Luca (2021) – Crítica

Luca (2021)

nota: A-

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★½
  • Direção: Enrico Casarosa
  • Roteiro: Jesse Andrews e Mike Jones (história de Enrico Casarosa, Jesse Andrews e Simon Stephenson)
  • Produção: Andrea Warren
  • Elenco (voz): Jacob Tremblay, Jack Dylan Grazer, Emma Berman, Saverio Raimondo, Maya Rudolph, Marco Barricelli, Jim Gaffigan, etc.
  • Gênero: Animação, Comédia, Fantasia
  • Duração: 95 min (1h35min)
  • Classificação: Livre (BRA), PG (MPAA)

Ótimo

“É um longa que consegue ser, ao mesmo tempo, diferente de praticamente tudo que o seu estúdio já produziu, e familiar em todos os aspectos que importam”

Uma coisa que acho admirável sobre a Pixar é a maneira como eles conseguem, em seus filmes, usar premissas não muito originais, que já foram feitas outras vezes antes, mas executá-las de tal maneira a criar algo novo, diferente ou no mínimo incrivelmente interessante. “Brinquedos criam vida” foi feito antes de “Toy Story” (dir. John Lasseter, 1995); “pessoazinhas que vivem na sua cabeça e controlam suas emoções” foi feito antes de “DivertidaMente” (dir. Pete Docter, 2015); e existe ideia mais antiga do que “o que acontece antes/depois da vida”, usada em “Soul” (idem, 2020)?

A Pixar é mestre em pegar esse tipo de premissa e usá-la de uma maneira absolutamente excepcional. E esse também é de certa forma o caso de “Luca” (dir. Enrico Casarosa, 2021), mas de uma maneira um pouco diferente.

O filme conta a história de Luca Paguro (Tremblay), um jovem monstro marinho que vive com sua família nos mares próximos a riviera italiana. Acontece que Luca tem certa curiosidade pelo que há na superfície, principalmente por causa dos objetos que os humanos deixam cair no mar, mas sua família é completamente contra qualquer tipo de aventura que ele possa ter fora d’água, principalmente por causa do medo que eles têm dos seres humanos.

Um dia, contudo, Luca encontra um outro menino-peixe chamado Alberto (Grazer), que o leva até a terra firme, onde ele vive, isolado numa ilha. Quando saem da água, todos os monstros marinhos ganham uma aparência humana, mas isso não deixa Luca menos apavorado, não só por estar de verdade naquele lugar desconhecido, mas também por temer que seus pais descubram que ele foi até lá.

Alberto, então, passa a ensinar Luca sobre aquele empolgante, e apavorante, novo lugar, e no processo os dois acabam se tornando melhores amigos, compartilhando de um sonho em comum: viajar o mundo em uma lambreta Vespa.

Quando, porém, os pais de Luca descobrem sobre suas saídas até a ilha, e ameaçam mandá-lo para longe de casa, ele decide fugir com Alberto para a cidade dos humanos. Lá, eles se tornam amigos de uma menina chamada Giulia (Berman), que lhes apresenta uma competição cujo prêmio eles podem usar para, finalmente, comprarem a tão desejada Vespa. No caminho, eles terão que treinar para o evento, aturar um competidor arrogante, e se esconder dos pais de Luca, que estão a sua procura. Tudo isso enquanto tentam não ser descobertos pelo povo da cidade, que teme e odeia monstros marinhos.

E, dessa forma, com essa história, a Pixar faz sua magia e a transforma em algo que é muito mais do que uma história de “peixe fora d’água” (literalmente). Porém, não penso que o estúdio faz isso da mesma maneira que em outros trabalhos. Isso porque este não é um filme com uma trama mais intricada ou grandes conflitos, nem é um filme que trata de temas complexos, como apreciação pela vida ou problemas emocionais, é, na realidade, um filme bastante simples. Enquanto outras obras do estúdio compensam suas premissas com algo mais complexo de pano de fundo, esta, ao contrário, usa de sua simplicidade.

Com essa característica, o filme faz lembrar um pouco (e sei que não sou o primeiro a fazer essa comparação) alguns dos filmes do Studio Ghibli, como “Serviço de Entregas da Kiki (dir. Miyazaki Hayao, 1989)”, “Meu Amigo Totoro” (idem, 1988), ou até “Porco Rosso: O Último Herói Romântico” (idem, 1992) (que, aliás, também se passa na Itália). E assim como esses, “Luca” se beneficia da simplicidade de sua história justamente para investir nas suas personagens e nas relações que elas têm umas com as outras. O filme acaba sendo muito mais sobre Luca, Alberto e Giulia e a maneira como a amizade deles se desenvolve, cresce e é desafiada no decorrer do história, do que sobre a trama em si.

Isso está longe de ser um problema, principalmente considerando que as personagens são extremamente carismáticas e memoráveis. E muito desse carisma vem desse espaço que o filme deixa para desenvolvê-las, mas também é passado bastante pela dublagem: todos os voice-actors fazem um excelente trabalho nos seus respectivos papéis, o que é bastante relevante em um filme como este. Como consequência desses dois fatores, fica muito mais fácil construir uma conexão com as personagens em tela, de forma que, quando a amizade deles é testada, o momento é realmente impactante.

Contudo, o filme cai sim em alguns clichés, que de certa forma são conseqüência de características da história — “um filme da Disney que tem uma cidade cheia de preconceitos? Nem imagino como isso vai terminar”. Não obstante, isso acaba sendo compensado, pois enquanto o roteiro se permite cair em alguns clichés (e de certa forma se aproveita deles), ele acaba evitando outros, por vezes de maneira bastante inteligente e apropriada para as personagens.

Essa é uma história que poderia tão facilmente cair no cliché do “mentiroso revelado” — em que a mentira de uma personagem é descoberta e todos viram as costas para ela no último ato —, mas o filme faz um bom trabalho para evitar esse ou qualquer tipo de trope que acabe por prejudicar a narrativa.

Entretanto, devo dizer que tem uma coisa no filme que me incomoda: ele tem um “vilão”, e ele está longe de ser uma personagem muito interessante, ou até engraçada. É só mais um valentão estereotípico, um bully, que, no final das contas, não adiciona muito para a história.

Fora isso, o filme é, no todo, muito bom. Se tratando de um trabalho da Pixar, quase não é necessário dizer que a animação é simplesmente excepcional. Todo o visual de “Luca” é lindo, retratando a riviera italiana e fazendo jus à beleza daquele lugar. A animação e design de personagem, a edição, os cenários, o som, a música, toda a parte técnica do filme é de excelente qualidade, como é de se esperar.

Enfim, a Pixar novamente se supera com uma simples premissa e nos entrega “Luca”, um filme que também é simples, mas enormemente encantador. Com personagens cativantes, animação fantástica e um final emocionante, é um longa que consegue ser, ao mesmo tempo, diferente de praticamente tudo que o seu estúdio já produziu, e familiar em todos os aspectos que importam. Sim, ele acaba recorrendo a certos clichés aqui e ali, mas nunca a ponto de prejudicar a obra, nem de me fazer negar que ela está entre os melhores filmes da Pixar, e talvez entre os melhores do ano.

🏆 “Luca” foi indicado a 8 Annie Awards, incluindo Melhor Filme. Também foi indicado ao BAFTA na categoria Melhor Filme de Animação, além de estar elegível ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Filme de Animação.


CATEGORIAS

  • Melhor Filme (de Animação) 🏆 Annies | BAFTA | Oscars (elegível)

Annie Award – indicados (Vencedor em 2021: Soul):

  1. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
  2. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
  3. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  4. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
  5. Sing 2 (dir. Garth Jennings, 2021)

BAFTA (Vencedor em 2021: Soul):

  1. Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
  2. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
  3. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
  4. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  • Melhor Direção 🏆 Annies (Vencedor em 2021: WolfWalkers)
  1. Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
  2. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
  3. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
  4. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
    – Belle (dir. Hosoda Mamoru, 2021)
  • Melhor Música 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
  1. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  2. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
  3. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
    – Poupelle da Cidade das Chaminés (dir. Hirota Yusuke, 2020) | Vivo: um amigo show (dir. Kirk DeMicco, 2021)
  • Melhor Dublagem 🏆 Annies – Jack Dylan Grazer (Alberto) — (Vencedor em 2021: Eva Whittaker, pelo papel de Mebh em WolfWalkers)
  1. Stephanie Beatriz (Mirabel) em Encanto
  2. Kelly Marie Tran (Raya) em Raya e o Último Dragão
  3. John Leguizamo (Bruno) em Encanto
  4. Abbi Jacobson (Katie) em A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
  5. Jack Dylan Grazer (Alberto) em Luca
  • Melhor Edição 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
  1. Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
  2. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
  3. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  4. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
  5. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
  • Melhor Animação de Personagem 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
  1. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  2. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
  3. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
    – O Poderoso Chefinho 2: De Volta aos Negócios (dir. Tom McGrath, 2021) | Din e o Dragão Genial (dir. Chris Appelhans, 2021)
  • Melhor Design de Personagem 🏆 Annies (Vencedor em 2021: WolfWalkers)
  1. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
  2. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
  3. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)

– Ron Bugado (dir. Sarah Smith e Jean-Philippe Vine, 2021) | Vivo: um amigo show (dir. Kirk DeMicco, 2021)

  • Melhor Roteiro 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
  1. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
  2. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
  3. Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
  4. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)

– Belle (dir. Hosoda Mamoru, 2021)

(Silenzio, Bruno!)

