janeiro dos anos 1970. E penso que isso é importante, para além de mero preciosismo, porque o filme faz um excelente trabalho não só em trazer a audiência para dentro daquela família, compreendendo e se envolvendo com aquelas personagens, mas também nos coloca dentro daquele momento histórico, inclusive visualmente. Para bem e para mal, somos colocados em todo aquele contexto, em que uma família de classe média podia até ter certo conforto material, com a televisão, música e carros dos anos 70, mas que ainda estava, o tempo inteiro, sujeita a um estado de exceção brutal, sem nem oportunidade de defesa. E, voltando ao mundo de hoje, um filme que mostra essa contradição dos “anos de chumbo” no Brasil é importante, principalmente num momento em que não faltam pessoas para falar que “naquela época que era bom”.

O único problema que tenho com este filme está relacionado com o seu ritmo, e como este é afetado por dois epílogos: um primeiro passado nos anos 1990, quando Eunice finalmente consegue uma certidão de óbito para seu marido, e o segundo, já citado, que se passa nos anos 2010 e mostra Eunice já mais velha. Para mim, mesmo que esses dois momentos sirvam certas funções na narrativa, fechando certos arcos na história, e tenham aspectos interessantes (como o simbolismo com o início do filme que mencionei), acabam sendo curtos demais e parecem um pouco deslocados do resto do filme. Dessa forma, mesmo que eles sejam, individualmente, bons momentos, eles parecem interromper todo o ritmo que o longa estava construído até então e, pelo menos para mim, não se encaixaram muito bem.

Ainda assim, “Ainda Estou Aqui” é um excelente filme. Como é bom ver uma obra brasileira tão bem produzida, dirigida, atuada. É um filme que consegue nos conectar com a sua história e personagens de tal forma que realmente passamos a nos preocupar com eles, com a sua segurança nesse cenário, e a sentir a sua falta se eles vão embora. Ao mesmo tempo, é um filme que consegue recriar toda uma época, remontando o retrato de um Brasil contraditório e brutal, mas que foi real e que permanece registrado na memória de alguns, e nas chagas não cicatrizadas deste país. Assim, este também é um filme que serve como lembrança importante das barbáries cometidas pela ditadura no Brasil, e como elas não vitimavam apenas ‘vagabundos’, como alguns insistem de acreditar. E, para completar tudo isso, é um filme com atuações espetaculares, especialmente por Selton Mello e Fernanda Torres, que ajudam toda essa obra a funcionar, servindo de base para o roteiro e para todo o resto do elenco. Simplesmente, muito bom.

Ditadura nunca mais.

“Moana 2” (2024) é lindo, mas não vai além disso

Reprodução: IMDb

nota: B

  • Direção: David G. Derrick Jr.
  • Roteiro: Jared Bush e Dana Ledoux Miller (história por Jared Bush, Dana Ledoux Miller e Bek Smith)
  • Produção: Christina Chen e Yvett Merino
  • Elenco: Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson, Alan Tudyk, Nicole Scherzinger, Temuera Morrison, Rachel House, Rose Matafeo, Khaleesi Lambert-Tsuda, Hualalai Chung, Awhimai Fraser, David Fane, Gerald Ramsey, etc.
  • Gênero: Animação, aventura, comédia, família, fantasia, musical
  • Duração: 100 min (1h40)
  • Classificação: PG (MPA)

O.K.

“uma das críticas que tenho a esse roteiro é que tudo, desde as personagens até o clímax do filme, me pareceram mais promessas de um mais por vir’, do que propriamente pessoas ou eventos que entreguem de verdade algo a mais para a narrativa — e para o público”

“Moana 2” (dir. David G. Derrick Jr., 2024) se passa alguns anos depois dos eventos do primeiro filme, lançado em 2016. Os habitantes da ilha de Motunui, depois de terem se isolado por várias gerações, impedindo que qualquer um se aventurasse fora dos limites do recife, finalmente voltam a seguir o caminho de seus ancestrais, e passam a desbravar os mares ao seu redor. Sob a liderança de Moana (Cravalho), agora uma experiente navegadora, eles realizam expedições de barco para fora da ilha, buscando entrar em contato com os outros povos do oceano.

Mas todas as ilhas que eles descobrem parecem estar desertas, sem um ser humano sequer a vista. Um dia, porém, Moana tem uma visão, e um de seus antepassados mostra a ela uma ilha mítica, chamada Montufetu, que um dia já conectou todos os povos do oceano, mas que foi amaldiçoada por um dos seus deuses. Sabendo apenas a direção em que está essa ilha, Moana junta um pequeno grupo de aventureiros e parte em busca de Montufetu, na esperança de que encontrá-la poderá reconectar Montunui às outras ilhas habitadas da região, acabando de vez com a maldição, e também com o isolamento do seu povo.

A maior qualidade deste filme, até mesmo sobre o seu antecessor, é a sua animação. Mais que isso, é todo o seu aspecto técnico. De novo e de novo, a Disney mostra que consegue se superar em criar mundos e cenários extraordinários, e este filme não é uma exceção nesse quesito. Do primeiro ao último minuto, este filme é visualmente espetacular, mais ainda do que o primeiro. As (várias) tomadas do mar, das ilhas, da vegetação, o próprio desenho e texturas das personagens em cena, tudo é feito com um primor visual que salta aos olhos. Igualmente destaco a mixagem de som, os efeitos sonoros, e, é claro, as músicas. Este filme pode até não ter músicas tão memoráveis quanto “How Far I’ll Go”, ou a cativante “You’re Welcome”, mas ainda assim as canções originais são sim muito, muito boas. Destaque vai para a nova canção solo de Moana, chamada “Beyond”.

Mas isso tudo é o óbvio, e já era o esperado de um filme da Disney. O que eu não esperava, infelizmente, é que o filme cometesse o mesmo erro de “Frozen II” (dir. Chris Buck e Jennifer Lee, 2019), dando mais atenção ao espetáculo visual, do que ao seu roteiro ou à sua história. Não me entendam mal, a história, a princípio, é boa, e a premissa parece uma continuação natural dos acontecimentos do primeiro filme, além de trazer uma grande oportunidade de se explorar mais esse mundo e as suas mitologias. Porém, esse potencial acaba não sendo muito bem explorado, e, com a exceção da própria Moana, as personagens igualmente não são exploradas de forma satisfatória.

