
nota: A+
CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★½
- Título original: キュア (Kyua; Cure)
- Direção: Kiyoshi Kurosawa
- Roteiro: Kiyoshi Kurosawa
- Produção: Tetsuya Ikeda, Satoshi Jinno, Shigeo Masubuchi, Atsuyuki Shimoda e Tsutomu Tsuchikawa
- Elenco: Kōji Yakusho, Masato Hagiwara, Tsuyoshi Ujiki, Anna Nakagawa, Misayo Haruki, etc.
- Gênero: Policial, terror, mistério, suspense
- Duração: 111 min (1h51)
- Classificação: 14 (BRA), R15+ (JAP)
Espetacular
“Toda a atmosfera, a mixagem de som, a fotografia, e principalmente o roteiro espetacular, realizado por uma direção invejável, tornam este filme uma experiência absolutamente imperdível.”
O que você faria se alguém te controlasse?
O que aconteceria se você perdesse seu livre-arbítrio, e as suas vontades pudessem ser comandadas por outra pessoa? O que você poderia ser obrigado a fazer, se não estivesse mais em pleno controle da sua própria consciência? Nessa situação, você poderia fazer coisas que nunca pensaria em fazer, em condições normais? Poderia você matar alguém? Você teria alguma escolha quanto a isso?
Essas são apenas algumas das perguntas que “A Cura” (1997), do diretor japonês Kiyoshi Kurosawa, incita no seu espectador. Lançado alguns anos antes de uma nova leva de filmes de terror no Japão, no início dos anos 2000, o filme conta uma história que é, ao mesmo tempo, desprovida de qualquer elemento realmente sobrenatural, e tão perturbadora quanto os filmes de fantasma que o sucederam. Mas o que torna o longa tão assustador, e que o diferencia nesse contexto, é exatamente o fato de todas as suas personagens serem humanas. Vivas. Manipuláveis.
A história se centra em torno de Kenichi Takabe (Yakusho), um detetive da polícia de Tóquio, que investiga uma série de assassinatos, aparentemente desconexos. Cometidos por pessoas diferentes, e sem nenhuma ligação umas com as outras, os crimes parecem ter apenas duas características em comum: as vítimas sempre apresentam um corte em formato de “X” no corpo; e os assassinos não parecem se lembrar muito bem de como tudo aconteceu; e se por acaso se lembram, parecem ver o homicídio que cometeram como algo natural, algo que fizeram e ao qual não dão muita importância.
Mais adiante, mas ainda no início da projeção, descobrimos que esses assassinatos parecem estar ligados a um jovem, interpretado por Masato Hagiwara, que aparece em diversos lugares da cidade, alegando não se lembrar de nada, nem mesmo do seu nome. Sempre que alguém tenta ajudá-lo, ou lhe dá abrigo de alguma forma, essa pessoa também é eventualmente levada a cometer um daqueles assassinatos, com as mesmas características dos outros. Takabe e os policiais passam a suspeitar do garoto, com a impressão de que ele tenha alguma habilidade hipnótica, que levaria as pessoas a cometerem seus crimes.

Reprodução: IMDb
Algo que, já de início, ajuda muito a construir o medo na narrativa do filme, e que o torna tão perturbador e memorável, é a sua atmosfera, isto é, a ambiência toda que o filme consegue passar. E penso que dois aspectos são os principais responsáveis pela construção dessa atmosfera durante o filme: a sua fotografia e a sua sonorização.
No que se refere a este último aspecto, o som do filme é composto principalmente por barulho ambiente. A trilha sonora é discreta, sendo raramente usada de maneira óbvia e ruidosa. Assim, muito do que se ouve durante a projeção são os barulhos da cidade: trens passando, chuva caindo, lâmpadas falhando, uma máquina de lavar especialmente ruidosa, etc. etc.. Esses ruídos, no contexto do filme, ajudam a construir aquela ambiência, e a tornar todo o cenário opressivo, hostil, hipnotizante; adicionando ainda mais tensão aos conflitos pelos quais as personagens já passam. Mais que isso, alguns barulhos acabam tendo significados específicos para certas personagens, e o filme faz um excelente trabalho em criar essas conexões, e também em usá-las para trair nossas expectativas.
Já quanto à direção de fotografia (Tokushō Kikumura), ela é absolutamente excepcional. Em vários momentos, o longa se aproveita da iluminação de uma cena, e principalmente das sombras, e da diferença de iluminação em certos espaços, para criar um clima de mistério ou de clareza em momentos oportunos, além de usar isso para refletir os sentimentos das suas personagens. As cenas em que o jovem Hagiwara é mantido nas sombras, refletindo o mistério que o cerca, são especialmente marcantes. Além disso, a fotografia do filme também é composta de vários planos longuíssimos, feitos principalmente em tomadas abertas, que incluem várias personagens se movendo em um único cenário, ou mesmo uma única sala.
Essas cenas não só mostram a habilidade dos atores, que tem a chance de mostrar toda a sua capacidade em planos contínuos, mas também mostram a competência da direção quanto aos arranjos de cena, e à composição das personagens em cena. Uma sequência na delegacia, em que os detetives interrogam um policial, demonstra isso muito bem. A direção de cena é meticulosa; e a cada momento, conseguimos perfeitamente acompanhar as personagens, enquanto elas interagem e se movem em um cenário bastante limitado, mesmo sem nenhum corte ou close-up.

