Vamos Sonhar (1936) – Crítica

nota: A –

Público: ★★★½
  • Título Original: Faisons un rêve…
  • Direção: Sacha Guitry
  • Roteiro: Sacha Guitry (baseado na própria peça)
  • Elenco: Sacha Guitry, Raimu, Jacqueline Delubac, etc.
  • Gênero: Comédia
  • Duração: 86min (1h26min)
  • Classificação: Tous Public (FRA)

Muito Bom

“O que realmente se destaca entre as várias qualidades desta obra são três coisas: Sacha Guitry, Sacha Guitry e Sacha Guitry”

Durante uma festa formal, um casal (Raimu e Delubac) se encontra com um antigo conhecido (Guitry); ele convida os dois para irem à sua casa no dia seguinte, pois ele gostaria de lhes mostrar algo. O marido fica um pouco relutante pois diz que teria uma reunião importante no horário marcado, mas acaba indo junto com a esposa de qualquer forma. Depois de esperarem por algum tempo em um escritório sem sinal do dono da casa, o marido decide ir embora, deixando a mulher esperando pelo anfitrião. Mal o marido sai de cena, o homem deixa seu esconderijo (o banheiro) e nos é revelado que, na verdade, ele e a mulher são amantes.

A partir daí, “Vamos Sonhar” (Dir. Sacha Guitry, 1936) passa a acompanhar o amante. Ele se encontra mais algumas vezes com a personagem de Jacqueline Delubac, sempre tentando estar longe da suspeita do cônjuge. A maneira como a premissa do filme é executada e apresentada, ainda mais depois que certos fatos são descobertos, é simplesmente incrível e divertida. Ademais, o roteiro como um todo, composto em grande parte por diálogos e monólogos, é maravilhoso; o jeito que toda a história é amarrada, junto com situações e conversas legitimamente hilárias, são apenas alguns dos aspectos que fazem esse longa, que é essencialmente uma crítica à hipocrisia da classe alta francesa, ser tão bom quanto é.

Mas o que realmente se destaca entre as várias qualidades desta obra são três coisas: Sacha Guitry, Sacha Guitry e Sacha Guitry. Além de ter escrito o roteiro, dirigido o filme e escrito a peça na qual o roteiro é baseado, ele também interpreta o amante e completamente rouba toda cena em que está (que é praticamente o filme inteiro). Jogando diálogos rápidos, verborrágicos e engraçados, Guitry apresenta um timing cômico admirável, marcando sua presença seja em uma simples conversa, seja em um longo monólogo em que quebra a quarta parede. Se os constantes falatórios não ficam enfadonhos ou maçantes depois de meia hora de filme, é, em grande parte, por causa dele.

Como já citado, o roteiro é baseado em uma peça de teatro e, por isso, várias características daquele meio acabam passando para a adaptação; entre elas, os já citados monólogos e longos diálogos. Por causa dessas semelhanças, a fotografia (Georges Benoît) sabe se aproveitar bastante de planos longos, registrando vários dos discursos em um único plano, o que, para 1936, é impressionante e merece o devido reconhecimento. Outra consequência desse formato é que, com exceção do prólogo (a festa), o filme se passa inteiramente em um só cenário: a casa da personagem de Guitry. Mesmo gostando dessa teatralidade, consigo imaginar como alguém poderia não gostar dessa característica.

“Vamos Sonhar” é uma delícia de comédia. Rápido, energético e engraçado, o filme não para de entreter por um segundo. Sacha Guitry absolutamente domina sua obra de maneira fenomenal, estando sempre no centro das situações e temas de um roteiro muito bem trabalhado e que conta, para melhor ou para pior, com um aspecto teatral sempre presente, seja nas falas das personagens, seja na impressionante fotografia.

The Day After I’m Gone (2019) – Crítica

Menashe Noy and Zohar Meidan in The Day After I'm Gone (2019)

nota: B

Crítica: ★★★ Público: ★★★
  • Título Original: היום שאחרי לכתי
  • Direção: (Nimrod Eldar) נמרוד אלדר
  • Roteiro: (Nimrod Eldar) נמרוד אלדר
  • Produção: (Jonathan Doweck) יהונתן דובק, (Leon Edery) לאון אדרי , (Moshe Edery) משה אדרי, (Nimrod Eldar) נמרוד אלדר e (Eitan Mansuri) איתן מנצורי
  • Elenco: (Menashe Noy) מנשה נוי, (Zohan Meidan) זוהר מידן, (Alon Neuman) אלון נוימן, (Sarit Vino-Elad) שרית וינו-אלעד, etc.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 98min (1h38min)
  • Classificação: 16 (BRA)

Bom

“A maneira como essa relação [entre pai e filha] é abordada, assim como os outros temas de que a obra trata, mais explicitamente, claro, a depressão e o suicídio, é bastante sutil e fruto de um roteiro bem escrito.”