Pode-se citar, por exemplo, o grupo que acompanha Moana na sua viagem. Esse grupo é composto por um jovem que é obcecado pelo Maui, uma engenheira hiperativa, que quer a todo momento reformar o barco que eles navegam, e um senhor camponês rabugento. E pode parecer que estou sendo reducionista, descrevendo essas personagens assim, mas o próprio filme não faz um bom trabalho em desenvolvê-las muito além disso. No máximo, eles chegam a cumprir certos papéis pontuais na história, e completam alguns pequenos arcos, como o senhor perdendo o seu medo de navegar, ou a moça fazendo um ajuste significativo no barco. Fora disso, não chegamos a saber quase nada sobre eles. E isso também se aplica a outras personagens secundárias, que são introduzidas brevemente no filme, para serem rapidamente descartadas, ou usadas para algumas poucas cenas mais importantes.

Em alguns momentos, principalmente no ato final, tive a impressão de que este é apenas um filme “de transição”: cuja única função parece ser preparar o terreno para um terceiro filme (praticamente confirmado pelo final e por uma cena pós-crédito). E isso é relevante, porque uma das críticas que tenho a esse roteiro é que tudo, desde as personagens até o clímax do filme, me pareceram mais promessas de um “mais por vir”, do que propriamente pessoas ou eventos que entreguem de verdade algo a mais para a narrativa — e para o público. O vilão é um bom exemplo disso. Não entrando muito em spoilers, o deus que amaldiçoou Montufetu é um vilão decepcionante, principalmente porque a participação dele no clímax parece curta demais (e sua resolução mais ainda). O resultado disso é que a “batalha final” mais parece um encontro inicial, uma mera introdução ao vilão, e não um último e determinante enfrentamento.

E isso se dá por uma razão simples: esse é realmente um encontro inicial. Se você quiser ver uma luta final de verdade, você terá de comprar um ingresso daqui a alguns anos, quando lançar o próximo filme. Ou seja, até naquilo que o filme entrega, essa entrega aparece disfarçada de uma promessa de “mais por vir”.

Me parece que os roteiristas tinham um “Moana 3” em mente, mas para que isso se concretizasse, eles tinham que introduzir certas personagens, estabelecer certas histórias, e criar todo um pano de fundo para que a história do 3 pudesse funcionar. E, nesse quesito específico, o filme cumpre o seu papel. O problema é que a história e as personagens deste filme aqui parecem ser prejudicadas no processo. O longa continua lindo, avassalador, tanto visual quanto sonoramente, e o arco da Moana (spoilers) se destaca como de longe o mais interessante de todo o filme. Mas, para mim, nada disso compensa a falta de outras personagens interessantes, seu vilão e clímax fracos, e principalmente o seu roteiro, que parece mais preocupado em prometer grandes coisas para o futuro, do que apresentar qualquer coisa no presente.

“Wicked” (2024) é um espetáculo de imagem e som

Reprodução: Rotten Tomatoes

nota: A-

  • Direção: Jon M. Chu
  • Roteiro: Winnie Holzman e Dana Fox (baseado no musical de Winnie Holzman, que foi baseado no livro de Gregory Maguire, que é baseado em “O Maravilhoso Mágico de Oz”, de L. Frank Baum)
  • Produção: Marc Platt e David Stone
  • Elenco: Cynthia Erivo, Ariana Grande, Jonathan Bailey, Marissa Bode, Ethan Slater, Michelle Yeoh, Jeff Goldblum, Andy Nyman, etc.
  • Gênero: Musical, Fantasia, Romance
  • Duração: 160 min (2h40)
  • Classificação: 10 (BRA), PG (MPA)

Muito bom

“Várias vezes durante a projeção, senti que o filme foi feito, claramente, com muito amor e admiração pelo musical original. Os roteiristas, atores e diretor parecem todos terem entendido essas personagens, as suas relações, suas motivações, emoções, e colocado isso de forma explícita em tela”

Serei sincero aqui: não tinha muita expectativa quanto a este filme, e os trailers e imagens da produção igualmente não me impressionaram. Além disso, depois do desastre cinematográfico chamado “Cats” (dir. Tom Hooper, 2019), a ideia de mais uma adaptação de um clássico da Broadway para o cinema, feito com grandes efeitos e com a participação de celebridades, não me trazia nada além de receio.

Quero deixar isso claro porque, sem dúvida alguma, “Wicked” (dir. Jon M. Chu, 2024) não apenas me surpreendeu, superando toda e qualquer expectativa que eu tinha, mas também se mostrou como uma adaptação sensacional, competente, que respeita o seu público e o seu material de base, e que traz para as telas uma experiência que só posso descrever como espetacular. Sempre considero um bom sinal quando uma produção consegue mexer com as minhas emoções, e “Wicked” foi um daqueles filmes que me deixou com um sorriso no rosto durante toda a sua projeção. Aliás, a duração de mais de 2 horas inicialmente pode assustar, mas fico feliz em dizer que essas horas passam muito, muito rápido. É um filme tão divertido que nem se vê o tempo passar.

A história gira em torno de Elphaba Throp (Erivo), mais conhecida como a “Bruxa Má do Oeste” do Mágico de Oz. Tendo nascido “estranhamente verde” e com poderes especiais, a menina sofre com a rejeição de seu pai (Nyman), e com o preconceito de todos a sua volta. Porém, quando a menina vai acompanhar a sua irmã Nessarose (M. Bode) na famosa escola de magia Shiz, uma das professoras (Yeoh) reconhece as suas habilidades mágicas, e decide também matriculá-la na instituição. Lá, ela conhece uma menina loira, rica e popular chamada Glinda Galinda (A. Grande), a futura “Bruxa boa do sul”, e elas imediatamente se odeiam. O filme então acompanha a jornada de Elphaba, enquanto ela descobre alguns dos segredos daquele lugar, tem embates e reconciliações com Galinda, e ainda tenta superar os preconceitos, que caem sobre ela e também sobre os animais falantes no reino de Oz.

