
nota: A-
CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★½
- Direção: Enrico Casarosa
- Roteiro: Jesse Andrews e Mike Jones (história de Enrico Casarosa, Jesse Andrews e Simon Stephenson)
- Produção: Andrea Warren
- Elenco (voz): Jacob Tremblay, Jack Dylan Grazer, Emma Berman, Saverio Raimondo, Maya Rudolph, Marco Barricelli, Jim Gaffigan, etc.
- Gênero: Animação, Comédia, Fantasia
- Duração: 95 min (1h35min)
- Classificação: Livre (BRA), PG (MPAA)
Ótimo
“É um longa que consegue ser, ao mesmo tempo, diferente de praticamente tudo que o seu estúdio já produziu, e familiar em todos os aspectos que importam”
Uma coisa que acho admirável sobre a Pixar é a maneira como eles conseguem, em seus filmes, usar premissas não muito originais, que já foram feitas outras vezes antes, mas executá-las de tal maneira a criar algo novo, diferente ou no mínimo incrivelmente interessante. “Brinquedos criam vida” foi feito antes de “Toy Story” (dir. John Lasseter, 1995); “pessoazinhas que vivem na sua cabeça e controlam suas emoções” foi feito antes de “DivertidaMente” (dir. Pete Docter, 2015); e existe ideia mais antiga do que “o que acontece antes/depois da vida”, usada em “Soul” (idem, 2020)?
A Pixar é mestre em pegar esse tipo de premissa e usá-la de uma maneira absolutamente excepcional. E esse também é de certa forma o caso de “Luca” (dir. Enrico Casarosa, 2021), mas de uma maneira um pouco diferente.
O filme conta a história de Luca Paguro (Tremblay), um jovem monstro marinho que vive com sua família nos mares próximos a riviera italiana. Acontece que Luca tem certa curiosidade pelo que há na superfície, principalmente por causa dos objetos que os humanos deixam cair no mar, mas sua família é completamente contra qualquer tipo de aventura que ele possa ter fora d’água, principalmente por causa do medo que eles têm dos seres humanos.
Um dia, contudo, Luca encontra um outro menino-peixe chamado Alberto (Grazer), que o leva até a terra firme, onde ele vive, isolado numa ilha. Quando saem da água, todos os monstros marinhos ganham uma aparência humana, mas isso não deixa Luca menos apavorado, não só por estar de verdade naquele lugar desconhecido, mas também por temer que seus pais descubram que ele foi até lá.
Alberto, então, passa a ensinar Luca sobre aquele empolgante, e apavorante, novo lugar, e no processo os dois acabam se tornando melhores amigos, compartilhando de um sonho em comum: viajar o mundo em uma lambreta Vespa.
Quando, porém, os pais de Luca descobrem sobre suas saídas até a ilha, e ameaçam mandá-lo para longe de casa, ele decide fugir com Alberto para a cidade dos humanos. Lá, eles se tornam amigos de uma menina chamada Giulia (Berman), que lhes apresenta uma competição cujo prêmio eles podem usar para, finalmente, comprarem a tão desejada Vespa. No caminho, eles terão que treinar para o evento, aturar um competidor arrogante, e se esconder dos pais de Luca, que estão a sua procura. Tudo isso enquanto tentam não ser descobertos pelo povo da cidade, que teme e odeia monstros marinhos.
E, dessa forma, com essa história, a Pixar faz sua magia e a transforma em algo que é muito mais do que uma história de “peixe fora d’água” (literalmente). Porém, não penso que o estúdio faz isso da mesma maneira que em outros trabalhos. Isso porque este não é um filme com uma trama mais intricada ou grandes conflitos, nem é um filme que trata de temas complexos, como apreciação pela vida ou problemas emocionais, é, na realidade, um filme bastante simples. Enquanto outras obras do estúdio compensam suas premissas com algo mais complexo de pano de fundo, esta, ao contrário, usa de sua simplicidade.
Com essa característica, o filme faz lembrar um pouco (e sei que não sou o primeiro a fazer essa comparação) alguns dos filmes do Studio Ghibli, como “Serviço de Entregas da Kiki (dir. Miyazaki Hayao, 1989)”, “Meu Amigo Totoro” (idem, 1988), ou até “Porco Rosso: O Último Herói Romântico” (idem, 1992) (que, aliás, também se passa na Itália). E assim como esses, “Luca” se beneficia da simplicidade de sua história justamente para investir nas suas personagens e nas relações que elas têm umas com as outras. O filme acaba sendo muito mais sobre Luca, Alberto e Giulia e a maneira como a amizade deles se desenvolve, cresce e é desafiada no decorrer do história, do que sobre a trama em si.
