(Olhar de Cinema: Edição Especial #1) El Mar La Mar (2017) – Crítica

El mar la mar (2017)

nota: B+

Crítica: ★★★½  Público: ★★★
  • Direção: Joshua Bonnetta, J.P. Sniadecki
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 94min (1h34min)

A fronteira dos Estados Unidos com o México é, pra dizer o mínimo, hostil. Porém, talvez ainda mais hostil seja aquilo que envolve essa passagem no noroeste mexicano (e sudoeste americano): o deserto de Sonora, cenário do documentário El Mar La Mar (Dir. Joshua Bonnetta e J.P. Sniadecki, 2017).

O filme se divide em três partes, cada uma iniciada por um intertítulo. A primeira parte, chamada “O Rio”, é a menor das três e mostra a cerca existente na fronteira. A cerca é mostrada de maneira nada convencional, filmada em movimento (provavelmente de dentro de um carro) e, de início, com um zoom nas suas barras, criando um estranhamento assim que aparece. A princípio, nem se percebe o que é aquilo, parece ser apenas uma infinita sequência de grades. Antes de a câmera reduzir o zoom e revelar o que “aquilo” é, o filme cria uma visão misteriosa e ameaçadora dessa cerca que, acredito, tem como fim “prender” o espectador (no sentido literal da palavra) nesses primeiros minutos, além de servir como um certo prelúdio para o resto do filme.

O segundo ato, o maior deles, se chama “As Encostas”. É composto por uma série de depoimentos em áudio (nunca vemos o rosto dos depoentes), seguidos e antecedidos de imagens do deserto. Normalmente, as imagens anteriores ao áudio têm certa função ilustrativa, servindo de base para imagens mentais que o depoimento que se segue (em geral feito sobre um fundo escuro) vai sugerir. Isso gera uma espécie de padrão que move o filme para frente e mexe com o interesse e a expectativa da audiência. Essa, com certeza, é uma das melhores partes do filme; as sequências de imagens e falas são tão efetivas em formar imagens mentais, que, mesmo tendo visto o longa a pouco tempo, tenho dificuldade em distinguir o que foi mostrado e o que foi apenas contado.

Grande parte das entrevistas dessa segunda parte são relacionadas às dificuldades e o verdadeiro terror de se viver e de se movimentar pelo deserto. É um ambiente hostil a todo momento, e as falas mostram isso: é gente morrendo de fome, morrendo de sede, morrendo de frio durante a noite, se perdendo naquela imensidão e não conseguindo achar nada por quilômetros, tendo que lidar com toda espécie de animal agressivo e, se não fosse o bastante, existe ainda a dificuldade das autoridades de conseguir resgatar alguém perdido, pois a areia pode cobrir os rastros.

Porém, os que mais sofrem com isso são os imigrantes que, para atravessar a fronteira, têm que se sujeitar a essas adversidades e, como já estamos cansados de saber, as adversidades para eles não param quando acaba o deserto. Assim, tendo entrevistas em inglês e espanhol, o documentário não se coíbe de mostrar o sofrimento desses mexicanos, sendo um dos seus principais temas.

Essa segunda parte também é onde o filme tem a oportunidade de mostrar sua excelente fotografia. Deslumbrantes grandes planos são o destaque aqui, realçando a imensidão ameaçadora do deserto.

Então temos o último ato, chamado “A Tempestade”. Infelizmente, essa é a parte mais fraca do filme. Ela mostra umas imagens de tempestade, de vez em quando inserindo um texto lido por cima. Enquanto as duas primeiras partes tinham imagens interessantes e provocadoras, essa tem apenas uma tempestade no deserto. Esse conceito pode até soar como podendo ser impressionante (por ser algo incomum), mas assistí-lo não é tanto; é praticamente cinza pra todo lado, com alguns relâmpagos de vez em quando, e um texto que, no contexto da série de depoimentos que acabaram de acontecer, é só desinteressante.

“El Mar La Mar” é uma experiência imersiva, abstrata e, em geral, interessante. A ótima fotografia, o formato e as imagens do segundo ato impressionam e fazem esse filme ser tão bom quanto é. O terceiro ato, porém, diminui o ritmo e o interesse que os dois antecessores construíram. O resultado é um bom filme que se perde um pouco no final, mas que tem temas relevantes discutidos de uma maneira curiosa e bem executada.

(Série #1.1) Downton Abbey – 1ª Temporada (2010) – Crítica

nota: B+

CRÍTICA: ★½  PÚBLICO:
  • Título Original: Downton Abbey
  • Criação: Julian Fellowes
  • Direção: Brian Percival
  • Roteiro: Julian Fellowes (7 episódios), Shelagh Stephenson (1 episódio) e Tina Pepler (1 episódio).
  • Produção: Liz Trubridge, Nigel Marchant, Chris Croucher e Rupert Ryle-Hodges
  • Elenco: Hugh Bonneville, Laura Carmichael, Jim Carter, Brendan Coyle, Michelle Dockery, Joanne Froggatt, Robert James-Collier, Phyllis Logan, Elizabeth McGovern, Sophie McShera, Lesley Nicol, Dan Stevens, Maggie Smith, Jessica Brown Findlay, Siobhan Finneran, etc.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 2 episódios de 1h5min (65min) e 5 episódios de 47min. (365min ou 6h5min)
  • Classificação: 10 (BRA), PG (BBFC)