Primeiro, o óbvio: as músicas são espetaculares. Mesmo não contendo nenhuma canção nova no filme em si, que conta apenas com versões retrabalhadas das músicas da peça, essas canções ganham toda uma vida nova, com novas interpretações cantadas por gente muito, muito talentosa. As versões de “Popular“, “Dancing Through Life“, “The Wizard and I” e, é claro, “Defying Gravity” são incríveis, só para citar algumas. Cynthia Erivo, além de cantar absurdamente bem, traz muita personalidade para sua personagem, e é apenas uma das grandes atuações do filme.

O outro destaque vai, surpreendentemente, para Ariana Grande como Glinda. Superando todos os preconceitos que se poderia ter com a escolha de uma cantora pop para o papel, ela consegue se encaixar perfeitamente nessa personagem. É uma performance claramente inspirada na original de Kristin Chenoweth, mas que tem toda uma inventividade própria, que também traz muita personalidade para o papel, além de um timing cômico excelente. E, nem é preciso dizer, Ariana Grande também brilha durante as canções, com uma voz e performance absolutamente invejáveis. Ela é tão boa no filme que chega a ofuscar um pouco as outras atuações. Além disso, ela já chegou a dizer em entrevistas que tinha o sonho de interpretar Glinda. Fico feliz que ela realizou esse sonho, e nos deu uma versão tão maravilhosa dessa personagem.

Maravilhosas também são as coreografias. O filme todo brilha com uma energia contagiante, que te faz ter vontade de também se levantar, no meio do cinema, e começar a dançar e cantar junto com as personagens. As danças são tão bem executadas, e combinadas com cenários e um design de produção impecáveis, que alguns dos números chegaram a me deixar boquiaberto. Seja nos cenários girantes de “Dancing Through Life“, ou na bela e impressionante cidade de Esmeralda em “One Short Day“, o filme consegue ser um absoluto espetáculo musical e cenográfico. Mesmo para alguém que diga, pelo motivo que seja, que “não gosta” de musicais, este filme tem algo a se apreciar, nem que seja apenas o vislumbre visual dos seus cenários, dos seus números, das suas danças.

Várias vezes durante a projeção, senti que o filme foi feito, claramente, com muito amor e admiração pelo musical original. Os roteiristas, atores e diretor parecem todos terem entendido essas personagens, as suas relações, suas motivações, emoções, e colocado isso de forma explícita em tela. O resultado é um filme que é bem fiel à versão original da Broadway, fazendo apenas alterações pontuais na sua história. Todos esses fatores, unidos, fazem com que esse não seja apenas um “porte” mal feito do musical para as telas (como “Cats” foi), e sim uma grande e competente adaptação do espetáculo, que também é, por si só, um espetáculo visual e sonoro imperdível.

Qualquer crítica que eu tenha ao filme é, sinceramente, relativa a detalhes pontuais, e que são em muito superadas pelas suas imensas qualidades. Sinto que aqueles que já amam o musical também amarão a esse filme, e aqueles que ainda não conhecem essa história poderão se apaixonar pelas personagens, pelas músicas, pelos visuais, enfim, por esse ensemble maravilhoso chamado “Wicked”.

We are zombies (2023) – Hooptober XI (3/35)

Reprodução: IMDb

Esse filme foi divertido demais. Adoro uma boa comédia de zumbis… desculpa, de “deficientes-vivos”.

Em primeiro lugar, eu gosto muito de todo o conceito de “We are zombies” (dir. François Simard, Anouk Whissell e Yoann-Karl Whissell, 2023). O mundo é infestado pelos mortos-vivos, mas eles são inofensivos. Eles apenas estão lá, não sendo uma ameaça real a ninguém. E, ainda assim, os seres humanos, sendo como são, passam a segregá-los socialmente e abusar deles de vários modos diferentes. A crítica social é um pouco óbvia e rasa? Com certeza, mas ela consegue construir alguns bons momentos cômicos também. Além disso, o longa tem a consciência, a self-awarenes, necessária para não deixar essa crítica muito forçada ou vergonhosa.

A ação e os efeitos visuais também são muito bons. As melhores partes são, claro, as diferentes maneiras como as personagens interagem com os zumbis. E eu gostei que os mortos têm desings e maquiagens muito diferentes entre si, refletindo quem aquelas pessoas eram em vida, e como elas tinham morrido. Devo reconhecer principalmente a criatividade do desing do zumbi “peça de arte” do final do filme, costurado com outros membros e pedaços de corpos. Muito medonho.

Com isso dito, eu não diria que essa comédia está no mesmo patamar de novos clássicos como “Todo mundo quase morto” (dir. Edgar Wright, 2004) ou “Plano-sequência dos mortos” (dir. Shin’ichirō Ueda, 2017). O longa tem certos problemas de ritmo, e as piadas nem sempre são muito boas, além de que o clímax é um pouco curto e anticlimático. Porém, mesmo com esses defeitos, eu estaria mentindo se dissesse que não me diverti e muito com “We are zombies”. E dá para ver que todo o elenco também estava se divertindo fazendo esse filme. Ele é claramente feito por pessoas que adoram filmes de zumbi, e isso resulta em um filme que é igualmente sangrento, divertido e engraçado. E às vezes isso é o melhor que se pode esperar de uma comédia como essa. Nota: B (bom)

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Perversão Assassina (1986) – Hooptober XI (2/35)

Reprodução: IMDb

Nossa, eu não esperava gostar tanto desse filme. A primeira coisa que deve ser citada aqui é o vilão, um sociopata medonho (e alemão) interpretado por Klaus Kinski. Esse parece um papel que ele nasceu para interpretar, é a escolha perfeita para essa personagem. E ele trabalha muito bem no filme. A maneira como ele fala — sempre sussurrando bem calmamente –, e o fato de que ele age como se todas as atrocidades que ele comete fossem normais, mais uma terça-feira, passa muito bem esse sentimento medonho, creepy. Um daqueles vilões tão sádicos que chegam a dar raiva.

Outra coisa que gostaria de destacar aqui é que o filme se passa, quase inteiramente, em uma única locação. Com a exceção de duas cenas, que mostram o lado de fora da janela de uma personagem, o filme inteiro é filmado dentro de um condomínio de apartamentos. Isso ajuda tanto a criar um sentimento de claustrofobia, de que não há escapatória daquele lugar, quanto ajuda a dar ao vilão uma certa onipotência. Ele está de olho em tudo, e em controle de tudo em volta das personagens, até mesmo dos apartamentos.