Yoram (Noy) trabalha como veterinário em um safári e, ocupado com o seu trabalho, deixa pouco tempo para estar com sua filha Roni (Meidan). Um dia, Roni sai de casa e desaparece por dois dias, e, quando volta, tenta suicídio por overdose de remédios. Ela acaba sendo salva por um grupo de paramédicos; eles só souberam das intenções da filha por meio de uma denúncia sobre posts dela em um fórum. O pai, surpreso pela atitude de Roni e se comprometendo a conectar mais com ela, planeja uma viagem para irem visitar os parentes de sua falecida esposa.

Essa relação, ou melhor, essa falta de conexão entre pai e filha é um dos aspectos mais bem explorados da trama. Em toda cena que dividem, se sente essa desconexão entre os dois que chega até a ser desconfortável, gerando no público um desejo constante de ver esse vínculo se estreitar, e é precisamente essa expectativa o que move a história para frente no decorrer do filme.

A maneira como essa relação é abordada, assim como os outros temas de que a obra trata, mais explicitamente, claro, a depressão e o suicídio, é bastante sutil e fruto de um roteiro bem escrito. Dirigido e roteirizado pelo estreante israelense Nimrod Eldar, a direção também é muito bem feita, o destacando já no seu primeiro longa. A fotografia (Itai Marom, איתי מרום) também é muito boa.

Contudo, mesmo que a relação entre Yoram e Roni seja bem apresentada e o distanciamento entre eles bem explorado, não diria o mesmo de como essa relação evolui. No decorrer do filme, ainda mais no seu desfecho, há uma sensação de que não houve muita mudança nessa distância entre as personagens, que o arco que se construiu foi de nenhum lugar a lugar algum, sendo bastante insatisfatório (que talvez fosse o objetivo, o que, da mesma forma, quebra algumas expectativas construídas até então).

Também é notável que, enquanto essas duas personagens são, até certo ponto, bem desenvolvidas, o resto, no caso a família da mãe, falta alguma caracterização que não seja simplesmente “serem parentes”. Existem alguns diálogos com eles e chegamos a conhecer algumas poucas características de suas personalidades, mas fica por isso; a presença deles na história seria perto de irrelevante, não fosse algumas poucas cenas usadas para explorar as interações entre Roni e seu pai.

“The Day After I’m Gone” (Dir. Nimrod Eldar, 2019) ao mesmo tempo que tem êxito em desenvolver duas personagens e um tipo de relação entre elas, não atinge muito sucesso nem em explorar a evolução dessa relação, nem em desenvolver as outras personagens apresentadas. O longa, porém, conta com uma sutileza exemplar ao falar de certos temas difíceis, o que beneficia o filme.

Drácula: A História Nunca Contada (2014) – Crítica

nota: C

Crítica:   Público: ★★★
  • Título Original: Dracula Untold
  • Direção: Gary Shore
  • Roteiro: Matt Sazama e Burk Shapless (baseado nas personagens de Bram Stoker)
  • Produção: Michael De Luca
  • Elenco: Luke Evans, Sarah Gadon, Dominic Cooper, Art Parkinson, Charles Dance, etc.
  • Gênero: Ação, Drama, Fantasia
  • Duração: 92 min (1h32min)
  • Classificação: 14 (BRA) / PG-13 (MPAA)

Filme Antecessor:

Drácula (Dir. Tod Browning e Karl Freund, 1931)

B+

Contrário ao que se possa acreditar, na história original de “Drácula”, escrita por Bram Stoker, não é feita nenhuma conexão explícita entre o vampiro e a figura histórica de Vlad III, “O Empalador” (1431-1476). Porém, isso não impediu diferentes adaptações da obra de tentar fazer essa conexão. Uma delas (sendo menos uma adaptação e mais uma história de origem) é “Drácula: A História Nunca Contada” (Dir. Gary Shore, 2014).

Neste filme, o Império Otomano, com objetivo de reforçar seu exército, decide recrutar mil crianças da Transilvânia e treiná-las como seus soldados. Porém, quando Vlad (Evans), que já havia lutado ao lado dos otomanos, vê que seu filho Ingeras (A. Parkinson) também seria levado, recusa a proposta, provocando uma retaliação otomana. Temendo por sua família e tendo um exército muito inferior, ele faz um acordo com um vampiro (C. Dance), que dá o próprio sangue para Vlad beber, o transformando temporariamente. Essa transformação o deixa incrivelmente mais poderoso, podendo eliminar um batalhão inteiro sozinho; porém, ele também passa a ser tentado a beber sangue humano, o que o tornaria um vampiro permanentemente

Ignorando as possíveis imprecisões históricas (que, por ser um filme de fantasia, acabam não importando tanto), os dois primeiro atos do filme, mesmo tendo seus problemas, são relativamente bons. O longa faz um bom trabalho em apresentar as suas personagens, estabelecer a relação de Drácula com sua família e introduzir as tramas, conflitos e motivações que movem a história para frente. Essa parte realmente provoca um certo envolvimento do espectador que foi, sinceramente, inesperado.