Reprodução: IMDb
Mas o que torna o filme realmente assustador, e o torna tão efetivo na construção da sua narrativa, é que ele consegue criar, com o seu roteiro, um terror verdadeiramente, e literalmente, psicológico.
Isto é, muito do terror do longa vem de um questionamento sobre a fragilidade da psique humana. A hipnose, e tudo que a cerca, é usada como uma ferramenta para mostrar o quanto o ser humano está sujeito a ser influenciado, e o quanto a sua mente é frágil à sugestão. Como já citado, o filme leva a audiência a questionar se, com uma sugestão sutil o bastante, e suficientemente forte, elas poderiam ser obrigadas a fazer algo que nunca considerariam em situações normais, e se isso poderia ser usado para cometer os crimes mais horrendos. E a maneira como o processo hipnótico é mostrado torna esse questionamento ainda mais justificado. Isso porque a hipnose não é mostrada daquela maneira cliché, com um relógio de bolso, ou com estalar de dedos, e sim como um processo extremamente sutil, e nem sempre muito compreensível, composto de ações banais e conversas estranhas e repetitivas, de maneira que as vítimas nem sabem que estão sendo hipnotizadas, e muito menos como.
Adicionado a isso, esse longa segue nos passos de suspenses como “Se7en” (dir. David Fincher, 1995), em criar um antagonista que é, ao mesmo tempo, tão enigmático quanto é imparável. Não quero revelar muita coisa neste texto, mas basta dizer que, como o processo de hipnose neste filme não envolve nada muito explícito, nem muito fora do normal, o hipnotizador pode tomar controle de uma pessoa simplesmente conversando com ela. Isso torna qualquer encontro com o antagonista uma batalha de vontades, uma luta contra ser controlado, e, claro, um momento de muita tensão. Além disso, nunca parece muito claro os motivos pelos quais aquele indivíduo está praticando esses crimes, mesmo que possamos ter alguma ideia. E esse é um dos principais conflitos que o detetive Takabe enfrenta durante o filme: tentar perseguir uma força que parece, ao mesmo tempo, incompreensível e impossível de parar.
E mesmo que não saibamos o porquê exato de alguns dos crimes, o filme deixa algumas implicações bastante perturbadoras, e que são dignas de consideração. Perto do início da projeção, o detetive Takabe pergunta a seu amigo (Ujiki), que trabalha como perito da polícia, se seria possível obrigar alguém a matar por hipnose. Ele responde que seria difícil, pois um hipnotista não pode obrigar alguém a fazer algo que ele não queira fazer, ou que vá contra os seus princípios morais. Então o detetive sugere que seria possível que, para contornar isso, alguém pudesse sugerir apenas que a pessoa, quando estimulada, desenhasse a letra X (que é o formato do corte encontrado em todas as vítimas) e que isso poderia resultar nos assassinatos que estavam ocorrendo.
Porém, algumas cenas depois, um policial, depois de passar pela hipnose, mata um de seus colegas na delegacia. Mas ele não faz isso da mesma forma que os outros hipnotizados fizeram. Ele simplesmente puxa a sua arma e atira na vítima, para só depois arrastá-la e fazer os cortes. Quando interrogado, ele não só parece não sentir remorso pelo que fez, mas também justifica para os detetives que nunca tinha gostado daquele colega, e que era quase natural que isso acontecesse em algum momento. Assim, o filme abre mais uma porta para interpretação: e se alguns dos hipnotizados não foram obrigados a matar contra a sua vontade, mas sim a favor dela? E se tudo o que o hipnotizador fez foi obrigar a pessoa a cumprir um desejo secreto, que ela já possuía? Se matar não vai contra a moral ou a vontade de uma pessoa, o que impede um hipnotizador de fazê-la cumprir com essa vontade? É possível que ele possa nos fazer cumprir os nossos desejos mais obscuros?
A maneira como todas essas perguntas se ligam à personagem do detetive Takabe, e ao final mais que enigmático do longa, é absolutamente brilhante. E também é brilhante como o filme instiga a sua audiência o tempo todo com essas perguntas, ao mesmo tempo que nos faz acompanhar a jornada do seu protagonista, que também deve enfrentar essas mesmas questões, e a fragilidade da sua própria psique, e daqueles à sua volta. E é igualmente brilhante, e daria o seu próprio texto, como esse filme explora temáticas de problemas mentais e doenças degenerativas, e como, pelo menos em parte, a hipnose às vezes parece servir de alegoria para esses tipos de condição, que são referidas em vários momentos do filme. E tudo isso se conecta em um final que é perturbador, misterioso, e sem respostas fáceis, nem bonitas.
“Cure” é excepcional. São poucos filmes que captaram tanto meu interesse e minha curiosidade, e de maneira tão cativante, desde o primeiro minuto. Toda a atmosfera, a mixagem de som, a fotografia, e principalmente o roteiro espetacular, realizado por uma direção invejável, tornam este filme uma experiência absolutamente imperdível. Um terror psicológico por excelência, nada na sua narrativa ou no seu terror é muito explícito. Mesmo a maior parte das mortes são sugeridas. Kyoshi Kurosawa tanto mexe com o nosso psicológico, com perguntas difíceis e perturbadoras, quanto deixa muitas lacunas abertas, para que nós as preenchamos com nossas próprias mentes, o que muitas vezes é mais assustador do que qualquer coisa que ele poderia nos mostrar em tela.
O terror está na nossa mente. E este filme a hipnotiza.





