Com isso dito, “Perversão Assassina” (dir. David Schmoeller, 1986) por vezes pode ser bem tosco, o resto das atuações estão longe de serem impressionantes, e a história tem alguns detalhes que são meio forçados. Mas, de verdade, nada disso me incomodou muito. É um filme de terror slasher tão louco, e tão divertido, que estou disposto a “deixar de lado”, por ora, os momentos toscos e a má atuação. Uma surpresa agradável.

E lembre-se: não confie em proprietários de apartamentos alemães que têm pessoas presas no sótão e são filhos de nazistas. Só um conselho. Nota: B- (o.k.)

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O Ciclone (1978) – Hooptober XI (1/35)

Reprodução: IMDb

De longe, o pior aspecto de “O Ciclone” (dir. René Cardona Jr., 1978) são os seus diálogos. Tanto que as melhores partes do filme são as que não tem nenhuma fala. E, aparentemente, isso não era o bastante — que os diálogos fossem mal escritos — a dublagem tinha que tornar tudo ainda pior. O filme é inteiro dublado por cima (no original), e é um resultado tão horroroso que chega a ser engraçado. Algumas dessas falas são inacreditáveis, e elas são ditas de uma forma que tenta parecer séria, mas fica tão claro que os dubladores estavam lendo que chega a ser impressionante.

Mas o que torna esse filme ainda mais bizarro é que, no meio do caminho, ele se torna um filme de sobrevivência mais ou menos decente. Eu acho que os produtores tinham planejado fazer um longa sobre pessoas sobrevivendo juntas em um barco, e aí se lembraram que eles tinham que inventar uma razão para eles estarem juntos ali. Honestamente, “O Ciclone” parece dois filmes diferentes colados juntos, com a primeira parte sendo um filme de desastre terrível, e a segunda um longa decente sobre sobrevivência extrema. Só que essa virada só parece acontecer depois de um certo ponto, o nascimento do bebê.

Não fosse pela primeira parte, eu provavelmente gostaria mais desse filme, mesmo com a sua dublagem hilária. Minha maior crítica à segunda parte é que, como a primeira não desenvolve as personagens direito, não chegamos a conhecê-las nem a ligar para elas (com exceção do cachorro, claro). Assim, quando algumas delas morrem, ou são devoradas por tubarões (com a trilha sonora mais bizarra possível), eu não dei a mínima. Talvez se eles tivessem feito um melhor trabalho na primeira parte, eu talvez ligasse para algum humano naquele barco, e não apenas para o pobre do cachorro.

E sim, eu também achei que eles fossem comer o bebê. Nota: C- (muito ruim)

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O que é o “Hooptober”? Conheça o desafio de terror do Letterboxd que está na sua 11ª edição

Halloween III (1982), reprodução: IMDb

Desde 2014, um usuário da rede social Letterboxd chamado Cinemonster faz um desafio para a comunidade daquele site, que é dedicado a fãs de cinema. O desafio consiste em assistir, durante o mês de outubro, a 31 filmes de terror. Ou seja, ver um filme por dia, terminando no Halloween — o nosso “dia das bruxas” ou “dia do Saci” –, no dia 31/10.

Porém, não é um desafio sem regras, muito pelo contrário. Todo ano, Cinemonster cria uma lista de regras diferente, às vezes muito específicas, para que cada usuário crie a sua própria lista de filmes para aquele ano. Em 2024, acontece a 11ª edição do desafio e, neste ano, a lista dos participantes deve conter, pelo menos:

  • filmes de 6 países diferentes;
  • filmes de 8 décadas diferentes;
  • todos os filmes de uma franquia de terror com pelo menos 4 filmes;
  • um filme de Wes Craven;
  • um filme em que o conflito é causado/piorado pelo clima;
  • um filme estrelando uma mulher negra;
  • um filme estrelando o ator Donald Sutherland;
  • três filmes produzidos pela New World Pictures;
  • dois filmes indianos;
  • quatro filmes italianos;
  • duas comédias de terror;
  • dois filmes produzidos e/ou filmados no estado americano do Texas;
  • um filme com duas versões (cortes);
  • um filme de Robert Wiene;
  • um filme de Michele Soavi;
  • um filme de 2011;
  • um filme de 1984; e
  • como o nome do desafio sugere, um filme de Tobe Hooper (sempre deve haver um filme de Tobe Hooper).

(Pode haver sobreposição entre as categorias. Por exemplo, na minha lista, “Gremlins”, conta como 1, um filme dos Estados Unidos, 2, da década de 80, 3, uma comédia de terror, e 4, lançado em 1984, cobrindo quatro categorias de uma vez só).

Além disso, para aqueles que quiserem um desafio ainda maior, o criador da lista também sugere três filmes extras: “O Ciclone” (dir. René Cardona Jr., 1978), “Perversão Assassina” (dir. David Schmoeller, 1986) e “We Are Zombies” (dir. François Simard, Anouk Whissell e Yoann-Karl Whissell, 2023).


Esse é o meu primeiro ano participando do desafio, e já montei a minha lista. Ela inclui clássicos que nunca vi, e filmes mais recentes que tenho muita vontade de ver, além de longas quero ver de novo. E é claro que, como bom brasileiro, fiz questão de colocar dois filmes do eterno José Mujica Marins, o Zé do Caixão, na lista: “À Meia-noite levarei a sua alma” (1964) e “Esta noite encarnarei no teu cadáver” (1967).

Assim, durante o mês de outubro, tentarei escrever breves comentários sobre os filmes do desafio, tanto neste site (em português), quanto no meu perfil do Letterboxd (em inglês). Se quiser olhar as listas de outras pessoas, e dar mais uma olhada nas regras, veja a lista do Cinemonster, onde também há links para as listas de outros participantes.

Para quem mais for participar, uma boa sorte! Para os demais, um bom (e sombrio) outubro 🎃.