O filme também é tecnicamente bem feito, contando com fotografia (John Schwartzman) e design de produção (François Audouy) decentes, algo que beneficia bastante o filme visualmente. As atuações, com certas exceções, também são decentes. Luke Evans (que, aliás, é um sucesso de casting) e Sarah Gadon trabalham bem, mas não a ponto de serem muito memoráveis.

O que é memorável, porém, em todos os piores sentidos, é o vilão do filme: o sultão Mehmed II (Cooper). Em primeiro lugar, a personagem dele já se destaca visualmente por duas características bizarras: 1, ele usa um corte de cabelo que, tenho praticamente certeza, não seria inventado, e muito menos usado, por pelo menos cinco séculos; e 2, ele praticamente só usa armaduras de ouro. Essa combinação o faz parecer menos com o verdadeiro Mehmed II (1432-1481) e mais com… o Dominic Cooper que acabou de sair de um salão de beleza vestindo uma armadura de ouro. Ele parece tão deslocado no meio das outras personagens que, às vezes, só a presença dele numa cena é o suficiente para ela ser engraçada. A performance dele também não ajuda, sendo a pior do filme.

Apesar dos dois primeiros atos serem bem feitos, o longa vai por água abaixo no terceiro ato. Algumas decisões feitas nesse final, mesmo resultando em algumas boas cenas de ação, são muito mal pensadas, resultando em um final bem ruim que, apesar de não arruinar completamente o filme, é uma queda notável em qualidade se comparado com o que houve antes (até em questão de efeitos especiais).

Depois que o filme acaba, porém, existe algo ainda pior que o terceiro ato: um pequeno prólogo, uma “cena pós-credito”, digamos assim. Essa cena, além de ser horrível,  ainda sugere uma sequência ao filme. Essa foi a primeira e fracassada tentativa da Universal de criar um universo cinematográfico ao modelo da Marvel; essa tentativa e fracasso se repetiria com “A Múmia” (Dir. Alex Kurtzman, 2017).

No todo, as qualidades e defeitos do filme se equilibram moderadamente, resultando num longa, no mínimo, medíocre, mas interessante. Não há como negar que houve empenho por parte da equipe, pelo menos nos dois primeiros atos, que as atuações em grande parte são decentes e que o filme consegue construir bem as personagens e a história. Porém, também não há como negar que o vilão é simplesmente ridículo e os finais péssimos, infelizmente piorando um filme que tinha algum potencial.

(Olhar de Cinema: Edição Especial #8) As Hiper Mulheres (2011) – Crítica

Ciranda de Filmes - Filme - As hiper mulheres

nota: A –

Público: ★★★½
  • Título Alternativo: Itão Kuengü
  • Direção: Fausto Carlos, Takumã Kuikuro e Leonardo Sette
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 80min (1h20min)
  • Classificação: 10 (BRA)

O povo indígena Kuikuro, habitante do parque nacional do Xingu, tem, como uma de suas tradições, um ritual chamado Jamurikumalu: uma festa que envolve canto e dança e é realizado exclusivamente por mulheres. Registrando os preparativos para esse ritual junto com a vida e tradições dos Kuikuro, “As Hiper Mulheres” (dir. Fausto Carlos, Takumã Kuikuro e Leonardo Sette, 2011) mergulha o espectador de cabeça nessa cultura, sendo gravado quase inteiramente na língua kuikuro e tendo pouca intervenção dos realizadores no projeto.

O resultado é um documentário mais observacional, que mais mostra do que interage. Também não se sente que há nenhum tipo de visão de “superioridade” por trás dos realizadores; nunca se sente que as personagens estão, de alguma forma, sendo menosprezadas; e a equipe do filme ser composta, em grande parte, pela população indígena certamente ajudou o produto final a ter essa visão mais horizontal e justa. O longa também conta com algumas entrevistas que, por serem poucas e curtas, poderiam facilmente ficar deslocadas do resto, mas, como elas se assemelham mais a relatos ou a simples conversas, acabam se encaixando com o resto do filme.

Em sua integridade, “As Hiper Mulheres” é sobre tradições culturais. O tema mais recorrente e interessante do filme é o da tradição e, ainda mais relevante, a preservação dessas tradições. No decorrer do longa, são mostrados diversos costumes do povo Kuikuro (danças, músicas, hábitos, crenças, histórias, entre outros) e o esforço que é feito para manter esses hábitos vivos. Cantos (muito presentes em sua cultura) são passados de geração em geração, sendo diferentes para homens e para mulheres, que também têm papeis diferentes dentro da tribo. Alguns dos mais velhos sabem todas as músicas, sendo responsáveis por passá-las para os mais novos.