EPISÓDIOS

S01E01 (P:)

S01E02 (P:)

★ Pior

S01E03 (P:)

S01E04 (P:Pior)

S01E05 (P:)

S01E06 (P:★Top2)

★Top2

S01E07 (P:★Melhor)

★Melhor

(Crítica sem spoilers, por ser a primeira temporada)

Residentes em uma mansão cujo nome dá título a série, a família do Conde de Grantham (Bonneville) e seus empregados são o principal foco de Downton Abbey (2010-2015). A série retrata a vida desse coletivo de personagens, com seus respectivos conflitos, nesse cenário aristocrático do começo do século XX no Reino Unido.

Tendo em vista esta premissa, não é difícil perceber como o seriado é muito mais focado em personagens e nas suas interações do que, por exemplo, em uma história mais abrangente. O que não é o mesmo que dizer que não há uma história, mas sim que o foco está nas personagens e como elas reagem às diferentes tramas que vão sendo construídas. Nesse aspecto há muito a se elogiar. As personagens são, em grande parte, muito bem desenvolvidas e elaboradas, sempre despertando interesse no espectador, principalmente no que se refere às interações entre elas. Em um programa mais character-based como este, isso é essencial.

Algo que ajuda a dar ainda mais personalidade às personagens são as atuações. Contando com um elenco de atores excepcionais — como Hugh Boneville, Maggie Smith, Jim Carter e Michelle Dockery, entre outros — que apresentam ótimas performances, “Downton Abbey” se beneficia dessas interpretações para tornar cada um dos papéis mais reconhecíveis e únicos, numa pilha gigantesca de personagens que poderia, facilmente, se tornar confusa e difícil de se distinguir.

Um dos temas mais interessantes e recorrentes no decorrer dos episódios é o de conflito de gerações. Com a história se sucedendo durante o início do século XX, as personagens se vêm obrigadas a lidar tanto com novas tecnologias, como a eletricidade e o telefone, quanto com visões de mundo mais modernas — vindas, principalmente, das personagens mais novas. O confronto tradição contra modernidade vem a tona com bastante frequência, provocando impacto nas relações de uma família naturalmente conservadora. Desta forma, se aproveita mais uma maneira de expressar e desenvolver as personagens que, de diferentes modos, reagem e interagem nesse cenário conflituoso.

Outra consequência da ambientação histórica é o excelente design de produção (Donal Woods) e figurino (Susannah Buxton). Isso é uma característica bastante comum para produções de época em geral, porém, se tratando de uma produção televisiva, é bastante impressionante de qualquer forma. E mesmo que Downton que não seja um lugar real, para as tomadas externas, establishing shots e algumas tomadas internas foi utilizado uma casa senhorial de verdade, o Castelo de Highclere, na Inglaterra; demonstrando uma respeitável busca por realismo.

Outro exemplo de certa dedicação ao realismo é a inclusão de acontecimentos históricos na trama em alguns momentos da temporada. No primeiro episódio, por exemplo, o naufrágio do Titanic (1912) é o que dá início a história do episódio (e o que conduz a um dos principais enredos da temporada e da série como um todo).

No navio estavam dois possíveis herdeiros a uma fortuna e à propriedade de Downton: James Crawley e Patrick. Com seus dois herdeiros mais próximos agora mortos, Robert e Cora Crawley (McGovern), Conde e Condessa de Grantham, passam a se preocupar em achar alguém que conheçam, e saibam que possam confiar, para casar com sua filha mais velha, Lady Mary (Dockery), e no futuro herdar os seus bens. Enquanto isso, somos introduzidos ao resto das personagens, como as outras duas irmãs, Lady Edith (Carmichael) e Lady Sybil (Findlay), a avó Lady Violet (Smith), e aos empregados, Sr. Carson (Carter), Sra. Hughes (Logan), O’Brian (Finneran), Thomas (James-Collier), Anna (Frogatt), entre outras.

Uma personagem introduzida nessa premiere (não só para a audiência, também para grande parte dos personagens) é John Bates (Coyle). Contratado como valet, no início ele é menosprezado pelo resto dos criados por ser manco e usar uma bengala. Amigo pessoal do senhorio, Bates é uma das melhores personagens da série e com certeza uma das mais simpáticas e compreensíveis. Além disso, sua história é um pouco cercada de mistério, o que só o torna mais interessante.

Quanto aos diálogos, diria que o roteiro é muito bom, e as atuações e o foco em personagens só ajudam. Quanto, porém, a estrutura e história, existem certas estranhezas. Em alguns episódios acontecem reviravoltas repentinas na história sem aparente razão ou desenvolvimento, chegando às vezes a parecer mais soluções Deus Ex Machina do que propriamente acontecimentos justificáveis (mesmo que estes também existam dentro da temporada).

O que incomoda também é que, dentro de uma conjuntura que já julguei realista, existem certas situações um tanto cartunescas que acabam por retirar um pouco essa realidade, se contrastando do resto. Além das já citadas reviravoltas (que nem sempre são desse jeito), existem duas personagens que são claramente construídas como vilões. Eles até têm seus motivos e seus momentos de humanidade, mas em várias circunstâncias parecem um pouco maus demais sem um motivo compreensível.