Encanto (2021) – Crítica

Encanto (2021) - IMDb

nota: A-

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★½
  • Direção: Jared Bush e Byron Howard
  • Roteiro: Charise Castro Smith e Jared Bush (história de Jared Bush, Byron Howard, Charise Castro Smith, Jason Hand, Nancy Kruse e Lin-Manuel Miranda)
  • Produção: Yvett Merino e Clark Spencer
  • Elenco (voz): Stephanie Beatriz, María Cecilia Botero, John Leguizamo, Mauro Castillo, Jessica Darrow, Angie Cepeda, Carolina Gaitán, Diane Guerrero, Wilmer Valderrama, Rhenzy Feliz, Ravi Cabot-Conyers, Adassa, Maluma, etc.
  • Gênero: Animação, Musical, Comédia, Drama, Fantasia
  • Duração: 102 min (1h42min)
  • Classificação: Livre (BRA), PG (MPAA)

Muito Bom

“Com ótimas músicas, um bom roteiro e uma animação espetacular, ‘Encanto’ é mais um ótimo filme da Disney. E como tal, consegue tratar de temas relativamente difíceis de uma maneira lúdica, mas ao mesmo tempo inteligente”

Em um pequeno vilarejo no interior da Colômbia, num vale entre as montanhas, vive a família Madrigal. Residentes em uma casa mágica com consciência própria que eles carinhosamente chamam de “casita“, os Madrigal têm uma característica que os torna diferentes dos outros habitantes do lugar. Acontece que, quando a matriarca da família, a abuela Alma (Botero), veio para aquela região, ela e sua descendência foram abençoados com um “milagre”, que não só deu vida à casita, mas também deu à cada um de sua linhagem poderes e habilidades especiais: dons como super audição, mudança de forma, super força, habilidade de fazer plantas crescerem, etc.

Assim, toda vez que uma das crianças da família completa uma certa idade, ela recebe o seu respectivo dom… bem, todos menos Mirabel (Beatriz). Menina mais nova da família e protagonista do filme, Mirabel Madrigal é a única dos netos de Alma que simplesmente não possui um dom, e ninguém parece saber muito bem o porquê. Isso, como é de ser esperado, a faz se sentir um pouco deslocada do resto da família, não se sentido tão especial quanto os outros.

Mesmo assim, todos na casa dos Madrigal convivem em plena harmonia, como uma família unida, em que cada um cumpre seu papel, tanto dentro de casa quando na comunidade… ou pelo menos é o que parece. Quando Mirabel começa a perceber coisas estranhas acontecendo com a casa, ela passa a suspeitar que há algo de errado com o milagre, e quanto mais ela investiga, mais ela, junto com a audiência, vai descobrindo coisas sobre a própria família, e seu papel dentro dela, que estavam até então apenas “sob a superfície”, e que podem ser fatores determinantes para o destino da Casa Madrigal.

Já de cara, a primeira coisa que impressiona sobre esse filme é a sua animação. Devo dizer que este é um dos filmes mais bonitos visualmente que a Disney já produziu (pelo menos desde que começou a fazer animação 3D). A animação das personagens, seus movimentos, as texturas, a iluminação, os cenários, os efeitos, todo o visual de “Encanto” (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021) é absolutamente fantástico. Além do mais, realmente impressiona notar a meticulosa atenção aos mínimos detalhes que os animadores tiveram com este filme — a cada visualização é possível perceber algo novo, seja nos cenários, no movimento das personagens ou até nas roupas que vestem.

Porém, não só de animação se faz um bom filme. Isso não seria nada se “Encanto” não fosse também tão bem escrito. O roteiro faz um excelente trabalho em estabelecer as questões e personalidades das personagens, ajudando a desenvolvê-las tanto individualmente quanto como parte do grupo familiar. E isso é bastante conveniente já que o que acaba se revelando no decorrer da trama, sem entrar muito em spoilers, é que um problema que, inicialmente, parecia ser de apenas um membro da família, acaba se revelando como algo que a família como um todo tem de enfrentar, e que está de certa maneira relacionado ao que está acontecendo com o milagre.

Além disso, o filme não possui propriamente um vilão. Além de ser uma agradável surpresa (principalmente pela Disney não ter incluído, novamente, uma reviravolta em que alguém “era o vilão o tempo todo”), isso significa que todos os conflitos do filme vêm unicamente da relação das diferentes personagens. Assim, explorar e desenvolver essas relações e personagens se torna essencial para o sucesso de uma história como essa, e “Encanto” definitivamente tem êxito nesse ponto. Todas as personagens têm seu espaço para brilhar, principalmente Mirabel, e a maneira com que toda essa construção se encaixa na trama é tão satisfatória quanto é, devo dizer, emocionante.

Ademais, este é, como muitos filmes da Disney, um musical. E, por causa disso, muito desse desenvolvimento é feito por meio das canções. O longa usa o recurso das músicas e suas letras para construir e revelar informações sobre as personagens e suas relações, e, assim, avançar com a história. Portanto, as músicas nesse contexto se tornam algo essencial para a construção da narrativa, uma ferramenta que, sim, traz exposição, mas de uma maneira criativa, que se integra na história, e, o mais importante, é muito, mas muito bem executada. O talentoso Lin-Manuel Miranda, que já tinha trabalhado com a Disney em “Moana” (dir. Ron Clements e John Musker, 2016), volta para fazer as músicas e elas são realmente excepcionais. (Até agora é difícil tirar “We don’t talk about Bruno” da cabeça).

Assim, com ótimas músicas, um bom roteiro e uma animação espetacular, “Encanto” é mais um ótimo filme da Disney. E como tal, consegue tratar de temas relativamente difíceis de uma maneira lúdica, mas ao mesmo tempo inteligente. Este é um longa que trata de assuntos como destino, o papel de alguém dentro de uma família, as expectativas que vêm desse papel, traumas do passado e suas consequências no ambiente familiar, tudo isso enquanto ainda consegue entreter com as suas personagens e canções — e este é o seu verdadeiro encanto.


🏆 “Encanto” foi indicado a 8 Annie Awards, incluindo Melhor Filme. Também está na shortlist do Oscar em duas categorias, além de estar elegível na categoria Melhor Filme de Animação. Na longlist do BAFTA, está apenas na categoria Melhor Filme de Animação.

CATEGORIAS

  • Melhor Filme (de Animação) 🏆 Annies | BAFTA (longlist) | Oscars (elegível)

Annie Award – indicados (Vencedor em 2021: Soul):

  1. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
  2. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
  3. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  4. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)

– Sing 2 (dir. Garth Jennings, 2021)

BAFTA – longlist (Vencedor em 2021: Soul):

  1. Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
  2. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
  3. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
  4. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  5. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)

– Sing 2 (dir. Garth Jennings, 2021) | Ron Bugado (dir. Sarah Smith e Jean-Philippe Vine, 2021)

  • Melhor Direção 🏆 Annies (Vencedor em 2021: WolfWalkers)
  1. Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
  2. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
  3. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
  4. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)

– Belle (dir. Hosoda Mamoru, 2021)

  • Melhor Música 🏆 Annies | Oscars (shortlist) – Melhor Canção Original (Dos Oruguitas) e Melhor Trilha Sonora Original

Annie Awards – indicados (Vencedor em 2021: Soul)

  1. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  2. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
  3. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)

– Poupelle da Cidade das Chaminés (dir. Hirota Yusuke, 2020) | Vivo: um amigo show (dir. Kirk DeMicco, 2021)

Oscar – Melhor Canção Original – Shortlist (Vencedor em 2021: Fight for You, por H.E.R., de Judas e o Messias Negro)

  1. Dos Oruguitas (Sebastián Yatra) de Encanto
  2. Here I am (Singing my Way Home) (Jennifer Hudson) de Respect: a História de Aretha Franklin
  3. Dream Girl (Idina Menzel) de Cinderela
  4. The Anonymous Ones (Amandla Stenberg) de Querido Evan Hansen
  5. Somehow You Do (Reba McEntire) de Four Good Days
  6. Just Look Up (Ariana Grande e Kid Cudi) de Não Olhe para Cima
  7. Automatic Woman (H.E.R.) de Ferida

– So may we start (Anette) | Down to joy (Belfast) | Right where I belong (Brian Wilson) | Beyond the shore (CODA) | Guns go bang (The Harder They Fall) | Be alive (King Richard) | No time to die (007) | Your song saved my life (Sing 2)

Oscar – Melhor Trilha Sonora Original – Shortlist (Vencedor em 2021: Soul)

  1. Spencer (dir. Pablo Larraín, 2021)
  2. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  3. O Ataque dos Cães (dir. Jane Campion, 2021)
  4. A Crônica Francesa (dir. Wes Anderson, 2021)
  5. Não Olhe para Cima (dir. Adam McKay, 2021)

– Apresentando os Ricardos (dir. Aaron Sorkin, 2021) | A Lenda de Candyman (dir. Nia DaCosta, 2021) | Duna (Denis Villeneuve, 2021) | O Cavaleiro Verde (dir. David Lowery, 2021) | Vingança & Castigo (dir. Jeymes Samuel, 2021) |King Richard: criando campeãs (dir. Reinaldo Marcus Green, 2021) | O Último Duelo (dir. Ridley Scott, 2021) | 007 – Sem Tempo para Morrer (dir. Cary Joji Fukunaga, 2021) | Mães Paralelas (dir. Pedro Almodóvar, 2021) | A Tragédia de Macbeth (dir. Joel Coen, 2021)