Quando, então, uma das mulheres que sabe as músicas adoece (durante os preparativos para o Jamurikumalu), existe uma emergência de curá-la, não só para preservar sua vida, é claro, mas também para manter essas tradições orais vivas e conseguirem executar o ritual. O tema dessa preservação é tão presente que o filme termina com uma das mulheres ensinado uma canção a uma jovem, indicando a continuidade desse conhecimento. Essa seria a força motriz do filme, além de seu aspecto mais marcante.

Aliás, o próprio longa, de certa maneira, funciona como um registro dessa cultura. Com esse ponto de vista, a obra ganha uma importância — tanto no contexto da continuidade da herança cultural Kuikuro, quanto na conscientização sobre a fragilidade da manutenção dessas tradições (que pode servir de incentivo para se criar mais materiais de registro como este).

No entanto, o filme falha em um aspecto que, infelizmente, atrapalha sua compreensão: falta de contexto. Parte das informações referentes aos Kuikuro dadas nos parágrafos a cima são facilmente obtidas ao se ler uma sinopse do filme ou se pesquisar na internet; porém, nem todas são bem explicadas dentro do documentário. Como já mencionado, o espectador é jogado de cabeça no cotidiano da tribo e, com isso, não vem nenhum contexto, por vezes deixando a audiência à própria sorte em meio aos termos e nomes em língua kuikuro (a menos, é claro, que se tenha algum conhecimento prévio).

“As Hiper Mulheres” (ou “Itão Kuengü“, expressão kuikuro na qual o título é baseado), além de ser um admirável registro cultural, é simplesmente um bom filme. Dando voz e imagem aos Kuikuro, este documentário dá voz e imagem a uma cultura e temas constantemente interessantes, mesmo com uma falta perceptível de contexto. Com certeza é um dos melhores nesta edição especial do festival Olhar de Cinema.

(Olhar de Cinema: Edição Especial #7) Girimunho (2011) – Crítica

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nota: B –

Público: ★★★½
  • Direção: Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.
  • Roteiro: Felipe Bragança
  • Produção: Paulo de Carvalho, Gudula Meinzolt, Luana Melgaço, Luis Miñarro e Sara Silveira
  • Elenco: Maria Sebastiana, Luciene Soares da Silva, Wanderson Soares da Silva, Maria da Conceição, etc.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 89min (1h29min)
  • Classificação: 10 (BRA)

“Girimunho” (dir. Clarissa Campolina e Helvécio Martins Jr., 2011) mostra o cotidiano de Batsu (Sebastiana), um senhora de 81 anos que vive no sertão mineiro. Após a morte de seu marido Feliciano, ela é cuidada por suas netas, “Preta” e “Branca”, e é obrigada a repensar sua rotina, lidando com sua independência, enquanto conta histórias para seus netos, vai a festas e danças, conversa com amigas de sua idade e, de vez em quando, com o seu falecido marido.

O filme é feito com um estilo documental, com as personagens sendo filmadas recriando cenas de seu dia a dia. O estilo se assemelha ao de “A Vizinhança do Tigre” (dir. Affonso Uchoa, 2016) (outro filme desta edição especial do festival Olhar de Cinema). Porém, enquanto aquele filme acerta em engajar o espectador com suas atuações, personagens e diálogos, este longa não consegue chegar em um nível de engajamento satisfatório, levando a um resultado um tanto tedioso.

Reencenando suas vidas diárias, atores amadores interpretam a si mesmos e fazem, não surpreendentemente, um bom trabalho. Como qualquer outra característica de “Girimunho”, não há nada de espetacular nas suas atuações. Contudo, são bastante naturais e genuínas, nunca parecendo que estão fazendo algo “porque tem uma câmera ali”, mas, realmente, dando a impressão de estarmos vendo suas rotinas como observadores (por mais maçante que isso possa ser às vezes).

Porém, mesmo com essa perspectiva, não é deixado muito espaço para explorar melhor as personagens. Ao final da sessão sabemos como é o cotidiano de Batsu (que parece ser o objetivo), algumas de suas memórias e  informações sobre ela, mas não muito mais que isso. Ademais, sabemos menos ainda sobre o resto das pessoas com quem ela interage. Para uma obra que parece querer focar em uma personagem central, essa simplesmente não faz um bom trabalho de desenvolvê-la.

Porém a força que este drama mantém está na sua simplicidade e em alguns de seus temas. Não há como negar que existe uma espécie de beleza na simplicidade deste filme, uma que, por tratar de temas como o passado, lembranças e a relação dos avós com os netos, carrega uma familiaridade difícil de ignorar. A fotografia (Ivo Lopes Araújo) também é bem feita e ajuda a passar essa simplicidade de uma maneira, novamente, bela, mas com um distanciamento documental que retira um pouco dessa familiaridade.

Sem possuir algo que realmente consiga engajar o espectador (com excessão de uma proximidade criada mais por seus temas do que por seu roteiro), “Girimunho” é um filme relativamente medíocre. Contém boas atuações e fotografia, mas é em geral maçante e não prende o interesse, maior problema do filme.