Algo que pareceu um problema maior no começo da temporada, mas que do meio pro final deixou de ser algo expressivo é que, pelo menos no começo, as histórias dos empregados pareciam ser muito mais interessantes do que o que acontecia com os senhorios. Porém, a partir de um ponto, as histórias da família passaram a ser cada vez mais envolventes e aquelas incluindo os criados se tornaram ainda mais interligadas com as dos Crawleys, resultando em episódios melhores em sua integridade.

Hierarquias estão presentes em várias das relações da série: entre os patrões e trabalhadores, entre os próprios aristocratas, os empregados entre si, entre homens e mulheres, etc. O seriado (pelo menos nessa temporada) não faz algo que se poderia chamar de “crítica”, explicitamente pelo menos, a esses tipos de relação social. No entanto, alguns pequenos enredos e relações (que seriam mais explorados em temporadas posteriores) expõe algumas desigualdades, incluindo aquelas que se encaixam na já citada percepção de tradição x modernidade.

Contando com um grande elenco, bons diálogos, personagens memoráveis e uma produção impressionante, a primeira temporada de “Downton Abbey” é uma boa introdução à série. É mais consistente na qualidade de seus episódios do que nas reviravoltas da história, mas consegue prender o espectador e ser, em geral, uma temporada muito bem executada.

(Anime #1.1) Little Witch Academia (2013) – Crítica

Little Witch Academia (2013)

nota:

PÚBLICO: ★½
  • Título Original: リトルウィッチアカデミア (Ritoru Witchi Akademia)
  • Direção: 吉成 曜 (You Yoshinari)
  • Roteiro: 大塚 雅彦 (Masahiko Ôtsuka)
  • Produção: 堤 尚子 (Naoko Tsutsumi)
  • Elenco: 潘 めぐみ(Megumi Han), 折笠 富美子 (Fumiko Orikasa), 村瀬 迪与 (Michiyo Murase), 日笠 陽子 (Yôko Hikasa), 伊東 範子 (Noriko Hidaka), etc.
  • Gênero: Animação, Fantasia, Comédia
  • Duração: 26min

Quando criança, Akko (Han) assistiu uma apresentação de Shiny Chariot (Hidaka), uma bruxa famosa por seus shows espalhafatosos de magia. Desde então, decidiu que também iria se tornar uma bruxa. Anos mais tarde, entra para a Academia Mágica de Luna Nova, uma escola de magia, onde Chariot havia estudado. Porém, além de ter dificuldade em várias matérias, ninguém parece mais levar seu ídolo a sério. Little Witch Academia (dir. Yon Yoshinari, 2013) é, em grande parte, sobre Akko, com sua grande confiança e na companhia de suas duas amigas, Lotte (Orikasa) e Sucy (Murase), tentando se provar e ser a aceita pelo resto de Luna Nova, enquanto se mete em confusões e encontra criaturas fantásticas.

Algo a se apreciar nesse pequeno curta são as personagens. Ainda que sejam bastante simples, isso não as torna rasas. O espectador consegue facilmente compreender como elas são sem a necessidade de muita explicação, mas não a ponto de pecar pela falta dela. Isso é bastante complicado de se conseguir fazer e perfeito para esse formato curto. Além disso, elas são bastante carismáticas e contam com um excelente design e animação de personagem, o que só ajuda em criar simpatia por elas.

A animação é bela e fluida. Isso fica evidente em cenas que envolvem ação e magia, trazendo uma sensação de velocidade e um ar de encantamento. As cores também são incríveis e complementam o traço do desenho perfeitamente. Os planos de fundo, como é de costume em animes, também são incríveis e ajudam a construir os cenários do mundo mágico em que a história se passa.

A música também é muito boa. Inclusive, várias composições usadas neste curta acabaram sendo reutilizadas mais tarde quando a série Little Witch Academia (2017) (mais uma reformulação do que continuação do curta) foi lançada, incluindo, mais notavelmente, o incrível tema de Shiny Chariot.

Mesmo com uma história não muito original (escola de bruxaria, onde vimos isso antes?), Little Witch Academia é uma obra muito impressionante e extremamente divertida. Das personagens à animação, das cores à música, tudo é de primeira qualidade e produto de muito esforço e dedicação. Ótimo.

(Cartoon #1.1) DuckTales: Os Caçadores de Aventuras (2017) – 1ª Temporada (2017-2018) – Crítica

Bobby Moynihan, Kate Micucci, Danny Pudi, and Ben Schwartz in DuckTales (2017)

nota: A-

CRÍTICA: ★½  PÚBLICO:
  • Título Original: DuckTales
  • Desenvolvimento para a Televisão: Francisco Angones e Matt Youngberg
  • Direção: John Aoshima (8 eps.), Dana Terrace (6 eps.), Matthew Humphreys (7 eps.), Tom Owens (3 eps.), Francisco Angones (1 ep.), Tanner Johnson (4 eps.)
  • Roteiro: Francisco Angones (4 ep.), Rachel Vine (1 ep.), Madison Bateman (5 eps.), Bob Snow (5 eps.), Christian Magalhaes (5 eps.), Colleen Evanson (5 eps.), Noelle Stevenson (1 ep.), Ben Joseph (1 ep.)
  • Produção: Suzanna Olson e Francisco Angones
  • Elenco: David Tennant, Ben Schwartz, Danny Pudi, Kate Micucci, Bobby Moynihan, Tony Anselmo, Kimiko Glenn, Toks Olagundoye, etc.
  • Gênero: Animação, Aventura, Comédia
  • Duração: 2 episódios de 44 min e 21 episódios de 22min (550min ou 9h10min)
  • Classificação: (BRA) TV-Y7 (US)