  • Melhor Dublagem 🏆🏆 Annies – John Leguizamo (Bruno) e Stephanie Beatriz (Mirabel)

Annie Awards – Indicados (Vencedor em 2021: Eva Whittaker, pelo papel de Mebh em WolfWalkers)

  1. Stephanie Beatriz (Mirabel) em Encanto
  2. Kelly Marie Tran (Raya) em Raya e o Último Dragão
  3. John Leguizamo (Bruno) em Encanto
  4. Abbi Jacobson (Katie) em A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
  5. Jack Dylan Grazer (Alberto) em Luca
  • Melhor Edição 🏆 Annies

Annie Awards – Indicados (Vencedor em 2021: Soul)

  1. Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
  2. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  3. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
  4. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
  5. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
  • Melhores Efeitos 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
  1. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  2. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
  3. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)

– Belle (dir. Hosoda Mamoru, 2021) | Vivo: um amigo show (dir. Kirk DeMicco, 2021)

  • Melhor Animação de Personagem 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
  1. Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  2. Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
  3. Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)

– O Poderoso Chefinho 2: De Volta aos Negócios (dir. Tom McGrath, 2021) | Din e o Dragão Genial (dir. Chris Appelhans, 2021)

  • Melhor Storyboarding 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
  • Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
  • Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)

– Spirit: O indomável (dir. Elaine Bogan, 2021) | A Família Addams 2: Pé na Estrada (dir. Greg Tiernan e Conrad Vernon, 2021) | Vivo: um amigo show (dir. Kirk DeMicco, 2021)

(we don’t talk about Bruno no no no no)

WolfWalkers (2020) – Crítica

Wolfwalkers (2020)

nota: A+

CRÍTICA: ★★★★ PÚBLICO: ★★★
  • Direção: Tomm Moore e Ross Stewart
  • Roteiro: Will Collins (história de Tomm Moore, Ross Stewart e Jericca Cleland)
  • Produção: Tomm Moore, Stéphan Roelants, Nora Twomey e Paul Young
  • Elenco (voz): Honor Kneafsey, Eva Whittaker, Sean Bean, Simon McBurney, Maria Doyle Kennedy, etc.
  • Gênero: Animação, Aventura, Fantasia
  • Duração: 103 min (1h43min)
  • Classificação: 10 (BRA), PG (IFCO), PG (BBFC), Tous publics (FRA)

Espetacular

“Suas personagens são seriamente cativantes, sua história é incrível e sua animação fantástica”

WolfWalkers” (dir. Tom Moore e Ross Stewart, 2020) conta a história de Robyn Goodfellowe (Kneafsey), uma jovem inglesa que se muda com seu pai, Bill Goodfellowe (Bean) para uma cidade murada chamada Killkenny, na Irlanda. Na época em que o filme se passa, em meados do século XV, a Irlanda fazia parte da Comunidade da Inglaterra, governada pelo Lorde Protetor Oliver Cromwell (McBurney), de cuja guarda o pai de Robyn faz parte.

A menina, porém, não se adapta muito bem a esse novo lugar. Enquanto no seu antigo lar ela tinha espaço e liberdade para se aventurar pelos campos e brincar com seu falcão de estimação, Merlyn, agora ela se vê confinada aos muros da cidade e, mais ainda, aos limites da pequena casa onde agora vive. Por causa disso, ela, sempre que pode, insiste em sair com o pai para fora dos muros da cidade, onde ele vai para colocar armadilhas contra lobos no bosque próximo ao vilarejo. No entanto, Bill nunca permite que a filha o acompanhe nessas suas incursões pela mata. Isso porque os lobos completamente aterrorizam os cidadãos de Killkenny, que os querem o mais longe possível de suas casas e plantações — e isso inclui o Lorde Protetor, que possui um palácio no centro da cidade e quer que os lobos sejam exterminados.

Um dia, porém, Robyn consegue escapar da cidade e ir até os limites do bosque, onde ela encontra um alcateia de lobos. Ela tenta se defender, mas acaba ferindo Merlyn, que é levado para dentro da floresta por uma estranha menina ruiva, que parece andar junto com os lobos. Robyn decide seguí-la e descobre que ela é uma WolfWalker, uma criatura que é humana enquanto acordada e loba durante o sono, e que possui habilidades de cura, que ela usa para curar o pássaro.

A partir de então, Robyn e a menina, chamada Mebh (Whittaker), se tornam as mais improváveis amigas. Isso, porém, deixa a inglesa em uma situação complicada, já que, além de nem dever estar indo ao bosque, ela agora tem uma perspectiva completamente nova quanto aos lobos que lá vivem, que ainda são muito temidos e odiados pelos citadinos, pelo seu pai e, mais importante, pelo Lorde Protetor, que deseja vê-los exterminados — algo que a garota não pode deixar que aconteça, nem com os lobos e nem com sua mais nova amiga.

A primeira vista, vários aspectos dessa história podem até parecer não muito originais e até meio cliché: uma menina que tem dificuldade de se encaixar decide proteger a natureza dos adultos malvados que querem destruí-la. Essa premissa facilmente poderia se tornar algo bastante previsível e tosco. Porém, o grande diferencial desse filme é exatamente que ele consegue subverter isso, apresentando o seus temas e personagens de maneira tão diferente e bem realizada, que o longa se mostra como algo muito maior do que sua premissa.

Penso que o fator de maior peso, que faz essa história dar realmente certo, são as personagens. Tanto Robyn quanto Mebh, além de serem personagens extremamente cativantes, têm desenvolvimentos muito bem realizados, de maneira que o espectador não só quer vê-las ter sucesso, mas também consegue entender todas as suas motivações, suas nuances, suas hesitações, suas escolhas. O filme faz um trabalho tão bom em nos fazer conhecer e entender estas personagens que, mais próximo do final, quando ambas são obrigadas a fazer escolhas difíceis, as suas decisões são completamente compreensíveis.

Mesmo no início do filme, quando Robyn tenta repetidas vezes sair escondida da cidade, desobedecendo seu pai. Em algum outro filme, isso talvez pudesse ser visto como uma teimosia repetitiva e chata da garota; nesse, é algo completamente compatível com o espírito aventureiro da personagem e algo na qual a audiência que ver ela ter sucesso. Se as personagens não fossem tão cativantes e bem construídas, isso não seria possível.

Não só as suas atitudes, mas as circunstâncias em que as personagens são postas ajudam e muito nas suas construções. E esses contextos certamente ajudam a desconstruir aquela premissa cliché que citei antes. Afinal, Robyn não é meramente uma “menina que não se encaixa”, ela é uma imigrante, uma estrangeira, no contexto de uma Irlanda que já não era tão amigável aos seus colonizadores. Ela não simplesmente quer “proteger a natureza”, ela, dividida, se vê tendo de se colocar entre os interesses de seu pai, a quem ela ama, e da sua nova amiga para tentar salvá-la. E não é um conflito ‘preto no branco’ de “adultos malvados” que querem destruir a natureza, mas de pessoas igualmente humanas, que não querem mais ser aterrorizados pelos lobos e querem proteger a si mesmos e suas famílias, assim como o pai de Robyn.

Mesmo o grande vilão, o Lorde Protetor, tenta sempre se justificar de suas ações com uma suposta ética cristã, falando sempre que eliminar os lobos é a “vontade do Senhor” (o que é bastante interessante, já que a palavra em inglês “Lord” pode ter um sentido deliberadamente ambíguo nesse contexto). Sua personagem lembra bastante a do Juiz Claude Frollo, de “O Corcunda de Notre Dame” (dir. Gary Trousdale e Kirk Wise, 1996), que também balanceia seus atos monstruosos com uma suposta moralidade religiosa.

O que esses contextos também mostram é como o filme consegue misturar elementos históricos e folclóricos irlandeses, algo que esta mesma produtora, a Cartoon Saloon, e o mesmo diretor, Tomm Moore, já tinham feito no encantador “A Canção do Oceano” (dir. Tomm Moore, 2014). A história envolve elementos específicos da cultura irlandesa, o que inclui tanto a maneira como eles misturam sua religiosidade com superstições populares e folclore, quanto a sua aversão aos seus colonizadores ingleses, por exemplo — além de outras coisas mais específicas que talvez passem desapercebidas, como o preconceito contra ruivos, que faz as crianças da cidade os associarem aos WolfWalkers.

Mas não só de personagem e contexto se faz uma animação, por mais complexos e bem construídos eles sejam. Falta falar da animação em si, pois ela é absolutamente extraordinária.

Em primeiro lugar, o filme faz algo que torna longas desse tipo ainda mais especiais: ele se beneficia do fato de ser uma animação. A verdade é que o gênero ‘animação’ tem certas especificidades e liberdades que outros gêneros simplesmente não possuem; entre os quais está a relativa falta de limitações que ela apresenta. Enquanto projetos live-action podem ter certos problemas para construir e tornar realísticos mundos e personagens da fantasia, a animação não passa por esses mesmos problemas — tanto que a fantasia está na animação desde seus primórdios. Portanto, quando um filme usa tais características gênero-específicas em seu benefício e em benefício da sua história, como faz “WolfWalkers”, ele se torna ainda mais único e especial.