(Olhar de Cinema: Edição Especial #6) E Agora? Lembra-me (2013) – Crítica

E agora? Lembra-me - Festival do Rio

nota: A –

Crítica: ★★★Público: ★★★½
  • Direção: Joaquim Pinto
  • Roteiro: Joaquim Pinto
  • Produção: Joana Ferreira
  • Elenco: Joaquim Pinto, Nuno Leonel, etc.
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 164min (2h44min)
  • Classificação: M/12 (POR)

Joaquim Pinto, diretor de som e realizador português, vive com seu marido Nuno e vários cachorros em uma propriedade na Espanha. Diagnosticado com HIV e Hepatite C, Pinto decide gravar o seu cotidiano enquanto participa de um tratamento experimental. O resultado dessas gravações, carregadas de melancolia, lembranças e reflexões, é o documentário “E Agora? Lembra-me” (dir. Joaquim Pinto, 2013).

Feito de uma maneira um tanto improvisada, ao mesmo tempo que por alguém com experiência cinematográfica, o filme apresenta uma fotografia por vezes “amadora” e por vezes mais profissional (pelo menos na aparência). Essa transição — entre cenas mais simples de Joaquim ou Nuno falando diretamente com a câmera (parecido com um formado de vlog) e excelentes planos mostrando belos cenários ou closes de pequenos animais — é feita de maneira bastante natural e deixa o documentário com um tom simultaneamente pessoal e artístico.

Esse tom pessoal, aliás, é presente durante todo o filme. Como já mencionado, o documentário é constituído por cenas do cotidiano do casal, mas também nos abre, por meio das partes em que se dirigem diretamente ao espectador e das narrações, uma janela introspectiva aos seus pensamentos e às suas lembranças, dando um caráter ainda mais intimista ao longa, algo que é muito bem explorado e, com certeza, a característica mais memorável do filme.

Também é importante citar que com todo o sofrimento que, inevitavelmente, surge ao ser diagnosticado com duas doenças terríveis, surge também uma melancolia que, ao afetar os testemunhos das personagens, afeta o filme, o envolvendo nesse ar melancólico. Assim, quando expõe seus pensamentos, Joaquim levanta reflexões sobre diferentes temas; a vida, a morte, o amor, a religião e a arte sendo os principais. Essas reflexões só adicionam a esse ar de desânimo e beneficiam tanto o filme quanto os depoimentos.

No entanto, não há como comentar sobre esse aspecto sem tocar no problema que ele, infelizmente, ajuda a causar em um longa-metragem de quase três horas de duração: o filme fica arrastado. Alguns cortes seriam seriamente aconselháveis e não há muito que realmente segure o interesse do espectador por muito tempo, deixando a enorme e excessiva duração bastante perceptível.

“E Agora? Lembra-me” traz uma interessante perspectiva autobiográfica de maneira, em geral, bem executada. Conta com uma ótima fotografia e uma abordagem pessoal reflexiva e intrigante, qualidades que beneficiam a obra, mas que, sozinhas, não conseguem segurar os mais de 160 minutos de filme sem que ele se torne, em partes, maçante. A melancolia dos relatos tanto ajudam quanto atrapalham o longa nesse aspecto, ao mesmo tempo criando interesse sobre as lembranças e acentuando a sua lentidão.

(Olhar de Cinema: Edição Especial #5) Espero Tua (Re)Volta (2019) – Crítica

Espero tua (Re)volta (2019)

nota: B+

Público: ★★★
  • Direção: Eliza Capai
  • Roteiro: Eliza Capai
  • Produção: Mariana Genescá
  • Elenco: Marcela Jesus, Lucas ‘Koka’ Penteado, Nayara Souza, etc.
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 93min (1h33min)
  • Classificação: 14 (BRA)

Em 2013, os paulistas saíram às ruas por causa do aumento do preço das passagens de ônibus. Essas manifestações desencadearam uma série de acontecimentos que, em certa medida, se estendem até a atualidade, gerando processos responsáveis por um estado de instabilidade e agitação política nacional que, em maior ou menor intensidade, tem se mantido pelos últimos seis anos, pelo menos.

Também no estado de São Paulo, mas desta vez em 2015, os alunos dos colégios estaduais, inspirados por movimentos estudantis no Chile, decidiram ocupar as escolas em protesto contra certas medidas do governo paulista. Baseando-se em entrevistas com estudantes que participaram destes atos e narrado por três deles (M. Jesus, Penteado, Souza), o documentário Espero Tua (Re)Volta (dir. Eliza Capai, 2019) se propõe a relatar a história dessas ocupações, o contexto que levou a elas e o que foi o resultado disso tudo.