EPISÓDIOS

S01E01 – Woo-oo! / Escape to/from Atlantis! (P: ★Top4)

½ ★Top4 / 

S01E02 – Daytrip of Doom! (P: ½)

S01E03 – The Great Dime Chase! (P: ★Top5)

S01E04 – The Beagle Birthday Massacre! (P: ½)

S01E05 – Terror of the Terra-Firmians! (P: ½)

S01E06 – The House of the Lucky Gander! (P: )

S01E07 – The Infernal Internship of Mark Beaks! (P: ½ Pior)

½ Pior

S01E08 – The Living Mummies of Toth-Ra! (P: )

S01E09 – The Impossible Summit of Mt. Neverrest! (P: )

S01E10 – The Spear of Selene! (P: )

S01E11 – Beware the B.U.D.D.Y. System! (P: )

½

S01E12 – The Missing Links of Moonshire! (P: )

S01E13 – McMystery at McDuck McManor! (P: ½)

S01E14 – Jaw$! (P: )

S01E15 – The Golden Lagoon of White Agony Plains! (P: )

½ ★Top5

S01E16 – Day of the Only Child! (P: ½)

S01E17 – From the Confidential Casefiles of Agent 22! (P: )

S01E18 – Who is Gizmoduck?! (P: ½)

S01E19 – The Other Bin of Scrooge McDuck! (P: )

S01E20 – Sky Pirates… in the Sky! (P: ½)

S01E21 – The Secret(s) of Castle McDuck! (P: ★Top3)

½ ★Top3

S01E22 – The Last Crash of the Sunchaser! (P:½ ★Top2)

½ ★Top2

S01E23 – The Shadow War! (P: ½ ★Melhor)

½ ★Melhor

(Crítica sem spoilers, por ser a primeira temporada)

Um sentimento completamente compreensível é a apreensão quanto ao reboot. Sempre que é anunciado um reboot de uma série, principalmente se é uma série clássica e com alto valor nostálgico, haverá, inevitavelmente, reclamações vindas dos fãs da original. Não foi diferente quando anunciaram DuckTales: Os Caçadores de Aventuras (2017-), baseado no desenho animado de mesmo nome lançado em 1987. Porém, o novo desenho completamente superou as expectativas já no seu primeiro episódio, sendo um ótimo exemplo tanto de como se renovar uma série, quanto de como as animações televisivas da Disney têm mantido sua qualidade.

A premissa básica se mantém a mesma: os sobrinhos do Pato Donald (Anselmo), Huey, Dewey e Louie (Pudi, Schwartz e Moynihan), saem em aventuras pelo mundo com seu Tio-Avô bilionário Scrooge McDuck (Tennant). Porém, um dos aspectos que torna essa reimaginação tão especial e boa não é algo que se manteve, mas que foi adicionado: mais desenvolvimento e personalidade às personagens. Os sobrinhos trigêmeos, por exemplo, que sempre foram representados, praticamente, como clones uns dos outros sem nada além das roupas para os diferenciar, têm personalidades diferentes entre si e, em vários episódios, seguem em aventuras separadas sem estarem sempre juntos como era de costume.

Outras duas personagens que sofreram alterações interessantes foram o Scrooge e a Webby (Micucci). Webbigail Vanderquack, que no original era feita para tentar atrair o público feminino, mas que se tornou uma das personagens mais detestadas pela audiência, é recriada de maneira completamente diferente. Agora a neta da empregada Beakley (Olagundoye), em vez de ser simplesmente “a menina” do grupo, é uma personagem bem mais elaborada, e, certamente, a mais divertida da série. É uma menina ágil, inteligente e aventureira, mas com dificuldades de interação, que é obcecada pela família do Sr. McDuck, além de ser parte importante das aventuras e da trama maior que se forma no decorrer da temporada.

Scrooge, por outro lado, não recebe muita alteração na sua personalidade, mas lhe é adicionado uma história de fundo junto com Donald: os dois brigaram por alguma razão, que eles guardam em segredo dos sobrinhos, e por isso deixaram de se falar por vários anos. A revelação do porquê é uma das melhores e mais emotivas cenas da série.

O primeiro episódio, sendo dividido em duas partes de 22 minutos, faz o papel de introduzir o seriado e as personagens na sua primeira parte e uma espécie de “exemplo de aventura” na segunda, demonstrando já de início os dois principais tipos de episódio que iriam acontecer dali pra frente. Essa premiere também introduz um dos principais vilões, o segundo pato mais rico do mundo e arqui inimigo de Scrooge, Flintheart Glomgold.