Um exemplo de como a mídia animada é usada em favor da história é os traçados. O filme é desenhado de uma maneira relativamente rústica, com uma estética de expõe mais claramente os traçados de lápis que contornam os desenhos, mas ao mesmo tempo contrasta isso com os movimentos dos personagens, que são bastante fluidos e suaves. Quando, porém, acontece alguma cena mais tensa e emocionalmente forte, os animadores comunicam esses sentimentos das personagens também pelos traçados do desenho, que se tornam mais grossos, menos limpos, mais claramente “rabiscados”, e a animação dos personagens também se torna mais dura, menos fluida, as bordas da tela ficam mais grossas e “aprisionam” as personagens entre os limites da imagem. Estando tudo calmo ou tenso, a animação tenta refletir isso, e funciona maravilhosamente bem.

Se isso não bastasse, o design tanto das personagens quanto dos cenários também são muito bem feitos. Enquanto tudo na cidade, incluindo os cidadãos, é desenhado de maneira bastante geométrica, quadrada, com os prédios se tornando vários retângulos chapados à distância, a floresta é bastante circular, redonda, mais tridimensional, o que se reflete até no desenho de Mebh. Os efeitos que o filme possui também são muito bons, como a maneira que eles conseguiram capturar visualmente como seria a perspectiva do olfato e audição de um lobo.

Enfim, “WolfWalkers” é espetacular. Suas personagens são seriamente cativantes, sua história é incrível e sua animação fantástica. Além disso, o filme trata de diversos temas que podem o fazer funcionar como uma alegoria à imigração e à xenofobia, além, é claro, da questão ambiental que é inerente a sua história. A inclusão de elementos da cultura e história irlandesa só tornam a experiência mais culturalmente rica e interessante. Tudo, desde a dublagem até os mais simples detalhes da animação, mostram porque este é meu filme favorito de 2020. Maravilhoso.


🏆 “WolfWalkers” foi vencedor de 5 Annie Awards, incluindo melhor filme independente. Também foi indicado ao Oscar e ao BAFTA de melhor filme de animação.

Star Wars: A Guerra dos Clones (2008) – Crítica

Star Wars: The Clone Wars (2008)

nota: C+

CRÍTICA: ½  PÚBLICO: ½
  • Título Original: Star Wars: The Clone Wars
  • Direção: Dave Filoni
  • Roteiro: Henry Gilroy, Steven Melching e Scott Murphy (personagens e universo de George Lucas)
  • Produção: Catherine Winder
  • Elenco (voz): Matt Lanter, Ashley Eckstein, James Arnold Taylor, Dee Bradley Baker, Tom Kane, Nika Futterman, Ian Abercrombie, Corey Burton, Catherine Taber, Kevin Michael Richardson, Sir Christopher Lee, David Acord, etc.
  • Gênero: Animação, Ação, Aventura, Ficção Científica, Fantasia
  • Duração: 98min (1h38min)
  • Classificação: Livre (BRA), M/6 (POR), PG (MPAA)

Filmes Anteriores:

  • Guerra nas Estrelas (dir. George Lucas, 1977) – A-
  • O Império Contra-Ataca (dir. Irvin Kershner, 1980) – A
  • O Retorno de Jedi (dir. Richard Marquand, 1983) – A-
  • Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma (dir. George Lucas, 1999) – C+
  • Star Wars Episódio II: Ataque dos Clones (dir. George Lucas, 2002) – C
  • Star Wars Episódio III: A Vingança dos Sith (dir. George Lucas, 2005) – B+

Série Antecessora:

  • Star Wars: Clone Wars (2003-2005) – 82/100

Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante…

A galáxia está em estado de guerra. Desde os eventos ocorridos em “Star Wars Episódio II: Ataque dos Clones” (dir. George Lucas, 2002), os exércitos de clones da República Galáctica, liderados pelos cavaleiros jedi, têm bravamente lutado contra os gigantescos batalhões de droids da aliança separatista, liderada pelo mestre sith Conde Dooku (Sir Christopher) e seus seguidores. Neste esforço de guerra, os dois lados se apressam para adquirir novos aliados, conquistando a lealdade de sistemas estelares e grupos anteriormente neutros. Por exemplo, um grupo cuja aliança seria proveitosa para ambos os lados é o clã Hutt, liderado pelo poderoso Jabba (Richardson), que controla parte da chamada “orla exterior” da galáxia, ao qual o acesso seria vantajoso tanto para a República quanto para os separatistas.

Assim, quando o filho de Jabba (Acord) é misteriosamente raptado, e seu pai promete se aliar a qualquer dos grupos que consiga resgatá-lo, as partes beligerantes destacam forças para este trabalho. Do lado dos jedi, o Chanceler Palpatine (Abercrombie) convoca Anakin Skywalker (Lanter) para a missão, que é acompanhado por um pelotão de clones e (a contragosto) por sua nova aprendiz padawan, Ahsoka Tano (Eckstein). Da mesma forma, Dooku assegura Jabba que uma de suas seguidoras, Asajj Ventress (Futterman), iria resgatar a criança.

Contudo, o que nem o líder Hutt, nem os jedi inicialmente sabem é que, na verdade, quem raptou o pequeno foi a própria Ventress, a comando de seu mestre. Porém, ao invés de simplesmente entregá-lo para o pai, e aproveitar a recompensa, os vilões preparam uma armadilha para Anakin e Ahsoka, deixando que eles levem o menino por um certo tempo, para então poderem acusá-los de serem os reais sequestradores, colocando Jabba contra a República. O plano então seria derrotar os dois jedi e, só então, devolver o jovem Hutt… ou pelo menos é o que parece. A verdade é que o plano completo dos vilões, se realmente analisado, é tão complexo, tão cheio de variáveis, e tão estranhamente saturado de reviravoltas, que não seria difícil concluir que as personagens, ou, pior, os roteiristas, estavam simplesmente improvisando.

Ademais, essa não é a única estranheza do roteiro de “Star Wars: A Guerra dos Clones” (dir. Dave Filoni, 2008). Outra particularidade é sua inusitada estrutura. Este filme serve, claramente, como uma espécie de episódio piloto para a série “Star Wars: A Guerra dos Clones” (2008-2020), lançada mais tarde naquele mesmo ano, e, talvez por causa disso, o longa se estrutura de uma maneira que mais se parece com três ou quatro episódios aglutinados do que com um longa-metragem concebido como tal. Uma forma de se perceber isso é notando que os episódios do seriado são sempre introduzidos por uma narração, que explica resumidamente o contexto do capítulo que está prestes a começar (substituindo os tradicionais letreiros da franquia), e que o filme não só é introduzido por uma narração, mas também possui duas ou três outras, que aparecem no decorrer da exibição, resumindo algum acontecimento transcorrido entre duas cenas. O resultado dessa aparente “colagem” de episódios é que a história não flui muito bem, e a narrativa fica notoriamente desajeitada, culpa também da montagem do filme (Jason Tucker) .

Isso também explicaria um aspecto que é, no mínimo, curioso sobre este longa: a premissa. A história deste capítulo da saga centra-se entorno de nada mais que, bem, o resgate de um bebê. Aliás, o resgate de um bebê não para vencer uma batalha, criar uma estratégia complexa, ou por simples heroísmo, mas sim para ganhar uma, talvez pequena, vantagem espacial na guerra. Se comparada com, por exemplo, os outros títulos da franquia, ou com episódios da própria série, a história deste filme realmente mais se parece com a de um episódio piloto do que com a de um longa-metragem de Star Wars. E, mesmo com essa simplicidade da premissa, o filme faz de tudo para tentar estendê-la o máximo que consegue.

Outras questões um tanto falhas são a animação e design das personagens. Quanto a animação, penso que os modelos das personagens, feitos em computação gráfica, devem ter sido pensados e modelados tendo em mente, sobretudo, as cenas de ação, visto que, enquanto nesse tipo de cena, em geral, a movimentação deles parece bem fluida e natural, em cenas de diálogos ou sem muito movimento esses mesmos modelos parecem duros e um pouco artificiais, lembrando personagens de videogame. Já quanto ao design, as personagens são desenhadas de um modo bastante estilizado, com contornos geométricos, olhos grandes e claras linhas de expressão, algo que em si não é um problema, mas que se torna desconfortável a partir do momento em que o filme passa a usar, com certa frequência, planos fechados no rosto das pessoas, algo que acaba evidenciando a estranheza de alguns desses desenhos, a dureza e artificialidade de seus modelos 3D e, pior de tudo, o quão mal a animação envelheceu com o passar dos anos.

No entanto, deve-se ressaltar que a maior parte da equipe artística da obra faz um trabalho muito bem feito: os cenários, a iluminação, os efeitos visuais, a direção de arte, a música, enfim, tudo aquilo que ajuda a construir esse universo dentro do contexto animado merece, ao menos, uma menção honrosa. Além disso, por mais robótica que seja a animação da maioria dos personagens humanoides, ela acaba funcionando bem nos droids, que, afinal, são robôs, e nos clones — além de funcionarem, como já citado, nas cenas de ação.

Essas cenas, inclusive, são de longe as mais divertidas e empolgantes do filme, mesmo que nem todas sejam perfeitas. Se o aperfeiçoamento dos efeitos especiais aumentou os limites do que se poderia fazer nos filmes de Star Wars, e a trilogia prequel tomou vantagem disso — até demais eu diria —, recriar esse universo em animação praticamente elimina todos os limites restantes, criando infinitas possibilidades para as cenas de ação: desde duelos de sabre de luz mais tradicionais, até batalhas na vertical subindo por despenhadeiros, passando por fenomenais batalhas espaciais entre naves. Quanto a pelo menos esse aspecto, “Guerra dos Clones” acerta em cheio.