Como se pode perceber, o filme mostra uma visão bastante pessoal do cenário que apresenta, principalmente por causa da narração. O filme ser narrado por três jovens, todos parte de movimentos estudantis e/ou minoritários, além de dar esse ponto de vista mais intimista, cria um tom mais jovial e ágil ao longa, combinando perfeitamente com a montagem (Yuri Amaral, Eliza Capai). Esse aspecto também ressalta o efeito do filme como um protesto em si, destacando a importância de seus temas.

Esses temas, sozinhos, dariam seus próprios filmes (e de fato alguns já deram), mas eles estão todos espalhados e “dissolvidos” naturalmente no decorrer do documentário, transformando o seu conjunto em uma obra importante, especialmente para entender diferentes conjunturas presentes no Brasil e no mundo. Trata tanto de assuntos mais óbvios para a grande narrativa do doc, como o movimento estudantil e as manifestações de rua, até questões relacionadas ao racismo, violência policial, desigualdade social, entre outras que estão, mesmo que não explicitamente, inter-relacionadas às ocupações de 2015.

Espero tua (Re)Volta foi montado utilizando imagens de arquivo (principalmente de noticiários) juntamente com filmagens dos próprios estudantes dentro das ocupações. As primeiras são normalmente usadas para explicar os contextos dos movimentos; as segundas para expor uma vista interior de como eles se deram. A transição entre essas sequências, junto com a narração, deixa o documentário dinâmico, potente e bem apresentado; tudo consequência de uma excelente edição.

Porém, o filme não é totalmente livre de problemas, e dois, em particular, talvez chamem mais atenção. Um deles é que mesmo o documentário fazendo um bom trabalho em explicar o contexto desse tipo de protesto, não se pode dizer o mesmo sobre a explicação do seu (principal) motivo. Se diz a todo momento que as ocupações foram impulsionadas por uma decisão do governo do estado; no entanto, nunca se diz o que foi essa decisão, o que ela dizia, o que ela iria alterar, etc.; dando uma impressão de que ninguém sabia o que estava fazendo lá.

Da mesma forma, a obra poderia se beneficiar de, pelo menos, um contraponto. É claro, um documentário não tem nenhuma necessidade de ser imparcial, mas quando isso, mesmo que na forma de uma pequena visão dissidente, adicionaria a narrativa que se quer apresentar, não há por que não. Isso porque o longa apresenta os três narradores como, claramente, partes de uma esquerda política. Esse detalhe, infelizmente, acaba reforçando uma narrativa externa (que leva à estereotipagem) sobre os atos de 2015 — e movimentos estudantis em geral — como apenas uma “balbúrdia equerdista” aos olhos de certos grupos (algo que, se juntado à ideia de que eles não sabiam o que estavam fazendo, pode fazer a mensagem do filme sair completamente pela culatra).

Tendo estreado no Festival de Berlim, Espero Tua (Re)Volta se junta a um conjunto de filmes que, recentemente, têm mostrado a situação política do Brasil à um público internacional. Importante, energético e bem feito, este é um bom documentário. Ainda que possa, para certos espectadores, não reforçar a melhor mensagem, ele ainda consegue funcionar como um relato pessoal e jovem de uma série complexa de eventos, ao mesmo tempo que levanta temas relevantes.

(Olhar de Cinema: Edição Especial #4) Sol Alegria (2018) – Crítica

Tavinho Teixeira in Sol Alegria (2018)

nota: C –

Público: ★★★
  • Direção: Tavinho Teixeira
  • Roteiro: Tavinho Teixeira
  • Elenco: Mariah Teixeira, Tavinho Teixeira, Mauro Soares, Joana Medeiros, etc.
  • Gênero: Comédia (?)
  • Duração: 90min (1h30min)
  • Classificação: 18 (BRA)

A história (ou algo parecido com uma história) de “Sol Alegria” (Dir. Tavinho Teixeira, 2018) é que, em um presente aparentemente distópico, uma família (Medeiros, T. Teixeira, M. Teixeira, Soares) decide viajar pelo interior do Brasil depois de assassinar um pastor evangélico candidato à presidência. O filme então acompanha esse grupo de personagens, absolutamente nada desenvolvidos, enquanto cruzam (estranhamente, em mais de um sentido da palavra) com bizarrice após bizarrice, não tendo reação nenhuma a elas, não criando nada de engraçado, interessante ou minimamente lúcido, enquanto buscam um lugar para montar um acampamento que chamam de “Sol Alegria”.

É evidente que o filme é, ou pelo menos tenta ser, uma sátira. É decepcionante dizer, portanto, que toda piada, melhor, toda tentativa de se fazer humor ou é fracassada ou  é completamente idiota. O “humor” do longa parece ser baseado em criar situações absurdas, e ele tem sucesso nisso. No entanto, depois de montadas as bizarras circunstâncias em que as cenas irão se passar, nada de mais acontece que se assemelhe a algo engraçado.  Só um exemplo: logo depois do assassinato, a família foge para um convento isolado. Lá existe um grupo de freiras (incluindo algumas interpretadas por homens) que andam com armas, plantam cannabis e fazem orgias. Essa é uma ideia absurda e, a princípio, engraçada.