“O Gabinete do Dr. Caligari” (1920): a ‘tempestade perfeita’ do expressionismo alemão

Reprodução: IMDb

nota: A+

CRÍTICA: ★★★★½ PÚBLICO: ★★★
  • Título original: Das Cabinet des Dr. Caligari
  • Direção: Robert Wiene
  • Roteiro: Carl Mayer e Hans Janowitz
  • Produção: Rudolf Meinert, Erich Pommer
  • Elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich Feher, Lil Dagover, Hans Heinrich von Twardowski, Rudolf Lettinger, etc.
  • Gênero: Terror, mistério, suspense
  • Duração: 76 min (1h16)
  • Classificação: 10 (BRA); 12 (FSK)

Obra-Prima

“Quanto mais pesquiso, quanto mais assisto e re-assisto, e quanto mais tento saber sobre ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, mais me convenço de que este filme não apenas é uma obra-prima, mas também a culminação de uma série de tendências artísticas, históricas, políticas, e mesmo situacionais, que foram todas responsáveis por criar as condições para que um filme como esse, essa ‘tempestade perfeitado terror, do suspense, e da arte alemã, fosse mesmo possível de existir”

Depois da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha se encontrava em frangalhos. Obrigada, pelo Tratado de Versalhes, a pagar os espólios da guerra, o país, e o seu povo, sofria com os abalos da derrota, e com as várias crises e instabilidades da nova República de Weimar. Um setor, porém, que conseguia se manter e se renovar, mesmo nesse cenário caótico e hostil, era o cinema. A indústria cinematográfica alemã do período entre guerras contava com uma centena de estúdios, e prosperava apesar de tudo, trazendo narrativas que se passavam fora das cidades alemães. Fossem na natureza, no passado, ou em mundos fantásticos, os filmes dessa época buscavam escapar do cenário de uma Alemanha urbana devastada pela guerra — o que não impedia que os seus cineastas trouxessem o tema da guerra para as suas obras, como veremos adiante.

Dentro desse contexto, dois escritores chamados Hans Janowitz e Carl Mayer, escreveram um roteiro que iria se tornar um dos grandes clássicos desse período: O Gabinete do Dr. Caligari (dir. Robert Wiene, 1920). O filme gira em torno de um homem chamado Francis (Feher), que conta a história de quando um pitoresco senhor apareceu na sua cidade de Holstenwall. Esse senhor era o Dr. Caligari (Krauss), que passou a se apresentar na feira da cidade, com um caixão (ou gabinete) no qual guardava um sonâmbulo chamado Cesare (Veidt).

Nas suas apresentações, o doutor dizia ao público que Cesare estivera dormindo pelos últimos 23 anos, e podia responder perguntas da audiência, pois ele “conhece todos os segredos, conhece o passado e vê o futuro”. Então Alan (Twardowski), um amigo de Francis, decide perguntar ao sonâmbulo: “quando morrerei?”, e o vidente responde: “não viverás até o amanhecer”. Durante a madrugada, Alan é assassinado. Outras mortes passam então a acontecer na cidade, perpetradas pelo estranho sonâmbulo, na calada da noite, a mando de Caligari. Novamente aqui pecarei pela falta, para não dar spoilers e estragar a experiência, mas basta dizer que o filme vai, durante os seus seis atos, construindo e escalando a sua narrativa até um clímax memorável, que envolve o rapto da bela Jane (Dagover), interesse amoroso do protagonista. Direi também que, ao final, o longa conta com uma reviravolta, hoje famosa e bastante imitada, que muda como o filme todo é interpretado.

Reprodução: IMDb

Muitas interpretações, aliás, já foram feitas sobre essa história, e sobre suas personagens. Os roteiristas do filme, Janowitz e Mayer, foram bastante influenciados por suas experiências durante a guerra, que lhes deixaram descontentes com a autoridade, o que acabou os transformando em árduos defensores do pacifismo. Muitas das interpretações mais consagradas sobre o filme tentam fazer essa conexão entre realidade e ficção, e enxergar os reflexos dos seus criadores na sua narrativa. Um exemplo disso, que já foi corroborado pelos próprios roteiristas, é a visão de Caligari como uma alegoria da figura de um ditador, que consegue controlar um povo em transe, representado por Cesare, a fazer as vontades mais nefastas da figura autoritária. E não é preciso ser um Siegfried Krakauer, que escreveu a tese mais famosa sobre esse filme, para perceber como essa alegoria reflete tanto a obediência cega ao Kaiser durante a guerra, quanto serve já como um prelúdio ao regime que viria ao poder nos próximos anos.

Depois que o roteiro havia sido apresentado a Erich Pommer, da companhia Decla-Film, o produtor aceitou bancar o filme por achar que seria um projeto barato e rentável, pois, além de seguir as tendências do cinema da época, se passando em um mundo fictício, o filme também tinha potencial para ser um produto para exportação. Um realizador ligado ao teatro e à arte expressionista, chamado Robert Wiene, foi então chamado para dirigir o filme. Com ele agora no comando, “O Gabinete do Dr. Caligari” começou a ganhar a estética pelo qual ficaria conhecido. Foi decidido que os cenários do filme seriam pintados, o que tornaria a produção ainda mais barata, e Wiene chamou o artista Hermann Warm para fazer esse trabalho. Warm, por sua vez, chamou dois outros amigos, também entusiastas do expressionismo, para trabalhar no filme: Walter Reimann and Walter Röhrig. Esse trio deu ao filme a estética da arte expressionista, que buscava representar o mundo não como ele era de forma objetiva, mas como ele era visto de maneira subjetiva, pelo artista e pelas personagens.

Assim, os cenários do filme manifestam essa sensibilidade estética, com janelas inclinadas, portas e prédios tortos, móveis altos ou baixos demais, e sombras pintadas diretamente nas paredes, nem sempre obedecendo à iluminação. O longa tem um visual ao mesmo tempo sombrio e fantasioso, que evoca justamente a mentalidade das suas personagens, vivendo em um mundo torto e sombrio, sob ameaça de um tirano louco. Esse filme foi responsável pela popularização do chamado “expressionismo alemão” no cinema, um estilo que inspiraria diretores contemporâneos e posteriores, e pode ser reconhecido como uma grande inspiração para a estética de Tim Burton. E essa estética não está apenas nos cenários, mas também nas maquiagens, no figurino e nas atuações, principalmente de Werner Krauss como Caligari, e de Conrad Veidt como o sonâmbulo Cesare.