Os episódios variam entre os mais “slice of life”, que mostra o cotidiano da família, seja dentro da mansão de Scrooge, seja na cidade de Duckburg; os mais focados nas aventuras, normalmente acontecendo no exterior; e os que misturam os dois formatos, contendo aventuras menores num espaço mais familiar. Entre isso tudo, existe uma história principal que lentamente se constrói e culmina no excelente finale, ainda deixando alguns mistérios não resolvidos. Dos três tipos, o segundo acaba rendendo os episódios melhores e mais interessantes, mesmo que todas as três categorias contenham ótimos capítulos. A série quanto à qualidade é bastante constante e muito boa, inclusive no que se refere à animação.

Nesse tópico, aliás, o desenho consegue criar uma identidade visual que parece tanto nova como antiga e que remete ao tracejado dos quadrinhos. A escolha de colorir certas partes do cenário, ou certos objetos, usando pequenos pontinhos coloridos, característicos de histórias em quadrinhos antigas (das quais vêm vários personagens da série), demonstra isso.

Nesta mesma linha, pode-se apontar uma das maiores qualidades da série como reboot, qualidade essa que é compartilhada com o que há de melhor entre remakes e reboots: um grande respeito ao original, tentando ao mesmo tempo ser algo novo e diferente enquanto presta homenagem ao antigo. Várias referências, piadas internas e personagens têm origem na série de 1987 e outras animações do bloco “Disney Afternoon”, como Darkwing Duck (1991-1992), Os Ursinhos Gummi (1985-1991) e Esquadrilha Parafuso (1990-1991).

Já entre as personagens novas, duas se destacam: Mark Beaks e Lena. Beaks é um novo vilão, CEO de uma grande empresa de tecnologia e rival bilionário de McDuck e Glomgold. A inspiração em empresários como Mark Zuckerberg e afins é clara e serve, entre outros motivos (que seriam spoilers), para atualizar o desenho para um cenário de século XXI. Nas suas primeiras aparições, ele é desagradável e irritante, mas com certos acontecimentos secundários na história, ele se torna relativamente mais justificável como personagem. Lena é uma amiga de Webby que tem uma sombria conexão com a história principal e é forte concorrente para a melhor personagem da série.

Contando com um humor inteligente, ótimos personagens, excelentes episódios e uma animação muito bem trabalhada, DuckTales é mais um acerto no histórico recente de desenhos da Disney. Com isso em mente também, essa se configura como uma das melhores primeiras temporadas na memória recente da produtora; e se isso é indicação de algo, é que só vai melhorar daqui para frente. Woo-oo!

Double Feature #1 – Cidadão Kane (1941) / Death of a Nation (2018) – Crítica

Double Feature #1

Esta é a primeira edição de Double Feature, um quadro que planejo ser recorrente nesse site e que tem como objetivo expressar minha opinião sobre dois filmes ou duas temporadas de séries por vez. Sempre um(a) dos filmes/temporadas será um(a) com avaliações positivas da crítica ou do público e o(a) outro(a) será exatamente o oposto, um(a) filme/temporada avaliado(a) negativamente. Para isso, me basearei em dois sites: um para a opinião da crítica, o Metacritic; e o outro para a opinião do público, o Internet Movie Database (IMDb).

Nesta edição, temos os dois extremos da crítica. De um lado, o filme mais bem avaliado do Metacritic (nota 100), o clássico Cidadão Kane (Dir. Orson Welles, 1941). Do outro lado, o filme pior avaliado do site (nota 1), o documentário político Death of a Nation (Dir. Dinesh D’Souza e Bruce Schooley, 2018).

Orson Welles in Citizen Kane (1941)

CIDADÃO KANE

nota: A+

CRÍTICA:  PÚBLICO:
  • Título Original: Citizen Kane
  • Direção: Orson Welles
  • Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles
  • Produção: Orson Welles
  • Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, etc.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 119 min (1h59min)
  • Classificação: 10 (BRA) / PG (MPAA)

É difícil simplesmente escrever uma crítica para Cidadão Kane. Para falar a verdade, é quase um desafio. Eu poderia sentar aqui e escrever elogio após elogio, superlativo após superlativo e então publicar. Porém, eu não só acho que isso não seria o suficiente, mas também acho que ficaria bastante repetitivo e meio cliché.

Por quê? Bem, porque esse filme é amplamente considerado como um dos melhores (se não o melhor), o mais revolucionário e um dos mais influentes filmes já feitos. Portanto, eu seria apenas mais um o reverenciando. Com isso dito, realmente penso que qualquer problema que alguém possa, seriamente, ter com esse filme ou é resultado de quebra de expectativa ou alguma implicância irritante.

Este longa é, com toda seriedade, uma inegável obra-prima, especialmente se considerada a época em que foi feito. Pode-se dizer que o cinema hoje não seria o mesmo sem Cidadão Kane.

A história começa com a morte de Charles Foster Kane (Welles), um milionário magnata da comunicação. Em seu leito de morte, profere sua última palavra: “rosebud”. Sem contexto ou ideia do que aquilo signifique, um grupo de jornalistas se compromete a investigar a vida de Kane até descobrir o significado.

O filme então se compõe de entrevistas e flashbacks que mostram a vida do empresário sob os olhos de seus conhecidos, amigos ou não, construindo no processo um quebra-cabeça tridimensional, diverso e não linear, que é o personagem de Charles Foster Kane.