Porém, mais absurdo ainda é o fato que alguém, sinceramente, achou que essa única piada seguraria mais de meia hora de filme. Porque fica nisso. E só nisso. Por mais de meia hora. O “humor” de “Sol Alegria” também parece simples e até infantil demais às vezes. Grande parte da “piada” das freiras envolve o fato de que algumas delas são interpretadas por homens e que elas gostam de sexo. O filme então passa a focar, durante todo esse tempo, nessas freiras “masculinas” e em várias cenas de sexo e nudez delas e da família. Hilário, não?

Devo dar crédito, pelo menos, ao fato que está se tentando fazer algum tipo de crítica social, e isso é válido. Contudo, é difícil até de saber o que está sendo criticado e como. Por um lado, a obra pode ser vista como um grande “dedo do meio” a todo tipo de conservadorismo, abraçando as liberdades sexuais e de cultura alternativa; por outro, o filme pode estar renegando essas práticas das personagens e retratando apenas uma visão exagerada, baseada no que talvez os conservadores pensem das “libertinagens esquerdistas”.

Qualquer que seja a interpretação, a execução é terrível. Primeiramente porque se esses são realmente os objetivos que queria se alcançar, eles sozinhos não fazem um filme (apesar do que o roteirista parece achar) e eles não têm tanto potencial para preencherem um filme dessa duração (sem ficar parecendo que dura uma eternidade, o que inevitavelmente acontece aqui). Em segundo lugar, porque, de qualquer maneira, a mensagem do jeito que é executada só serve de combustível para alimentar o discurso ao qual se está criticando, só confirmando o que já se criticava. Porém, mesmo com esses problemas, não há como negar que o filme tem uma boa intenção e acho que isso deva ser, minimamente, considerado.

Um aspecto positivo presente são as atuações. Ter que falar algumas das falas desse roteiro e, de alguma forma, fazê-las soarem naturais é um desafio por si só; os atores conseguirem é praticamente um milagre. Infelizmente, porém, os atores não tem muito tempo para mostrar seus (milagrosos) talentos, estando normalmente ocupadíssimos tendo que participar de mais cenas bizarras, provavelmente envolvendo genitálias.

Assim, a única coisa que pode-se dizer que é constantemente boa é a qualidade técnica. A fotografia (Ivo Lopes Araújo), design de produção (Thales Junqueira), figurino (Gabriela Campos), direção de arte (Chica Caldas), etc. são todas boas e é uma pena que toda essa qualidade tenha sido desperdiçada nesse filme.

“Sol Alegria” é uma bagunça. Alguns talvez prefiram o chamar de “anárquico”, “energético” e outros eufemismos que minimizam a completa e exagerada zorra que essa coisa realmente é. “Exagerada”: aí está um bom adjetivo para praticamente qualquer coisa nesse filme. A crítica social que faz é confusa, ainda que feita com boa intenção, e é um longa repetitivo, sem graça, desagradável e por vezes entediante. Não há nada que salve este desastre, nem mesmo as boas atuações do elenco ou a qualidade técnica. Realmente muito ruim.

(Olhar de Cinema: Edição Especial #3) Um Conto de Inverno Proletariado (2014) – Crítica

Um Conto de Inverno Proletariado (2014) – MUBI

nota: B –

Público: ★★★
  • Título Original: Ein proletarisches Wintermärchen
  • Direção: Julian Radlmaier
  • Roteiro: Julian Radlmaier
  • Produção: Kirill Krasovskiy
  • Elenco: Natja Bakhtadze, Aleksandre Koberidze, Ilia Korkashvili, Lars Rudolph, etc.
  • Gênero: Comédia, Drama
  • Duração: 64min (1h4min)

Um “buraco negro” aparece e começa a contar uma história. Ele conta sobre três georgianos (Bakhtadze, Koberidze e Korkashvili) que são contratados como faxineiros na mansão de um colecionador de arte alemão. Mais tarde naquele dia, quando uma festa é realizada, os faxineiros, assim como quase todos os outros empregados, são mandados para os seus quartos, sem poderem comer nada do que está sendo servido nos andares de baixo. Para passar o tempo, os três contam histórias uns aos outros; todas as três histórias (distribuídas durante os três atos do filme, separados pela narração do “buraco negro”) são alegorias sobre a exploração do proletariado.

“Um Conto de Inverno Proletariado” (dir. Julian Radlmaier, 2014) é um filme… estranho, para dizer o mínimo. Isso fica evidente no seu ocasional surrealismo. Em primeiro lugar, a história é contada por um “buraco negro” (que aparenta ser uma instalação artística dentro da casa, um círculo preto flutuando no ar). Em segundo lugar, nem sempre os diálogos são muito coerentes e às vezes parecem um tanto loucos (principalmente os do zelador, interpretado por Rudolph), e isso também se reflete nas histórias contadas. É perto do final, porém, que acontece a coisa mais bizarra do filme, envolvendo uma nuvem (que não vou nem tentar explicar). Essas bizarrices, mesmo espaçadas entre si, deixam a experiência inteira com um ar meio inusitado — o que não é necessariamente um problema, pois ajuda a criar interesse no expectador.