O que é infeliz, porém, é que esses acertos não são suficientes para se sobreporem aos seus erros. No final das contas, “The Clone Wars” é um filme medíocre, com um roteiro e montagem muito mal trabalhados, animação de personagem constantemente incômoda e uma história simples que é “esticada” o máximo possível para poder preencher o tempo de projeção. Dentre os filmes da franquia, este não é o pior, mas está longe das maravilhas de que essa saga é capaz, mesmo com as suas boas cenas de ação e as ótimas qualidades da produção.

As Cores do Amor (2021) – Crítica

Colors of Love | Official Trailer - YouTube

nota: D

PÚBLICO: ½
  • Título Original: Colours of Love
  • Direção: Bradley Walsh
  • Roteiro: Emily Golden (baseado em “The Tycoon’s Kiss“, por Jane Porter)
  • Produção: David Anselmo
  • Elenco: Dennis Andres, Michael Brown, Jenni Burke, Delia Lisette Chambers, Darlene Cooke, Andrea Davis, Jessica Lowndes, Chad Michael Murray, etc.
  • Gênero: Drama, Romance
  • Duração: 88min (1h28min)
  • Classificação: G (MPAA)

Terrível

“É recheado de clichés, personagens mal construídas, diálogos mal escritos, além de previsibilidade e sentimentalismo lindamente assombrosos”

Taylor (Lowndes), depois de ser subitamente demitida de seu emprego como bibliotecária, decide visitar seu irmão Craig (Andres), que vive na cidade de Forest Ridge, no interior do estado de Montana. No caminho, após passar por dois ou três planos de imagens de arquivo, Taylor acaba, por causa do gelo na estrada, atolando (lentamente) seu carro no acostamento. Por sorte, ela é ajudada por um estranho que estava passando pela rodovia, que decide levá-la para a casa do irmão. Ela e o bom samaritano se dão bem, e, ao chegarem ao destino, combinam de se encontrarem novamente, enquanto ela estivesse na região.

Acontece que aquele que a ajudou é Joel Sheenan (Murray), um rico empresário de tecnologia, que está visitando a cidade para comprar um hotel tradicional do lugar, o Graff Hotel, onde Craig trabalha. Contudo, os habitantes da cidade não parecem muito felizes com a compra, pois o novo proprietário tem planos para fazer reformas drásticas no estabelecimento, algo que muitos, incluindo o irmão da protagonista, são contra. Assim, Taylor, ao descobrir sobre isso, é confrontada por um dilema: ajudar a salvar o hotel, ou tentar ter algum relacionamento com Joel, a despeito de suas intenções com o local.

Imediatamente, um problema já aparece, que é o fato de que isso não é bem um dilema, muito menos um que consiga sustentar um longa metragem. E tanto não é, e o filme sabe disso, que ela simplesmente escolhe fazer as duas coisas: ela tenta ajudar o irmão, usando sua experiência como bibliotecária para tentar provar que algo historicamente importante aconteceu naquele hotel, o que impediria sua renovação, E começa a se aproximar de Sheenan, que a aceita de bom grado, mesmo sabendo dos esforços dela para estragar seus planos. Essa escolha de Taylor, porém, não impediu que o resto das personagens agissem, por uma boa parte do longa, como se as duas alternativas fossem completamente incompatíveis. Mas é também por causa dessa falta de conflito que a narrativa acaba tendo que recorrer a alguns clichés bem inconvenientes, só para o enredo ter algum lugar para onde progredir.

Fora isso, existe ainda uma inconsistência quanto a reforma do hotel: aparentemente, por causa de alguma burocracia, o conselho da cidade tem que aprovar a reforma para que ela possa ocorrer, sendo que, como fica estabelecido bem cedo na narrativa, a maior parte da cidade é contra a mudança. Se esse é realmente o cenário, então qual o grande medo de um projeto que não será aprovado? Pior, para que então todo o esforço de achar evidencias de um evento histórico que aconteceu naquele lugar, se o resultado seria o mesmo de qualquer jeito? Além do mais, nunca fica explicado o porquê desses cidadãos serem tão “apegados” a esse hotel. Sim, ele é antigo e tradicional, mas o único que tem um motivo explícito para a sua preservação é Craig, que teme pelo seu emprego.

Não bastasse um dos conflitos principais do filme não ser bem um conflito, e o longa contar com pelo menos três estranhas inconsistências, o terrível roteiro de “As Cores do Amor” (dir. Bradley Walsh, 2021) também é recheado de clichés, personagens mal construídas, diálogos mal escritos, além de previsibilidade e sentimentalismo lindamente assombrosos. Toda a apresentação e desenvolvimento das personagens, desde a primeiríssima cena, é feita exclusivamente por diálogos expositivos. Uma personagem importante não é introduzida sem que antes alguém decida, de repente, citar algumas informações sobre eles, coincidentemente informações que serão de alguma forma relevantes em alguma cena futura.

Uma das consequências de se construir as personagens dessa maneira é que, não é nenhuma surpresa, todas ficam superficiais. Fora aquilo que é soletrado para o público por algum coadjuvante, as informações que se tem sobre o casal principal consistem das mais básicas possíveis, normalmente algo relacionado à profissão deles. E isso porque são os “principais”, as personagens secundárias raramente tem esse privilégio de ter algum semblante de personalidade.

Isso talvez não fosse um problema tão grande se os atores entregassem boas performances, o que, infelizmente, não acontece. Todas as atuações variam entre notoriamente amadoras, monótonas, ou simplesmente ruins. Todas as personagens têm pelo menos uma cena cuja atuação (e o texto, diga-se de passagem) é digna de uma peça escolar. Mesmo que Chad Michael Murray e Jessica Lowndes, admito, tenham certa química em cena, quando os dois são obrigados a atuar em alguma situação um pouco mais dramática, o resultado é simplesmente tosco. E isso também não seria tão problemático se o filme não tivesse uma direção igualmente decepcionante.

“Colours of Love” é um filme tosco. Previsível e bobo até o final, esse é o tipo de romance descompromissado que, depois de passar na sessão da tarde, é imediatamente esquecido. Certamente é um filme que tem o seu público, e decerto que com ele o longa terá um apelo infinitamente maior — o que não conserta, nem atenua, suas diversas falhas. É incoerente, cliché, mal escrito, mal atuado e, principalmente, não consegue construir personagens que consigam segurar a sua frágil narrativa.


“As Cores do Amor” está disponível no para aluguel e/ou compra no Google Play, Microsoft Store, Claro Vídeo e iTunes/Apple TV.

A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (2021) – Crítica

The Mitchells vs. the Machines (2021)

nota: A-

CRÍTICA: ★★★★ PÚBLICO: ★★½
  • Títulos Alternativos: Os Mitchell Contra as Máquinas / Super Conectados
  • Título Original: The Mitchells vs. the Machines
  • Direção: Michael Rianda
  • Roteiro: Mike Rianda e Jeff Rowe
  • Produção: Kurt Albrecht, Phil Lord e Christopher Miller
  • Elenco (voz): Abbi Jacobson, Danny McBride, Maya Rudolph, Michael Rianda, Eric André, Olivia Colman, Fred Armisen, Beck Bennett, Doug the Pug, etc.
  • Gênero: Animação, Aventura, Comédia
  • Duração: 113min (1h53min)
  • Classificação: Livre (BRA), PG (MPAA), PG (CAN)

Katie Mitchell (Jacobson) sempre foi apaixonada pelo cinema. Desde pequena se divertia fazendo filmes amadores e criando suas histórias, sempre com títulos igualmente absurdos e divertidos. Considerada “exótica”, e sem muita relação com seus colegas de escola, que não compartilhavam de seus gostos, Katie tinha nos filmes um refúgio. Os únicos que tinham interesse e participavam em seus projetos eram seu irmão mais novo, Aaron (Rianda), e o cachorro/porco/pão-de-forma da família, um pug chamado Monchi (Doug), estrela de vários de seus filmes.

Agora aos 18 anos, Katie tem a oportunidade de realizar um de seus maiores sonhos: estudar cinema em uma universidade da Califórnia (ela vive em Michigan). No entanto, após ser aceita pela instituição, ela acaba tendo um desentendimento com seu pai, Rick (McBride), que tem certas ressalvas quanto ao que ela faz e à possibilidade dela ganhar a vida com isso. Linda (Rudolph), mãe da família, então incentiva Rick a tentar reparar os danos da briga, já que a filha iria viajar para longe e ele poderia perder essa oportunidade.

Após refletir sobre o assunto, o pai decide cancelar o voo da filha para a Califórnia e organizar uma viagem de carro em família, atravessando o país para levar Katie à faculdade. Inicialmente ela não gosta muito da ideia, mas acaba aceitando por falta de opção e insistência dos pais.

Enquanto isso, no vale do Silício, Mark Bowman (André), um empresário de tecnologia, anuncia que sua empresa, a PAL, estaria criando uma nova linha de robôs ajudantes para substituir os seus assistentes virtuais, presentes nos celulares da companhia. A assistente PAL (Colman) do próprio Mark, que tem uma consciência própria, fica revoltada com a substituição, e resolve tomar controle sobre todos os novos robôs e dar início a uma revolução das máquinas, os fazendo capturar todos os humanos da terra, com planos de lançá-los ao espaço.

E é nesse cenário apocalíptico que a família Mitchell começa a sua jornada pelo interior dos Estados Unidos, em que eles serão forçados a conviver e sobreviver juntos, com todos os estranhamentos e dificuldades que a situação (e a companhia) impõem sobre o grupo, talvez se tornando heróis no processo.