Apresentando um arco de ascensão e queda por meio de uma narrativa recortada, não linear e relativamente complexa, e contando com várias qualidades técnicas, “Cidadão Kane” foi inovador para o seu tempo e, talvez ainda mais relevante, influenciou o cinema posterior a ele. Uma maneira simples de se notar isso é assistir um filme, por exemplo, da década de 1930 e então “Cidadão Kane” e ver qual mais se parece com um longa que seria lançado nos dias de hoje (o que também é testemunha à atemporalidade da obra).

Os principais papeis do filme são interpretados por atores de rádio e teatro, fazendo suas primeiras aparições no cinema. A qualidade das perfomances,  surpreendentemente, não é de forma alguma prejudicada por isso, sendo de nível excepcional.

“Cidadão Kane” é um estudo de personagem excelentemente bem construído que até hoje influencia inúmeros cineastas. Tem atuações incríveis, principalmente a de Welles, uma bela fotografia, ótima direção, um roteiro incrível… e lá vou eu escrevendo elogio após elogio. Bem, isso tudo simplesmente se resume no fato de que esse é um dos melhores filmes já feitos e uma obra-prima que todos deveriam ver.

Don Taylor in Death of a Nation (2018)

DEATH OF A NATION

nota: F

CRÍTICA: ½  PÚBLICO:
  • Direção: Dinesh D’Souza e Bruce Schooley
  • Roteiro:Dinesh D’Souza e Bruce Schooley (baseados nos livros “The Big Lie” e “The Death of a Nation” ambos por Dinesh D’Souza).
  • Produção: Gerald R. Molen
  • Elenco: Dinesh D’Souza, Victoria Chilap, Pavel Kríz, etc.
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 108min (1h48min)
  • Classificação: PG-13 (MPAA)

Eu percebo que é bem normal que alguém que tenha certa posição política não só discorde mas também desgoste de um filme, especialmente um documentário, se esse filme tenha uma posição diferente, até oposta à do expectador. Por exemplo, é esperado que alguém mais politicamente progressista não gostaria de um documentário mais conservador e vice-versa. Contudo, esse não é um documentário político comum e os problemas que ele tem estão muito além de uma simples discordância política.

Para tentar explicar esta… coisa, olhemos para a premissa e a conclusão de todo o argumento que ela tenta transmitir:

Premissa – os nazistas são de esquerda

Conclusão – Donald Trump é como o novo Abraham Lincoln e ele vai salvar os Estados Unidos de um novo plantation político [o que quer que isso signifique] do Partido Democrata (que são nazistas, aliás)

QUE?!

Pois então; entre aquela premissa idiota e essa conclusão maluca, existe esse filme: uma série de falácias, interpretações errôneas, teorias da conspiração e mentiras completas que tentam de alguma forma conectar aqueles dois argumentos enquanto também faz recriações de cenas históricas da Segunda Guerra e entrevistas extremamente vergonhosas.

Aliás, essas entrevistas são grande parte do filme e são praticamente todas a mesma coisa: o co-diretor e roteirista, Dinesh D’Souza, falando com alguém (nem sempre alguém de relevância para o assunto) e tentando conseguir citações deles que de alguma forma “provem” o ponto que ele quer confirmar. Ele sempre faz aquelas estúpidas perguntas do tipo “então o que você está dizendo é…” para que consiga fazer os entrevistados dizerem o que ele quer que eles digam. Isso é vergonhoso.

Uma dessas várias entrevistas é uma que, sozinha, destrói todo o argumento do documentário porque destrói a sua (estranha) premissa. Ele fala com o líder supremacista branco Richard Spencer, da Alt-Right. Spencer diz ser um conservador que apoia Donald Trump. A partir daí não deveria haver dúvida que nazistas são de direita se alguém que é neo-nazista diretamente te diz isso! Mas MESMO ASSIM D’Souza consegue tirar as palavras “bem, então acho que sou progressista” da boca dele e continua a negar a Alt-RIGHT como sendo de direita; simplesmente passa a incluí-la como uma das enganadas pela conspiração (e eu nem mencionei a parte em que ambos comparam Spencer a Malcolm X).

Durante essa entrevista, como também em outras partes do filme, o co-diretor parece confundir significados da palavra “progressista”. Quando ele fala de Megele, o médico nazista, ele diz que Mengele era “a favor do progresso”, portanto, ele era um “progressista”. Se você acredita que “progressista” no sentido comum e “progressista” no sentido político da palavra são a mesma coisa, ou você é alguém politicamente progressista ou… você talvez seja o Dinesh D’Souza.

No decorrer de todo o filme há inconsistências e falácias como essas. A coisa do “democratas são como nazistas” é em grande parte baseado no argumento completamente ilógico de que ‘se os democratas são esquerdistas e os nazistas são esquerdistas, então os democratas são nazistas”. Esse é o nível lógico que se está lidando quando se analisa esse filme. E isso é quando o filme não está simplesmente contando mentiras. Ele seriamente tenta argumentar que os nazistas tinham nenhum problema com a homossexualidade! Isso é brincadeira? Não, isso é uma absurda e revoltante MENTIRA. Gays foram perseguidos e mortos durante o regime nazista, tenha o mínimo de respeito.