Reprodução: IMDb

Essas atuações, inclusive, são outro detalhe marcante da obra. Tanto Krauss quanto Veidt já tinham experiência em peças de teatro expressionistas, e, portanto, conseguiram passar a expressividade necessária para os seus papéis, que, na época do cinema mudo, também exigiam uma certa movimentação e expressão exagerada. Krauss se torna Caligari, com seu figurino e maquiagem extravagantes, e sua aparência de gênio louco, disposto a matar seus adversários; e Veidt, muitos anos antes de estrelar como o vilão em “Casablanca” (dir. Michael Curtiz, 1942), incorpora um sonâmbulo pálido e macabro, que quase chega a se misturar com os cenários expressionistas. Nesse aspecto, eles acabam contrastando com o resto do elenco, sendo aquelas personagens que mais refletem a loucura e tortuosidade dos cenários, ajudando a consolidá-los como vilões dos quais não há escapatória, nem mesmo nas paredes da cidade.

Algo que também aprecio nesta obra é exatamente esse sentimento de que “não há saída”, de que o seu vilão é imparável. Sem revelar muito (ou, pelo menos, sem revelar exatamente o que acontece), existe certa controvérsia quanto ao final do filme, e a sua reviravolta. Segundo algumas fontes, o início e o final da história, que mostram Francis a contando a um senhor, não estavam no roteiro original, escrito por Janowitz e Mayer, e isso teria sido imposto pelo estúdio. A questão que se levanta, então, é se a revelação final comprometeria ou não a mensagem antiautoritária do filme. E eu, particularmente, estou disposto a argumentar que não. Isso porque o twist na história só ajuda a reforçar a ideia do vilão como uma força inescapável, algo que mesmo que detido, terá o seu retorno de alguma outra forma, num ciclo quase kafkiano de opressão e inevitabilidade. Novamente, sem revelar o que acontece, digo: a ameaça do filme parece tão imortal quanto o fascismo se mostra atualmente — o que não compromete a mensagem do filme, apenas a deixa mais forte e muito mais pessimista.

Quanto mais pesquiso, quanto mais assisto e re-assisto, e quanto mais tento saber sobre “O Gabinete do Dr. Caligari”, mais me convenço de que este filme não apenas é uma obra-prima, mas também a culminação de uma série de tendências artísticas, históricas, políticas, e mesmo situacionais, que foram todas responsáveis por criar as condições para que um filme como esse, essa “tempestade perfeita” do terror, do suspense, e da arte alemã, fosse mesmo possível de existir. De um roteiro inspirado pelas experiências de guerra e as ideias políticas de dois escritores, o filme passou para a mão de um diretor e de artistas inclinados para a cena artística expressionista da época, e que por isso imprimiram essas suas sensibilidades estéticas na obra, que também teve o início e final alterados a mando de produtores do estúdio que, mesmo com o objetivo apenas de vender o filme e fazer mais dinheiro, conseguiram apenas reforçar a mensagem do filme, levando a um final icônico e desesperador, digno de um clássico do terror psicológico. Sensacional.


Como o filme está em domínio público, é possível vê-lo gratuitamente on-line.


Este texto faz parte de uma série que tenta cobrir todos os filmes indicados no livro “1001 filmes para ver antes de morrer. Para mais textos dessa série, clique aqui.

“Crimes obscuros” (2006): mistério, fantasmas e retribuição

Reprodução: MUBI

nota: A-

PÚBLICO: ★★★
  • Título original: 叫 (Sakebi, さけび)
  • Título alternativo: “Vítima de uma alucinação”
  • Direção: Kiyoshi Kurosawa
  • Roteiro: Kiyoshi Kurosawa
  • Produção: Takashige Ichise
  • Elenco: Kōji Yakusho, Manami Konishi, Riona Hazuki, Tsuyoshi Ihara, Joe Odagiri, Ryo Kase, etc.
  • Gênero: Terror, mistério, suspense
  • Duração: 104 min (1h44)
  • Classificação: 16 (BRA) PG-12 (JAP)

Muito bom

“o roteiro deste filme respeita o seu público e o deixa juntar as peças do mistério por si mesmo, revelando as informações relevantes aos poucos, mas com reviravoltas impactantes, que vão nos levando até o seu final estranho e enigmático (como já é de se esperar desse diretor)”

Um assassinato ocorre num bairro portuário de Tóquio. Uma moça com um vestido vermelho é afogada em uma poça de água salgada, e o assassino foge.

Um detetive, chamado Noboru Yoshioka (Yakusho), é então chamado para investigar o caso, mas ele começa a achar algumas pistas estranhas na cena do crime. Primeiro, ele vê um pequeno botão, caído em uma das poças próximas de onde a mulher foi morta, e, ao voltar para casa, percebe que um de seus casacos tinha botões iguais àquele, um dos quais estava faltando. Durante a perícia, também é apontado que a vítima devia ter sido amarrada com cabos amarelos, os mesmos cabos que, Yoshika percebe, ele tem em seu apartamento. Da mesma forma, as suas digitais, inexplicavelmente, parecem ter sido deixadas no corpo da vítima.

A partir de então, outros crimes muito parecidos começam a acontecer pela cidade, sempre envolvendo o mesmo modus operandi: pessoas sendo afogadas em água salgada. E, da mesma forma, esses assassinatos parecem ter sempre algo que os liga ao detetive, mesmo que ele não entenda como ou por quê. E isso acontece mesmo quando os crimes têm culpados confessos. Esses culpados, aliás, também parecem ter uma mesma motivação: “era o único jeito que eu pude pensar… para apagar tudo de vez”. E, além disso, o detetive tem mais uma ligação com esses assassinatos. Ele, assim como os suspeitos, passa a ser assombrado por um fantasma — o espírito da moça com vestido vermelho.