A primeira vista, “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” (dir. Michael Rianda, 2021) pode não parecer a história mais original do mundo, nem ter a premissa mais cativante, afinal, uma “revolta das máquinas”, uma “viagem em família”, uma “protagonista adolescente e desajeitada” e uma “família sobrevivendo a uma situação extrema”, não são ideias exatamente inovadoras, muito pelo contrário, já devem ter sido feitas milhares de vezes, em milhares de outras obras. Contudo, o filme faz tudo ao seu alcance para compensar isso, pois em quase todos os outros aspectos, o longa é um absoluto sucesso.

A começar pela a animação e o design das personagens. Boa parte do filme é feita, em maior ou menor grau, de modo a emular o estilo dos filmes amadores de Katie, contando com, por exemplo, desenhos e artes em 2D “rabiscados” na tela, algo que poderia facilmente ficar estranho em uma animação em três dimensões. No entanto, o design de personagem é feito de maneira a também simular uma aparência bidimensional; seria como se as personagens fossem concebidas e desenhadas em 2D e só então então moldadas e animadas em 3D, algo parecido com que a Pixar já fez em “Os Incrívieis” (dir. Brad Bird, 2004), e que a Sony, a mesma produtora deste filme, experimentou em “Homem-Aranha no Aranhaverso” (dir. Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, 2018). Esse aspecto, que já tinha ajudado a integrar os estilos diversos de “Aranhaverso”, ajuda não só a incorporar os “rabiscos” de Katie na animação de “Mitchells”, mas também a dar ao longa uma animação mais fluida e rápida, algo perceptível durante as cenas de ação.

O filme conta também com um humor divertidíssimo, que satiriza a sociedade contemporânea e a sua obsessão com a tecnologia, criando piadas que tiram sarro não só dessa questão, mas também brincam com os próprios temas e premissas do longa. A não-originalidade já citada, se apresenta no filme com uma dose de autoconsciência do roteiro; e esse self-awareness se traduz em referências, alusões e subversões inteligentes, que só adicionam à hilária comédia da obra. E como já apontado, algumas sequências emulam os efeitos e a edição de Katie em seus projetos, que, além de incluírem os desenhos na tela, também envolvem a inserção de memes, que aparecem ocasionalmente e, surpreendentemente, funcionam nos contextos que são inseridos.

Deve-se notar, contudo, que as críticas à tecnologia, à sociedade do século XXI e o uso de memes, por mais engraçados ou inteligentes que sejam para nós que vivemos neste momento da História, não é difícil perceber como essas questões, e, como consequência, este longa-metragem, poderão ficar muito facilmente datadas em um tempo futuro, algo que talvez debilite a apreciação do filme pelas próximas gerações. (Só não arrisco afirmar isso com certeza pela possibilidade da preservação de parte do contexto pela nostalgia, mais ou menos como ainda existe uma apreciação de certos filmes dos anos 1980, cuja estética e contexto sobrevivem no imaginário popular, mesmo quando datados).

Porém, o que realmente brilha em “A Família Mitchell”, e algo que talvez nunca fique datado, é, bem, a própria família. A relação das personagens, em especial o vínculo entre pai e filha, é o principal tema do filme, um fio condutor da narrativa; e o desenvolvimento dessas relações, assim como a evolução dos personagens individualmente, é feito maravilhosamente bem, criando personagens incrivelmente cativantes e reconhecíveis, e acarretando em alguns dos momentos mais emocionantes do filme. E como se não fosse o suficiente, a mensagem que fica é uma sobre relacionamento familiar, sobre paternidade, aceitação e, sobretudo, sobre os sacrifícios que fazemos para aqueles que amamos.

The Mitchells vs. the Machines” é superdivertido. É um filme que consegue subverter as próprias falhas e transformá-las em piada; é um que consegue entreter até o último minuto; um que transpira uma inventividade inspiradora; que faz uma critica social interessante sobre o mundo moderno; e, finalmente, é um filme que tem no seu centro mensagem madura e muito bem trabalhada, e que é acima de tudo sobre a união de uma família mesmo nas condições mais extremas. Claro, não é sem seus defeitos: tem alguns furos de roteiro, alguns clichés, além possibilidade de ficar datado, mas isso não muda que este é, junto com “Aranhaverso”, uma das melhores animações de seu estúdio  — e talvez uma das melhores do ano.

(9º Olhar de Cinema: dia 2) Um Filme Dramático (2019) – Crítica

Un Film Dramatique (2019)
COMPETITIVA

nota: B+

Avaliação: 4 de 5.
PÚBLICO: ★★★
  • Título Original: Un Film Dramatique
  • Direção: Eric Baudelaire
  • Produção: Eric Baudelaire
  • Elenco:  David Pop, Anida Ait Abdesselam, Fatimata Sarr, etc.
  • Gênero: Documentário, Ficção Científica (hehe)
  • Duração: 114 min (1h54min)
  • Classificação: 12

FILMES ANTERIORES:

Dia 1

OUTROS FILMES DO DIA 2:

  • (COMPETITIVA) NASIR (dir. Arun Karthick, 2020) B
  • (COMPETITIVA) NOITE PERPÉTUA (dir. Pedro Peralta, 2020) ★★★★
  • (COMPETITIVA) CHÃO DE RUA (dir. Tomás von der Osten, 2019) ★★★★
  • (COMPETITIVA) O MÁRTIR (dir. Fernando Pomares, 2020) ★★★★
  • (COMPETITIVA) O SILÊNCIO DO RIO (dir. Francesca Canepa, 2020) ★★★★

Como parte de uma tradição na França, explica o diretor Eric Baudelaire numa entrevista dada à equipe de curadoria do Olhar de Cinema, 1% do orçamento de obras para construção de estabelecimentos públicos é destinada à comissão de um trabalho artístico, normalmente sendo uma escultura ou algo que integre à arquitetura do local. Contudo, para a construção da escola Collége Dora Maar, no subúrbio de Paris, a obra de arte comissionada foi algo mais imaterial: um filme. Então, com a ajuda de alunos voluntários, “Um filme dramático” (dir. Eric Baudelaire, 2019) foi construído usando uma colagem de imagens amadoras filmadas pelas crianças, combinados de um registro do esforço delas no fazer dessas imagens, junto com parte dos diferentes cotidianos de cada criança, num processo de quatro anos. E o resultado é mais do que satisfatório.

Imediatamente, na cena inicial do documentário, é possível ver e sentir um dos aspectos mais cativantes do filme. A cena consiste em alguns dos alunos sentados juntos em uma mesa discutindo como eles irão fazer seus filmes, e isso é só o primeiro momento que traz consigo aquela maravilhosa ingenuidade infantil quanto ao cinema. É algo tão puro, tão inocente e, pelo menos para mim, tão maravilhosamente reconhecível, que não há como não estabelecer uma conexão com aquelas crianças nos seus objetivos. Essa visão criativa e infantil do cinema está impregnada em diversas partes do filme e é uma das suas características que mais conseguem manter constante o interesse.

Não só isso, mas também a maneira que esses jovens vêm e interpretam o mundo “adulto”, muito provavelmente copiando as opiniões de seus pais, é algo interessante por si só. Ver esses “pequenos adultos” discutindo coisas como política, descendência e geografia, usando argumentos e contra-argumentos regularmente baseados em absolutamente nada, estendendo essa discussão por algum tempo e então decidindo ver quem está certo na internet, para só então nenhum dos dois lados chegar a nenhum consenso é cativante demais.

E essas partes são ainda mais acentuadas por causa dos acontecimentos importantes que estavam se desenrolando na França na época das filmagens, quais sejam a eleição presidencial de 2017 e os (naquela época) recentes ataques terroristas ao país. As discussões desses momentos invadem as salas de aula e as imaginações dos alunos, provocando debates, opiniões e questionamentos que, sob o olhar honesto e de certa forma ingênuo das crianças, mesmo que às vezes claramente influenciado pelos pais, se transformam em questionamentos realmente importantes e difíceis até de um adulto responder. Um dos momentos mais impactantes é justamente quando uma das meninas pergunta ao seu pai o porquê de quererem expulsar os imigrantes do país.

Outros dois aspectos que também adicionam à essas dinâmicas escolares é a multiculturalidade da turma, contando com vários alunos filhos de imigrantes, e a distância da escola do centro de Paris, tendo como consequência uma recorrente falta de identificação de si mesmos como “parisienses”.

Com essas características, o filme mostra um profundo respeito com esses futuros cidadãos, de maneira que a obra se torna, de certa perspectiva, uma ode à infância, e mais do que isso, uma homenagem às liberdades, aos questionamentos, à criatividade e à inocência desse período da vida, que é sinceramente bonito de se ver representado assim. É também interessante notar que o longa lembra um pouco o incrível “Ser e Ter” (dir. Nicholas Philibert, 2002), outro documentário francês que também compartilha desse respeito, mas com crianças ainda mais novas.

Porém, como já citado, a produção de “Um filme dramático” demorou quatro anos, e, conforme o filme progride, é possível ver tanto o crescimento dos alunos quanto um certo melhoramento e maior profissionalismo deles com a câmera e com as imagens que registram. Na medida do possível, o espectador acompanha essa evolução ao mesmo tempo que vê o amadurecimento daqueles jovens que, se no início do doc saíam por aí filmado qualquer coisa sem muita preocupação, ao final já se preocupam com iluminação e posicionamento da câmera. Como o diretor comenta naquela entrevista, ele é um cineasta autodidata e, ao aceitar o trabalho, não queria ensinar diretamente aquelas crianças, mas queria que elas também viessem a aprender essa arte na prática, o que, em certa medida, foi o que aconteceu.