Se isso não fosse o suficiente, ele usa a mentira dos ‘nazistas gostavam de gays’ para dizer que os nazistas não podiam ser de direita porque, aparentemente, você precisa ser homofóbico para ser conservador; mesmo que, minutos antes, D’Souza tenha dito que isso não era verdade e tentado associar homofobia à esquerda.

Ele também usa o fato do programa nazista dizer coisas como “serviço de saúde público” para associar o nazismo com Bernie Sanders e Elizabeth Warren (ambos defensores de do serviço de saúde público nos EUA), o que não faz o menor sentido (e Sanders ser de família judia faz disso ainda mais nojento).

As recriações da Segunda Guerra Mundial não são tão ruins, mesmo que sirvam um propósito péssimo e tenham imprecisões históricas. O longa também conta com dois números musicais gospel que só deixam tudo um pouco mais bizarro.

Death of a Nation é um lixo completo. É um filme estúpido que tenta associar adversários políticos a pessoas monstruosas e falha em todos os níveis concebíveis. Seja qual for sua opinião política, isso não muda o fato que esse filme é um pacote de mentiras, teorias da conspiração, pura lógica idiota, falácias, concepções e interpretações erradas, ou, em resumo, um papo furado de m****.

Drácula (1931) – Crítica

Bela Lugosi in Dracula (1931)

nota: B+

CRÍTICA: ★★★½ PÚBLICO: ★★★½
  • Título Original: Dracula
  • Direção: Tod Browning e Karl Freund
  • Roteiro: Hamilton Deane, John L. Balderston e Garrett Fort (baseado no livro de Bram Stoker)
  • Produção: Tod Browning e Carl Laemmle Jr.
  • Elenco: Bela Lugosi, Helen Chandler, David Manners, Dwight Frye, Edward Van Sloan, Charles Gerrard, etc.
  • Gênero: Suspense, Fantasia, Terror
  • Duração: 75 min (1h15min)
  • Classificação: 12 (BRA)

Se hoje temos os vampiros na nossa cultura popular é seguro dizer que devemos isso à clássica obra Drácula, escrita por Bram Stoker em 1897, e a sua mais famosa adaptação para o cinema, feita pela Universal em 1931. A história conta sobre um conde vampiro que se muda da Transilvânia para Londres em busca de sangue novo. Com ele, um agente imobiliário hipnotizado chamado Renfield (Frye). A trama acompanha como seus novos vizinhos, Mina (Chandler) e John Harker (Manners), lidam com essa situação, ajudados pelo cientista Van Helsing (Von Sloan). O que se discorre daí é um bom e clássico filme de terror.

Há realmente dois aspectos que fazem esse filme ser tão bom quanto é: a atmosfera e Bela Lugosi como Drácula.

Por ser um filme do início do cinema com som, existem diversos momentos de silêncio ou com uma trilha sonora discreta ao fundo. Isso resulta em um clima sombrio durante todo o filme, especialmente no início. Esta característica inclusive torna o primeiro ato, discutivelmente, a melhor parte do filme: contando com uma narrativa visual mais forte e apelando bastante para a atmosfera aterrorizante, o longa consegue amedrontar o espectador antes mesmo de Drácula chegar a Londres ou até antes de sermos introduzidos a ele.

Existem inúmeros filmes baseados na obra original de Bram Stoker, e, com isso, várias interpretações do conde, por vários atores diferentes. Porém, nenhuma foi, e, arrisco dizer, nenhuma será tão icônica quanto a de Bela Lugosi. Sempre que há alguma imitação ou referência à personagem, as pessoas tendem a pensar ou se basear na performance dele; o sotaque e o seu jeito pausado de falar se destacam e tornam a personagem ameaçadora e arrepiante. Com isso dito, devo dizer que sua atuação, mesmo com suas qualidades, não é perfeita e hoje em dia talvez pareça meio tosca (talvez até por ter sido satirizada tantas e tantas vezes).

Outra atuação que se destaca é a de Dwight Frye como Renfield; ele rouba para si todas as cenas em que está presente e a completa insanidade de seu personagem só ajuda a performance dele a se destacar. Uma cena em especial em que explica a Van Helsing como foi chamado por Drácula ao escapar do hospício é simplesmente incrível; nela, ele brilhantemente nos faz criar uma perturbadora imagem mental do que ele descreve, mesmo o filme não nos mostre nada.

Um personagem de alívio cômico chamado Martin (Gerrard) de vez em quando aparece. Ele é funcionário do hospício em que Renfield está internado na maior parte do filme e, por isso, vai buscá-lo todas as vezes (note: vezes, no plural) que ele escapa. Nem sempre o humor que ele quer passar funciona e como a maioria de suas cenas são dividas com Renfield, sua presença é obscurecida por Frye.

Penso que único grande problema que eu tenho com esse filme é o final. Sem revelar muito, o filme termina de maneira abrupta e até anticlimática. Qualquer outra reclamação que eu tenho ou é algo pequeno ou é algum cliché do gênero (que esse filme ajudou a sedimentar como cliché em primeiro lugar).