Isso está longe de ser um problema, principalmente considerando que as personagens são extremamente carismáticas e memoráveis. E muito desse carisma vem desse espaço que o filme deixa para desenvolvê-las, mas também é passado bastante pela dublagem: todos os voice-actors fazem um excelente trabalho nos seus respectivos papéis, o que é bastante relevante em um filme como este. Como consequência desses dois fatores, fica muito mais fácil construir uma conexão com as personagens em tela, de forma que, quando a amizade deles é testada, o momento é realmente impactante.
Contudo, o filme cai sim em alguns clichés, que de certa forma são conseqüência de características da história — “um filme da Disney que tem uma cidade cheia de preconceitos? Nem imagino como isso vai terminar”. Não obstante, isso acaba sendo compensado, pois enquanto o roteiro se permite cair em alguns clichés (e de certa forma se aproveita deles), ele acaba evitando outros, por vezes de maneira bastante inteligente e apropriada para as personagens.
Essa é uma história que poderia tão facilmente cair no cliché do “mentiroso revelado” — em que a mentira de uma personagem é descoberta e todos viram as costas para ela no último ato —, mas o filme faz um bom trabalho para evitar esse ou qualquer tipo de trope que acabe por prejudicar a narrativa.
Entretanto, devo dizer que tem uma coisa no filme que me incomoda: ele tem um “vilão”, e ele está longe de ser uma personagem muito interessante, ou até engraçada. É só mais um valentão estereotípico, um bully, que, no final das contas, não adiciona muito para a história.
Fora isso, o filme é, no todo, muito bom. Se tratando de um trabalho da Pixar, quase não é necessário dizer que a animação é simplesmente excepcional. Todo o visual de “Luca” é lindo, retratando a riviera italiana e fazendo jus à beleza daquele lugar. A animação e design de personagem, a edição, os cenários, o som, a música, toda a parte técnica do filme é de excelente qualidade, como é de se esperar.
Enfim, a Pixar novamente se supera com uma simples premissa e nos entrega “Luca”, um filme que também é simples, mas enormemente encantador. Com personagens cativantes, animação fantástica e um final emocionante, é um longa que consegue ser, ao mesmo tempo, diferente de praticamente tudo que o seu estúdio já produziu, e familiar em todos os aspectos que importam. Sim, ele acaba recorrendo a certos clichés aqui e ali, mas nunca a ponto de prejudicar a obra, nem de me fazer negar que ela está entre os melhores filmes da Pixar, e talvez entre os melhores do ano.
🏆 “Luca” foi indicado a 8 Annie Awards, incluindo Melhor Filme. Também foi indicado ao BAFTA na categoria Melhor Filme de Animação, além de estar elegível ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Filme de Animação.
CATEGORIAS
- Melhor Filme (de Animação) 🏆 Annies | BAFTA | Oscars (elegível)
Annie Award – indicados (Vencedor em 2021: Soul):
- A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
- Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
- Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
- Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
- Sing 2 (dir. Garth Jennings, 2021)
BAFTA (Vencedor em 2021: Soul):
- Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
- A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
- Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
- Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
- Melhor Direção 🏆 Annies (Vencedor em 2021: WolfWalkers)
- Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
- A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
- Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
- Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
– Belle (dir. Hosoda Mamoru, 2021)
- Melhor Música 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
- Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
- Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
- Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
– Poupelle da Cidade das Chaminés (dir. Hirota Yusuke, 2020) | Vivo: um amigo show (dir. Kirk DeMicco, 2021)
- Melhor Dublagem 🏆 Annies – Jack Dylan Grazer (Alberto) — (Vencedor em 2021: Eva Whittaker, pelo papel de Mebh em WolfWalkers)
- Stephanie Beatriz (Mirabel) em Encanto
- Kelly Marie Tran (Raya) em Raya e o Último Dragão
- John Leguizamo (Bruno) em Encanto
- Abbi Jacobson (Katie) em A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
- Jack Dylan Grazer (Alberto) em Luca
- Melhor Edição 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
- Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
- Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
- Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
- A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
- Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
- Melhor Animação de Personagem 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
- Encanto (dir. Jared Bush e Byron Howard, 2021)
- Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
- Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
– O Poderoso Chefinho 2: De Volta aos Negócios (dir. Tom McGrath, 2021) | Din e o Dragão Genial (dir. Chris Appelhans, 2021)
- Melhor Design de Personagem 🏆 Annies (Vencedor em 2021: WolfWalkers)
- Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
- Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
- A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
– Ron Bugado (dir. Sarah Smith e Jean-Philippe Vine, 2021) | Vivo: um amigo show (dir. Kirk DeMicco, 2021)
- Melhor Roteiro 🏆 Annies (Vencedor em 2021: Soul)
- Raya e o Último Dragão (dir. Don Hall e Carlos López Estrada, 2021)
- Luca (dir. Enrico Casarosa, 2021)
- Fuga (dir. Jonas Poher Rasmussen, 2021)
- A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas (dir. Mike Rianda, 2021)
– Belle (dir. Hosoda Mamoru, 2021)
(Silenzio, Bruno!)