Se eu tenho algum problema com este filme é que ele é um pouco longo demais. Sinto que algumas cenas, especialmente algumas feitas pelos estudantes, poderiam facilmente ser cortadas sem muito prejuízo ao produto final.  

Un film dramatique” é um bom documentário. Deixando as crianças contarem suas histórias e se expressarem por meio do cinema, mostrando sua inteligência e criatividade, esse filme até simples consegue fazer maravilhas e deixar um ar nostálgico. Talvez seja um pouco longo demais, mas certamente consegue conectar com o espectador e, sem dúvida, mostra o impacto e a certa magia que o cinema certamente tem ao se conectar conosco durante a infância.

(9º Olhar de Cinema: dia 1) Para Onde Voam as Feiticeiras (2020) – Crítica

Para onde voam as feiticeiras”, selecionado para Festival de Cinema  Latino-Americano de Toulouse, ganha cartaz oficial
FILME DE ABERTURA

nota:

Avaliação: 4 de 5.
PÚBLICO: ★★★
  • Direção: Eliane Caffé, Carla Caffé, Beto Amaral
  • Produção: André Montenegro, Rui Pires
  • Elenco: Ave Terrena Alves, Fernanda Ferreira Ailish, Gabriel Lodi, Mariano Mattos Martins, Preta Ferreira, Thata Lopes, Wan Gomez, etc.
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 89 min (1h29min)
  • Classificação: 14

Acompanhando um grupo de artistas e performers LGBTQIA+ (Alves, Ailish, Lodi, Martins, Ferreira, Lopes, Gomez), o documentário “Para onde voam as feiticeiras” (dir. Eliane Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral, 2020) registra uma série de intervenções e performances artísticas feitas por eles no centro de São Paulo. Essas apresentações levantam questões de gênero, sexualidade e de minorias em geral, as levando para o tumultuado espaço urbano da maior cidade do país e demonstrando, ao mesmo tempo, a aceitação da diversidade de alguns cidadãos e a completa intolerância de outros. 

Não se limitando a mostrar apenas essas performances, o filme alterna entre elas e imagens dos artistas discutindo sobre questões minoritárias e/ou sobre de que maneira expressá-las artisticamente para o público na rua. Além disso, o documentário insere, de vez em quando, depoimentos dos integrantes do grupo sobre esses mesmos assuntos, mas, normalmente, mais relacionados às suas próprias experiências. 

Desses três “conjuntos” de imagens, e da montagem (Eliane Caffé) que é feita com elas, derivam dois problemas que o longa apresenta quanto ao seu formato e à comunicação de seus temas. Esses problemas são que, em primeiro lugar, o filme não parece saber, pelo menos não com certeza, para quem ele está “falando”; isto é, quem é que os realizadores viam como o público alvo do projeto. Em segundo lugar, a maneira como ele é editado não dá um formato muito definido ao doc; as imagens, quando juntas, não formam um agrupamento muito coeso, nem se conformam a uma forma específica de documentário, o que está de certa maneira atrelado ao primeiro ponto (de desconhecimento do público).

Esses dois aspectos ficam evidentes, quando, por exemplo, as suas personagens decidem, umas poucas vezes, explicar diretamente certo conceito ou ideia que talvez fuja ao conhecimento do público em geral, mas seja conhecido dentro do movimento e teorias LGBTQIA+. Essa intenção poderia demonstrar que 1, o filme tenta atingir um público mais amplo, que incluiria pessoas leigas sobre tais questões, e que 2, o documentário além de ser simplesmente observativo, mostrando as performances artísticas e seu planejamento, teria algo também de expositivo ou explicativo. Contudo, não só essas (poucas) cenas são cortadas no meio da explicação, mas o filme vai tratar em outros momentos de conceitos que simplesmente não são explicados; atitude essa que vai de encontro àquela que se estava tendo anteriormente. Da mesma forma, essas explicações são tão isoladas umas das outras que parecem estar ali por acaso.

Acontece algo parecido com os depoimentos, que, mesmo sendo mais recorrentes e servindo a função de apresentar as personagens mais individualmente, parecem deslocados do resto do longa —  não parecendo existir uma regra para quando eles acontecem — , e novamente põe em dúvida que formato o documentário “quer” seguir. 

Mesmo com as considerações feitas, o filme certamente tem seus pontos positivos, principalmente no que se refere aos relevantes pontos e discussões que levanta sobre minorias e às intervenções artísticas em si.

No decorrer do doc, se abrem diversas discussões sobre grupos excluídos, principalmente nos momentos entre as performances, em que se discute seus temas e como elas irão acontecer. Nessa perspectiva, essas cenas servem tanto para mostrar que esses movimentos sociais não são uma coisa única, sem suas discussões internas, quanto para dar visibilidade aos temas que são trazidos ao debate. Por exemplo, um tema que é levantado algumas vezes e que parece ser uma parte bastante central do filme é o da interseccionalidade, isto é, a sobreposição de identidades sociais minoritárias e como elas afetam o preconceito que é sofrido por alguém que faz parte delas. O movimento negro, indígena, feminista, sem-teto, além, é claro, do LGBT+, se integram assim em várias partes da obra, mostrando seus sofrimentos e trazendo suas pautas à mesa.

Porém a parte central do filme, pelo menos na superfície, são as intervenções feitas nas ruas de São Paulo. Música, dança e fantasias são usadas para chamar a atenção e abordar os transeuntes sobre essas questões, esclarecer pré-concepções e protestar contra os preconceitos. É o espaço público sendo usado para a conscientização e expressão artística, algo essencial e que é bem executado por pessoas claramente talentosas. 

Além disso, essas apresentações também evidenciam a ignorância e preconceito ainda presentes na sociedade, isso porque mesmo elas tendo atraído pessoas simpáticas ao movimento, também atraíram pessoas intolerantes. Em alguns momentos no longa, se mostra exemplos que vão desde um grupo de pessoas que claramente não sabia o que cisgênero significava, até um pastor praguejando contra sua visão bastante distorcida da homossexualidade, enquanto cercado de fiéis. Visto dessa forma, essas partes do filme o tornam, além de tudo, um registro de um experimento social bastante interessante.

Registro, expressão artística, manifesto, conscientizador e possuidor de grande representatividade e respeito, “Para onde voam as feiticeiras” é um filme razoável. Certamente tem certos problemas de foco e de formato, mas isso não apaga suas boas intenções. A arte mostrada em tela é bem pensada e executada, não restando dúvida de que o trabalho final consegue representar pelo menos alguns desses papéis com um sucesso animador.

Popeye the Sailor Meets Sindbad the Sailor (1936) – Crítica

Jack Mercer and Gus Wickie in Popeye the Sailor Meets Sindbad the Sailor (1936)

nota: ★★★½

Público: ★★★½
  • Direção: Dave Fleischer e Willard Bowsky
  • Produção: Max Fleischer
  • Elenco: Jack Mercer, Gus Wickie, Mae Questel, Lou Fleischer
  • Gênero: Animação, Aventura
  • Duração: 16min

Bom

“Algo que impressiona, principalmente considerando-se a época em que o curta foi feito, é a animação.”

Uma variada coleção de animais exóticos e criaturas mitológicas, como leões, um enorme pássaro e um gigante bicéfalo, são mantidas presas em uma ilha sob o domínio de Sindbad (Wickie), o autodeclarado “maior marinheiro do mundo”. Um dia, Sindbad avista um pequeno barco nos arredores da ilha; nele estão o Marinheiro Popeye (Mercer), Olívia Palito (Questel) e Dudu (Fleischer). Após ouvir o outro marinheiro cantarolando, e, por causa da cantoria, ter sua música de abertura interrompida, se sente desafiado por Popeye pelo título de maior marinheiro. Decide então sequestrar Olívia, que tinha, também, chamado sua atenção, e afunda o barco.

Os outros dois escapam ilesos e vão para ilha, onde o primeiro vai ao resgate da amada, enquanto o outro passa a perseguir um pato (prioridades). Os dois marujos se encontram e entram em combate. Sindbad, com seu exército de criaturas e sua força bruta conseguiria facilmente superar Popeye, não fosse, é claro, uma lata de espinafre.

Quanto a história, é fácil perceber que “Popeye the Sailor meets Sindbad the Sailor” (Dir. Dave Fleischer e Willard Bowsky, 1936) não é muito diferente de outras da personagem: alguém se encanta por Olívia, provocando Popeye, que vai resgatá-la para si lutando contra o outro pretendente; então, depois de perder por um tempo, o marujo caolho come espinafre e (surpresa, surpresa) vence a luta. O que se diferencia aqui é, principalmente, o cenário da ilha, os monstros que nela habitam e a competição entre os dois de quem é o maior marinheiro. A personagem de Sindbad, que pode parecer nova a este universo pela descrição, nada mais é que um design um pouco diferente do Brutus, o adversário habitual, tendo inclusive o mesmo dublador. Isso é algo bastante comum em desenhos antigos: mudar os cenários e até o contexto, mas manter uma mesma fórmula, já conhecida.

Algo que impressiona, principalmente considerando-se a época em que o curta foi feito, é a animação. Além de ser a primeira aparição de Popeye em cores, o desenho utiliza-se do “processo estereóptico”, uma técnica de animação em que se os desenhos são fotografados, quadro a quadro, em frente a uma maquete, dando a impressão de um plano de fundo tridimensional. Esse processo não é usado em todas as cenas, mas nas que ele é, é bem impressionante. O produtor Max Fleischer foi pioneiro ao criar esse e outros métodos de animação, estando também a frente da criação e desenvolvimento de outros cartoons clássicos como Betty Boop e as animações mais antigas do Super-Homem. Os designs dos personagens novos também é muito bom, especialmente dos monstros. 