Um aspecto importante de se perceber, na construção narrativa de “Crimes obscuros” (dir. Kiyoshi Kurosawa, 2006), é como a revelação sobre a parte sobrenatural da trama é feita aos poucos, a passos lentos. O roteiro se preocupa em, primeiro, apresentar as suas personagens e os mistérios principais da história antes de se centrar na sua parte sobrenatural. Isso é relevante porque o mistério e o suspense do filme são estabelecidos, e o nosso interesse é engajado com aquelas personagens, antes de haver qualquer menção mais clara do envolvimento de fantasmas na trama. Assim, quando finalmente o filme se revela como uma história sobrenatural, já estamos conectados com a paranoia e o mistério que essa história envolve.

Se “Creepy” (dir. Kiyoshi Kurosawa, 2016) é um terror disfarçado, que se mostra como tal apenas com o desenrolar de sua história, este filme faz algo bastante similar. E o diretor Kiyoshi Kurosawa parece gostar de mexer com as expectativas da sua audiência. O filme parece, na superfície, uma trama de investigação policial, apenas com o detalhe de que os crimes estão se ligando diretamente ao investigador. Porém, assim como em “A Cura” (1997), os mistérios vão se descortinando, e o detetive se vê tendo de lutar contra uma força imparável, e dessa vez realmente sobrenatural, que parece ter controle e influência sobre as outras pessoas. Só que, diferente de “Kairo” (2001), os fantasmas deste filme não trazem tanto uma simbologia da depressão e suicídio, e estão mais ligados a um sentimento de vingança e violência contra os vivos.

E, assim como todas essas outras obras, o roteiro deste filme respeita o seu público e o deixa juntar as peças do mistério por si mesmo, revelando as informações relevantes aos poucos, mas com reviravoltas impactantes, que vão nos levando até o seu final estranho e enigmático (como já é de se esperar desse diretor).

“Crimes obscuros”, assim como nos filmes que citei, também conta com uma fotografia para além de excepcional, que mostra a cidade de Tóquio como um ambiente sujo e hostil. Além disso, a direção de fotografia (Akiko Ashizawa) consegue manipular muito bem a iluminação, em conjunto com o arranjo das personagens em cena, de forma a criar tomadas absolutamente fantásticas. Destaco duas cenas aqui: a primeira é aquela em que a luz acaba na casa do detetive Yoshioka, e a câmera é posicionada com ele de costas para um espelho, que mostra parte da sala fora da cena. O espelho se destaca na imagem pela diferença de iluminação entre o seu reflexo e resto da casa, o que atrai nossa atenção para onde o fantasma irá se manifestar.

A segunda cena que destaco aqui é o interrogatório de um dos suspeitos do crime. Feito em um longo plano aberto, essa cena se utiliza de todo o espaço que tem disponível, que inclui dois vidros espelhados. Esses vidros permitem uma grande movimentação dos personagens em cena, inclusive do suspeito, que sai correndo pela sala quando é confrontado pelo fantasma, invisível aos olhos dos detetives. A abertura do plano, além de sugerir haver algo mais ali, também deixa clara a perspectiva de cada uma das personagens, e mostra mais uma vez as habilidades de Kiyoshi Kurosawa em matéria de composição e direção de cena.

Assim, “Crimes obscuros” é mais um acerto na impecável filmografia desse diretor. Explorando temas e situações não muito diferentes de seus outros filmes, o longa ainda assim consegue trazer um roteiro original e bem escrito, e que ao mesmo tempo traz consigo todas as qualidades e acertos dos outros trabalhos de Kurosawa. Isso inclui uma fotografia e direção excelentes, uma atmosfera medonha, e uma preocupação com a construção da trama, dos mistérios e das personagens, que é, no fundo, o que torna esse e os outros filmes do diretor tão bons e efetivos quanto ao seu terror. Simplesmente, aterrorizante e excepcional.

“Nos Limites dos Portões” (1920) foi revolucionário e antirracista

Reprodução: IMDb

nota: B

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★
  • Título original: Within Our Gates
  • Direção: Oscar Micheaux
  • Roteiro: Oscar Micheaux
  • Produção: Oscar Micheaux
  • Elenco: Evelyn Preer, Flo Clements, James D. Ruffin, Jack Chenault, William Smith, Charles D. Lucas, S.T. Jacks, etc.
  • Gênero: Drama, romance
  • Duração: 79 min (1h19)

Bom

“Este pode não ser um filme perfeito, longe disso aliás, mas o simples fato de ele trazer para as telas de cinema uma história assim, que desafia tantas percepções racistas, numa época em que essas percepções eram generalizadas, é algo a ser aplaudido, sempre.”

Depois de uma briga com seu noivo, Sylvia Landry (Preer) decide ir embora da casa de sua prima (Clements), no norte dos Estados Unidos, e volta para o sul, onde nasceu. Uma vez lá, ela conhece o reverendo Wilson Jacobs (Jacks), que administra uma pequena escola numa comunidade rural, e passa a trabalhar como professora. A escola, porém, está passando por dificuldades financeiras, e corre o risco de ser fechada. Sylvia então decide ajudar Jacobs, e parte para Boston com o objetivo de levantar o dinheiro necessário para salvar sua escola.

A princípio, essa história pode parecer bastante simples, até banal. Mas eu deixei de lado um detalhe muito importante: todas as personagens que citei até agora são negras. Não só isso, mas “Nos Limites dos Portões (1920) também é dirigido por Oscar Micheaux, um diretor pioneiro americano que, também, era negro. De fato, este acontece de ser o filme mais antigo, na história do cinema, — dos que ainda sobrevivem — a ter um diretor negro. E isso não é apenas um detalhe, uma nota de rodapé, é algo importantíssimo para compreender a relevância desse filme, e algumas das temáticas que ele aborda em sua narrativa.

Afinal, lembremos, esse é um filme lançado em 1920, apenas cinco anos depois de “O Nascimento de uma Nação” (dir. D.W. Griffith, 1915), uma obra que reavivou a Ku Klux Klan nos Estados Unidos, e menos de um ano depois de uma série revoltas em Chicago que, de julho a agosto de 1919, levaram a morte de 23 pessoas negras. E esse contexto certamente teve a sua influência no filme. Inclusive, em muitos sentidos, “Nos Limites dos Portões” pode ser visto tanto como uma resposta a todo um contexto de segregação e violência racial que assolava os Estados Unidos, quanto como uma resposta, mais direta, ao longa racista de D.W. Griffith, que, em parte, tinha sido responsável por esse estado de violência.