O intento da obra parece ser criticar as relações de trabalho do capitalismo e a inércia de ambos os lados dessa relação (burguesia e proletariado) em tentar mudar alguma coisa. No entanto, a maneira que se passa essa mensagem não é de inteiro satisfatória. As personagens de vez em quando falam dessa relação, as histórias que contam têm a ver com isso e temos alguns exemplos práticos disso em partes do filme, mas tudo parece muito raso. Toda discussão que esse filme tenta trazer sobre classe é meio vazia (e o tom surreal só ajuda a deixar a mensagem ainda mais desfocada).

Um aspecto a se destacar é a bela fotografia (Markus Koob) e o design de produção (Paola Cordero Yannarella). Com a câmera normalmente estática, mostrando bastante os cenários, o filme consegue capturar a grandiosidade do casarão e, ao mesmo tempo, criar excelentes imagens até das coisas mais banais; todo plano do filme poderia ser uma pintura, é incrivelmente bem feito.

Em geral, este é um bom filme. A fotografia é sem dúvida a melhor parte, mas o tom surreal também é um aspecto um tanto positivo; enquanto esse tom ajuda a criar interesse pelas histórias e pelo contexto como um todo, ele também atrapalha um pouco o intento do filme em expressar sua relevante mensagem. Essa mensagem acaba por ser fraca e desfocada, maior falha deste conto de inverno.

(Olhar de Cinema: Edição Especial #2) A Vizinhança do Tigre (2016) – Crítica

A Vizinhança do Tigre é ficção da vida real

nota: B+

Público: ★★★½ 
  • Direção: Affonso Uchoa
  • Roteiro: João Dumans
  • Produção: Camila Bahia
  • Elenco: Maurício Chagas, Aristides de Sousa, Eldo Rodrigues, Wederson Patrício, Adilson Cordeiro, etc.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 95min (1h35min)
  • Classificação: 16 (BRA)

Com um filme praticamente documental, pelo menos em estilo, o diretor Affonso Uchoa volta para a sua cidade natal de Contagem (MG) e reencena o cotidiano de cinco jovens do bairro periférico chamado Nacional: “Juninho” (Sousa), “Menor” (Chagas), “Neguinho” (Patrício), Adilson e Eldo. “Vizinhança do Tigre” (dir. Affonso Uchoa, 2016) é, dessa maneira, um filme numa linha tênue entre uma ficção narrativa e um documentário, algo que acaba sendo a fonte tanto de suas qualidades quanto de seus defeitos.

O elenco é formado de pessoas comuns, moradoras do Nacional, que recriam cenas do seu dia a dia naquela vizinhança. Essa escolha deixa tudo ainda mais orgânico e realista, contando com performances bastante diretas, vivas e, por vezes, improvisadas. Além disso, essa característica também ajuda na química e interação entre essas personagens.

Interação é palavra chave aqui, pois penso que essa é onde a alma do filme se encontra. Os diálogos e como as personagens se relacionam entre si é a parte mais cativante e memorável do longa. O crédito disso vai tanto para o roteiro quanto para o trabalho do elenco, especialmente para “Juninho” e “Neguinho”, que se destacam. A amizade que esse grupo de jovens tem é bem retratada, bastante crível e um tanto familiar.

A obra também consegue fazer um bom trabalho em captar as dificuldades da vida na periferia, além dessas amizades. O convívio com a violência, as drogas e a criminalidade é constante e demonstrado de maneira honesta. A preocupação com a difícil realidade das classes mais baixas é o principal compromisso social desse filme, além de, é claro, afligir também alguns desses jovens.

O defeito, porém, de se ter um estilo documental em um filme narrativo é quando, em certas partes, o roteiro parece introduzir uma trama que trará uma consequência mais tarde, assim como em qualquer outra ficção, mas que, por conta desse estilo, acaba por não ter um desfecho. Em um momento, por exemplo, uma das personagens pede para outra pagar uma parte do que ele devia para um grupo de traficantes. Isso parece ser o início de um conflito, mas não leva a nada; ou ainda quando se mostram cenas que parecem simplesmente jogadas dentro do filme sem motivo aparente, como um show de metal seguido por um casamento.

“A Vizinhança do Tigre” é um filme honesto, bem escrito e bem executado. Na sua linguagem diferenciada, cria um retrato fictício, ao mesmo tempo que factível, da dura realidade dos moradores da periferia, um retrato humano acima de tudo. Mesmo com algumas estranhezas, essa linguagem cria realismo e interesse nas personagens e nas suas interações, maior qualidade do longa.