Todavia, existem dois aspectos neste curta que não são muito bons. O primeiro é a dublagem de certas personagens, em especial a das criaturas da ilha, que, se comparada a dos principais parece até um pouco improvisada. O segundo é o timing da comédia. O humor do curta se baseia muito em comédia pastelão (slapstick), com apelo grande para humor físico e violência entre as personagens, o que requer, para ser realmente engraçado, um timing preciso, algo que não é muito presente aqui. O resultado são personagens se batendo de maneira desajeitada, sem ser nem muito engraçado, nem um desastre absoluto.

Contando com inovações para o seu tempo e alguns designs novos, este é até hoje o único filme do Popeye a ser indicado ao Oscar, algo que o destaca dentre os outros, ainda que a história se utilize da mesma fórmula. O desenho, ao mesmo tempo, sofre com uma dublagem pobre em algumas personagens, combinada com evidentes falhas no timing do humor físico. Porém, alguns desses problemas podem muito bem ser justificados pela época em que filme foi feito, com suas limitações técnicas e tecnológicas, o que é bastante compreensível. No final das contas, esta é uma boa animação.

(Série #2.1) Rectify – 1ª Temporada (2013) – Crítica

Abigail Spencer and Aden Young in Rectify (2013)

nota: B+

CRÍTICA:   PÚBLICO:
  • Criação: Ray McKinnon
  • Direção: Keith Gordon, Billy Gierhart, Nicole Kassell, Jim McKay, Romeo Tirone e Ray McKinnon (cada um dirigiu um episódio)
  • Roteiro: Ray McKinnon (4 eps.), Evan Dunsky (1 ep.), Graham Gordy (2 eps.) e Michael D. Fuller (2 eps.)
  • Produção: Don Kurt
  • Elenco: Aden Young, Abigail Spencer, J. Smith-Cameron, Adelaide Clemens, Clayne Crawford, Luke Kirby, Bruce McKinnon, Jake Austin Walker, Michael O’Neill, J.D. Evermore, Johnny Ray Gill etc.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 6 episódios de 46min (276min ou 4h36min)
  • Classificação: TV-14

Episódios:

S01E01 – Aways There (P: )

★Top2

S01E02 – Sexual Peeling (P: )

★ Pior

S01E03 – Modern Times (P: )

S01E04 – Plato’s Cave (P: Pior)

S01E05 – Drip, Drip (P: ★Top2)

S01E06 – Jacob’s Ladder (P: ★Melhor)

★Melhor

(Crítica sem spoilers, por ser a primeira temporada)

Após ser condenado pelo estupro e assassinato de uma garota e passar 19 anos no corredor da morte, Daniel Holden (Young) é solto por causa de uma nova análise de DNA. Durante o tempo que passou encarcerado, tinha pouco contato humano (e o que tinha era normalmente hostil), vivia numa cela minúscula e praticamente sem comunicação com o mundo exterior. Então, após passar quase duas décadas de sua vida nessa situação, ele é solto. Lá fora, o mundo mudou e sua família também, todos agora o conhecem e o julgam culpado ou inocente, ele passa a ter diversos traumas, dificuldades de interação e ainda arrisca sofrer uma nova sentença. Enfim, ele foi retirado da sociedade e, de repente, jogado de volta nela.

Um dos temas mais recorrentes da primeira temporada de “Rectify” (2013-2016) é o da desconexão, e, ainda mais, da dificuldade de religação, de Daniel com essa nova realidade e com esse mundo, abandonado há tanto tempo. Quando foi preso, ele era um jovem nos anos 1990, agora, ele é um adulto nos anos 2010; esse choque de realidades (praticamente uma viagem no tempo) é bem explorado na série, mostrando Daniel como alguém perdido, distanciado de todos, com dificuldade de mostrar ou reagir a afeto e a outras emoções, um morto-vivo.

Durante sua ausência, seu pai veio a falecer. Sua mãe (Smith-Cameron) acabou casando novamente e, com esse casamento, ganhou dois enteados: Ted Jr. (Crawford) e Jared (Walker). Pelo que a temporada mostra, nenhum desses familiares batalhou muito para provar sua inocência, deixando isso, em grande parte, a cargo de sua irmã, Amantha (Spencer), e de seu advogado, Jon Stern (Kirby). Amantha é uma das únicas pessoas que conseguem se relacionar mais proximamente com Daniel após a sua soltura. O resto da família, em sua maioria, apesar de ficar feliz em vê-lo livre novamente, sempre age com um certo constrangimento, que demonstra uma distância entre eles. A única exceção à alegria, dentro do núcleo familiar, é Ted Jr. que fica, de início, indiferente e com certas ressalvas.

Já ressalvas são o mínimo que outras pessoas têm quanto à soltura de Holden. Em especial, Roland Foulkes (O’Neill), um senador, e Carl Daggett (Evermore), um xerife local, estão convencidos de que ele é culpado e se comprometem a achar maneiras de, finalmente, condená-lo à cadeira elétrica. O principal argumento usado por eles é que Daniel, de fato, fez uma confissão — segundo os parentes, forçada — , que foi o que resultou na primeira condenação.

O primeiro episódio, mesmo que com alguns problemas, consegue se consolidar como um dos melhores da temporada. O que se destaca nele é, principalmente, a maneira como ele introduz a premissa básica da história, as suas personagens e as relações e conflitos entre os diferentes grupos de personagens (e faz isso logo nos primeiros minutos). O capítulo falha, porém, em apresentar certas informações de maneira natural. Em uma cena, por exemplo, o senador e o xerife, depois da soltura, discutem o caso da condenação, trazendo vários fatos a mesa por meio de diálogos expositivos escritos de maneira nada natural, especialmente se comparados aos diálogos do resto da première e da temporada como um todo.

Mas o que realmente move a história para frente são aquelas relações, introduzidas neste episódio, entre os grupos de personagens e entre eles e Daniel: enquanto a irmã e o advogado lutam para manter o irmão e cliente livre, os seus acusadores tentam incriminá-lo; Amantha não mantém as melhores relações com o resto da família pela falta de envolvimento deles com o caso; Ted Jr. quer evitar se envolver com o meio-irmão recém liberto; e por aí vai. E no meio desses conflitos e relações, está Daniel, nada acostumado com o mundo fora das grades.

Quanto ao protagonista, aliás, algo que adiciona à, já complexa, personagem de Holden é a excelente atuação de Aden Young. Além dele se destacar entre o ótimo elenco, ele também ajuda a consolidar uma outra camada à sua personagem que torna a história inteira mil vezes mais interessante e complexa: a ambiguidade.

Acontece que, mesmo que a série foque, principalmente, nessa personagem e em algumas que o consideram inocente (como sua irmã), nunca nos é mostrado, explicitamente, se Daniel é culpado ou não. Com a audiência deixada às cegas desse jeito, se cria um espaço para ambiguidade em praticamente toda cena, e tanto os roteiristas quanto Young se aproveitam incrivelmente disso. O tempo que ele passou acorrentado na “caverna de Platão” (como a própria série compara o tempo dele preso), também é usado para, além de desenvolver o protagonista, trabalhar esta constante dúvida: ele matou ou não?

Assim sendo, várias das atitudes, falas e comportamentos estranhos que Daniel Holden tem durante o decorrer dos episódios, além poderem normalmente ser justificados por sua falta de costume no mundo fora de sua cela, também podem ser motivados por algum tipo de loucura ou psicopatia, talvez anterior a sua prisão. Com essa mentalidade, o espectador acaba criando também alguma empatia com aqueles que o acusam ou se sentem, como seu meio-irmão, intimidados por ele. Daniel não reage ou mostra muitas emoções, vive falando e fazendo coisas estranhas e foi condenado por estupro e assassinato; essa perspectiva faz com que aqueles que, em outras circunstâncias, seriam considerados “vilões”, se tornem muito mais humanos e realistas.

Ao mesmo tempo, Daniel também é desenvolvido de modo bastante humano, especialmente na maneira como se contrasta, por meio de ocasionais flashbacks, o tempo dele dentro e fora do cárcere. Nessas memórias, é revelado que Daniel fez um amigo no corredor da morte, Kerwin Whitman (Gill), o preso da cela ao lado. Sem revelar muito, os dois mantém essa amizade apenas conversando pelos buracos de ventilação da cela, criando alguns dos momentos de maior simpatia da audiência com a personagem principal. Além disso, é claro, ele passou 19 anos naquele local e pode ter sido incriminado injustamente. Essa possibilidade, aliada aos momentos de simpatia e a uma determinada interpretação de suas atitudes, também torna justificável a crença em sua inocência.

De qualquer forma, a performance de Young, o roteiro e a direção conseguem passar essas duas conflitantes e concomitantes narrativas de maneira brilhante.

Bem escrita e atuada, brilhantemente ambígua e constantemente boa, a primeira temporada de “Rectify” é um sucesso. Os problemas que tem (como a exposição do primeiro episódio) são bem pontuais e, por isso, não poderiam ser discutidos em um texto sem spoilers. No geral, é um drama bem trabalhado, com personagens e relações bem construídas e desenvolvidas, resultando em um punhado de momentos impactantes e recheados de dubiedade emocional que só beneficiam esse bom início de série.