Reprodução: IMDb

É interessante perceber, inclusive, o contraste entre esses dois filmes, tão diferentes entre si. E essa diferença ajuda a ilustrar, pelo menos em parte, a grande significância histórica de uma obra como essa, no tempo em que ela foi produzida. Uma forma de se ver isso é na visão que cada longa tem da divisão norte/sul dos Estados Unidos. Enquanto “O Nascimento de uma Nação” tem uma visão um pouco revanchista da Guerra de Secessão, vendo os estados do sul como os coitados que, além de perderem a guerra, foram forçados a aceitar as exigências abolicionistas do norte, incluindo a libertação dos escravos e a sua integração na sociedade, como, se presume, era o padrão nos estados nortistas. Já no filme de Micheaux, a projeção começa com uma legenda irônica e reveladora: “nossas personagens se encontram no norte, onde os preconceitos e ódios do sul não existem — mesmo que isso não impeça o linchamento ocasional de um preto“.

Da mesma forma, enquanto “Nascimento” falsifica a história americana, e cria versões fantasiosas das “raças”, com uma idealização dos brancos e demonização dos negros, “Nos limites dos portões”, por outro lado, tenta mostrar os negros como seres humanos, tão variados e diferentes entre si quanto os brancos. E a premissa simples, banal, que o filme apresenta é um reflexo desse objetivo: mostrar que os negros são pessoas, com problemas, objetivos e dramas próprios. Assim, o longa conta com uma variada gama de personagens, algumas mais honestas, outras menos, alguns detetives ou criminosos, outros pastores ou falsos pregadores, alguns trabalhadores ou vagabundos, mas todos são, assim como os brancos, homens e mulheres, pais e mães — seres humanos dignos de direitos, em todas as suas variedades.

E essa variedade não é uma exclusividade das pessoas negras, mas também das personagens brancas do longa. Enquanto algumas são racistas, indo contra todo e qualquer direito que a outra “raça” poderia conquistar, outros são mais simpáticos às causas e reinvindicações dos negros, e o filme vê esses últimos com bons olhos, representados pela simpática senhora Warwick (Evelyn), uma rica filantropa que ajuda Sylvia na sua empreitada. Isso contrasta diretamente com a visão que Griffith demonstra dos brancos abolicionistas, que via como interesseiros, pessoas com segundas intenções — políticas e sexuais —, e que queriam mudar a “ordem correta das coisas”. Ao mesmo tempo, aquele filme apologista da Klan tenta idealizar alguns negros ditos “bons”, que continuaram submissos e obedientes aos seus “senhores” brancos, mesmo depois da abolição (como os empregados da casa). Enquanto isso, a obra de Micheaux coloca aqueles que colaboram com os brancos racistas, como o pastor Ned, como pessoas falsas, submissas apenas por interesses pessoais, mas que tiram a máscara assim que os outros viram as costas.

Reprodução: IMDb

Outro contraste evidente, e que mostra a diferença enorme entre as visões raciais de cada filme, é como os dois mostram cenas de agressão sexual. Uma das cenas mais chocantes no trabalho de Griffith mostra um homem negro (na verdade, branco com blackface) perseguindo uma das personagens femininas para tentar se aproveitar dela. Nos dias seguintes, a cavalaria da K.K.K. o persegue, e faz “justiça” com as próprias mãos, o matando por linchamento. Isso não só contribui para um estereótipo, bastante compartilhado na época, que via os homens negros como predadores sexuais, mas também justifica os linchamentos como atos heroicos, cometidos contra pessoas que, supostamente, “mereciam”. “Nos Limites”, por outro lado, mostra uma cena muito mais comum na época, a de um homem branco tentando abusar de uma mulher negra. E, ao contrário do outro filme, mostra os linchamentos como atos bárbaros e violentos, comumente feitos contra pessoas inocentes, simplesmente pela sua cor de pele. Que, aliás, é um retrato muito mais próximo da realidade.

Um dos temas recorrentes que tenho citado nos textos dessa série, quando escrevo sobre os filmes de D.W. Griffith, é como ele via o cinema com uma visão “evangelizadora”, isto é, como ele via a sétima arte como uma ferramenta para ensinar lições morais para sua audiência. E, em certo sentido, “Nos Limites dos Portões” também se aproxima dessa missão, só que vai numa direção oposta das visões racistas de Griffith. O filme busca ensinar, e deixa isso bastante claro, que os negros são pessoas como outras quaisquer, e, mais especificamente, que os afro-americanos são americanos como outros quaisquer. Ao final do longa, a fala de uma das personagens mostra essa missão, quando ela lembra as guerras que os Estados Unidos participaram, e como os afro-americanos estavam sempre na linha de frente: “Nós não devemos esquecer nunca o que o nosso povo fez em Cuba [na Guerra Hispano-americana] […]; ou em Carrizal, no México [na Guerra de fronteira]; ou mais tarde na França [na 1ª Guerra Mundial]”, e conclui com uma frase que resume a mensagem do filme: “Nós nunca fomos imigrantes“.

Este pode não ser um filme perfeito, longe disso aliás, mas o simples fato de ele trazer para as telas de cinema uma história assim, que desafia tantas percepções racistas, numa época em que essas percepções eram generalizadas, é algo a ser aplaudido, sempre. Além disso, muito do que se poderia considerar como “defeitos” do filme são mais fruto da falta de recursos, técnicos e financeiros, sob a qual o longa foi produzido, do que realmente falhas de montagem ou de roteiro. Por exemplo, ele certamente é um pouco mal estruturado, com o uso um pouco exagerado de flashbacks e tangentes narrativas. Mas, considerando as limitações que tinham, sem oportunidade de re-filmar cena alguma, isso se torna mais compreensível. E, mesmo com seu baixo orçamento, o filme consegue criar cenas e imagens marcantes, que compensam e muito as suas eventuais falhas. Se trata de um filme significativo, que tem ganhado o seu lugar de respeito no cânone do cinema americano e mundial.


Como o filme está em domínio público, é possível vê-lo gratuitamente on-line.

Este texto faz parte de uma série que tenta cobrir todos os filmes indicados no livro “1001 filmes para ver antes de morrer. Para mais textos dessa série, clique aqui.