Um desses clichés, e talvez o mais recorrente, é incorporado por Van Helsing. Ele é o especialista, aquele que tem um conhecimento especifico, no caso sobre vampiros, entre um grupo de ignorantes. Ele sabe e revela, por meio de exposição, informações sobre vampiros para a audiência e o resto dos personagens: o fato que são repelidos por cruzes e não têm reflexo no espelho, por exemplo.

Definitivamente não é um filme perfeito, mas continua sendo bem sólido e com pontos positivos bastante satisfatórios. A atmosfera fantástica e as atuações memoráveis fazem valer a pena aquele que é um dos filmes de monstro mais icônicos da Universal.

O Custo da Coragem (2003) – Crítica

nota: B –

Crítica: ½  Público: ★★★
  • Título Original: Veronica Guerin
  • Direção: Joel Schumacher
  • Roteiro: Carol Doyle, Mary Agnes Donoghue (baseado numa história real)
  • Produção: Jerry Bruckheimer
  • Elenco: Cate Blanchett, Gerald McSorley, Ciárian Hinds, Brenda Fricker, etc.
  • Gênero: Drama, Biografia
  • Duração: 92 min (1h32min)
  • Classificação: 16 (BRA) / (MPAA)

O jornalismo já se mostrou diversas vezes como importante para provocar mudanças, porém, essas mudanças nem sempre vêm sem algum sacrifício, e por vezes é esse sacrifício que torna o agir da profissão tão perigoso, principalmente em certas áreas de atuação. Veronica Guerin é um exemplo de uma jornalista que morreu na prática de sua profissão e cujo trabalho foi importante para que uma mudança fosse incentivada. “O Custo da Coragem” (Dir. Joel Schumacher, 2003) se propõe a contar a história por trás das reportagens que Guerin escreveu sobre o tráfico de drogas na Irlanda, tanto na perspectiva da sua vida pessoal quanto da profissional e dos acontecimentos que eventualmente levaram ao seu assassinato.

Em termos gerais, não há muito de especial nesse filme. O que mais se destaca é a performance de Cate Blanchett, que, apesar de não ser extraordinária, se destaca entre um elenco particularmente mediano. Ciarán Hinds tem um papel coadjuvante, mas um pouco mais central que outros, como um criminoso que serve como fonte para Guerin e sua atuação também se destaca um pouco, mas não tanto quanto a de Blanchett.

O filme parece por vezes estar mais focado em ser sobre a vida de Veronica Guerin enquanto suas reportagens eram publicadas do que ser sobre o seu trabalho em si. Isso acaba virando um certo problema, principalmente para o roteiro e para o ritmo do filme. Isso porque não se vê durante o longa muitas cenas de Veronica escrevendo seus textos ou das consequências das suas publicações. Explicando dessa forma pode não parecer um problema, mas ao ver o filme, se torna um pouco estranho ver ela sentada escrevendo uma ou duas vezes e um tempo depois ela dizer que já tem mais de dez reportagens publicadas. Além disso, os chefes de gangues que ela denuncia em suas reportagens de vez em quando tentam enganá-la dando informações falsas por meio de sua fonte (Hinds). Porém, nunca vemos os resultados nem as consequências de quando essas “barrigas” que ela publica se mostram falsas.

Algo que notei durante todo o filme e não sei se, pelo fato do filme ter sido baseado numa história real, posso por na conta do roteiro, é como Guerin, pelo menos como é representada, não é nada sutil, chegando até a ser estupidamente direto ao ponto. Por exemplo, no início do filme ela tem suspeita de que uma certa pessoa é responsável pelo tráfico em certa região; ela chega na casa dele, e tenta falar com ele gritando do quintal que ela quer falar sobre o tráfico de drogas (…genial). Também pode ser questionada a quantidade de confiança que ela põe numa fonte que, além de ser um criminoso, a passa informações falsas com certa frequência durante o filme.

Foi um pouco surpreendente o fato do filme ser classificado como “restricted” (para maiores de 17) nos Estados Unidos, porque mesmo que o filme contenha algumas mortes, nenhuma delas é muito violenta e o filme parece fazer de tudo pra ser o menos violento ou explícito possível com os assuntos que trata: mostra pessoas drogadas com heroína e seringas no chão, nunca alguém usando, mostra uma gangue executando outra com cortes rápidos após os tiros para não mostrar muito sangue, entre outros momentos que me fizeram pensar que o filme estava tentando de tudo pra não conseguir um R mas de alguma forma conseguiu. Novamente, isso pode não parecer um problema, mas é algo constante e que até torna certas cenas confusas.

Outro problema são os vilões: os chefes das gangues de traficantes. Digo vilões não só porque eles são responsáveis pela morte de Guerin (o que de certa forma já seria o suficiente para considerá-los assim) mas também porque eles são retratados dessa forma a um nível que chega às vezes ao cartunesco. Isso com certeza deixa o filme um pouco mais difícil de se levar a sério.

No entanto, essa cinebiografia consegue se segurar, mesmo com seus problemas de roteiro, como um filme ok. A direção é competente, a fotografia é decente o suficiente e o longa consegue retratar bem a sua personagem central, contando com uma boa atuação e conseguindo, mesmo com problemas, contar a sua história de maneira compreensível e que destaca a relevância de seus temas.